O Paraíso é aquele lugar onde o humor é britânico, os cozinheiros são franceses, os mecânicos são alemães, os amantes são portugueses e tudo é organizado pelos suíços.
Paraíso vs. Inferno
jmmcc,
O Paraíso é aquele lugar onde o humor é britânico, os cozinheiros são franceses, os mecânicos são alemães, os amantes são portugueses e tudo é organizado pelos suíços.
«António Costa e Santana Lopes taco-a-taco na corrida à Câmara de Lisboa», segundo uma sondagem recente. Mais um fantasioso «empate técnico»?
Atente-se à notícia para tentar perceber: «António Costa e Pedro Santana Lopes estão empatados na corrida à Câmara de Lisboa». Sim, parece ser mais um fantástico «empate técnico».
Mesmo assim, leia-se melhor para tirar teimas: «António Costa e Pedro Santana Lopes estão empatados na corrida à Câmara de Lisboa, encontrando-se separados apenas por um ponto percentual.» Ah! É mesmo um engraçado «empate técnico».
Porém, o problema da escassa diferença resolve-se: um ganha e outro perde. As empresas de sondagens e a imprensa é que estão empatadas: têm o mesmo problema técnico. Ou será mental?
Inesperadamente, Sócrates quis esfriar a polémica fora do PS e abriu a polémica dentro do partido: impediu as candidaturas duplas às legislativas e às autárquicas, estragou o sonho de alguns candidatos socialistas e salvou os seus pares já com lugar assegurado no Parlamento Europeu (PE) e que levam em frente as suas candidaturas a autarcas.
Não admira que alguns candidatos duplos do PS estejam a protestar e que outros estejam felizes. Entre os que não cabem em si de contentes estão, por exemplo, Elisa Ferreira, candidata ao Porto, e Ana Gomes, candidata a Sintra, ambas já com assento garantido no PE: a primeira nem encontra palavras para descrever a sua satisfação; a segunda vai dizendo que concorda com a decisão para pôr cobro aos dichotes lançados pela oposição.
Ana Gomes até diz mais: «Neste momento, sou candidata apenas à câmara municipal e, se for eleita, é na câmara que fico; se não for eleita, é no PE que fico em exclusividade». Claro que sim: ela não é também candidata às legislativas, os outros dois cargos à escolha são exercidos em exclusividade e um deles já está no papo. Mas não é bem como ela diz: perder a presidência da câmara de Sintra não é perder a câmara, só que Ana Gomes está visto que desistirá de ser vereadora para ser eurodeputada.
Conclusão: Sócrates acaba com os candidatos duplos, mas não tem mão nos candidatos ambíguos. A única vantagem que retira é a de todos eles lhe mostrarem os dentes. Uns a sorrir, outros a rosnar.
Diz o antetítulo: «Candidata comentou proibição das candidaturas duplas». Lê-se no lead: «A candidata do PS à Câmara do Porto, Elisa Ferreira, recusou-se hoje a comentar a decisão do PS de proibir candidaturas duplas nas próximas eleições». Em que é que ficamos? Ela baralhou o Público?
Depois da candidatura à recente eleição para o Parlamento Europeu, Elisa Ferreira comentou assim a sua candidatura ao lugar de Rui Rio: «Estou no Porto com os pés, a alma e o coração.» Parece que ainda ficou muito para Bruxelas: as mãos, o subconsciente e o fígado, por exemplo. Em que é que ficamos? Ela baralhou o PS?
Foi neste belíssimo Vanwall VW5 que Stirling Moss esteve no 7.º Grande Prémio de Portugal, o último que teve lugar no velho circuito urbano da Boavista, no Porto, a 24 de Agosto de 1958.
Alinharam no Circuito da Boavista com Moss (1.º lugar), entre outros: Mike Hawthorn (2.º, Ferrari), Stuart Lewis-Evans (3.º, Vanwall), Jean Behra (4.º, BRM), Jack Brabham (7.º, Cooper-Climax), Tony Brooks (Vanwall), Graham Hill (Lotus-Climax), Jo Bonnier (Maserati) e Maria Teresa de Filippis (Maserati), a primeira mulher a pilotar um bólide da categoria de topo. Quem sabe destas coisas, não se esqueceu de nenhum deles.
O novo Circuito da Boavista está de regresso este fim-de-semana.
(Na foto em cima à direita: Sir Stirling Moss na actualidade.)
Após o acto eleitoral no Benfica, à pergunta do repórter da RTP sobre uma eventual impugnação das eleições, Manuel Vilarinho foi eloquente: «‘Tou-me cagando!» Qualquer dia é deputado. Ou ministro.
«Pinho: ‘É preciso dizer basta!!!’»
(Entrevista a Manuel Pinho, na manchete do Expresso)
12 de Fevereiro — Ainda há pouco tempo, tive ocasião de assinalar a chamada de atenção que o presidente da Assembleia da República fez a um secretário de Estado, quando este se dirigiu aos deputados tratando-os por «vocês». Esteve bem Jaime Gama, ao ensinar o tal secretário de Estado a portar-se com educação e respeito naquele órgão de soberania.
Ontem, de novo com o Governo presente no Parlamento, na sequência de uma cena acalorada entre Paulo Rangel e José Sócrates, ouviu-se alguém gritar: «Palhaço!» Pelas imagens, a intempestiva interjeição (?) pareceu partir de um deputado, pareceu saída de quem estava ao lado de Rangel e pareceu dirigida a Sócrates. Foi bem sonora e não constituiu um bom exemplo da elevação que devia caracterizar o hemiciclo. Jaime Gama deixou passar aquilo em claro, o que também não foi um bom exemplo.
O caso dá que pensar. Entre os habituais protagonistas das discussões mais acaloradas (membros de órgãos de soberania que até cultivam um linguajar apropriado), veja-se como José Sócrates, Paulo Rangel, Francisco Louçã, Paulo Portas, etc., se tratam entre si e se dirigem aos demais parlamentares e membros do governo: «é da sua competência», «cabe-lhe a si», «chamo a sua atenção», «fiz-lhe uma pergunta» e por aí fora.
Há tempos, este tratamento era impensável. Dizia-se: «é da competência de Vossa Excelência», «cabe a Vossa Excelência», «chamo a atenção de Vossa Excelência», «fiz uma pergunta a Vossa Excelência», etc., o que contribuía para um trato elevado, por mais aceso que fosse o tom da discórdia.
É mais ou menos como termos uma gravura pouco vistosa, mas razoavelmente interessante, ou talvez só uma mera reprodução que nos agrada, e decidirmos torná-la mais vistosa através de uma boa moldura. O resultado satisfaz o objectivo, que é valorizá-la e dignificá-la.
Ora, a crescente ligeireza no trato, ao invés de valorizar o confronto e dignificar o lugar, tem o resultado deplorável que se vê. Primeiro, dispensa-se a gravata; depois, vai-se discursar na tribuna em camisolinha de algodão de gola em colar e sem camisa por baixo; finalmente, passa-se à linguagem brejeira, à gíria e (quem sabe?) ao calão. Como se a vida em sociedade não tivesse regras e como se estar na Assembleia da República fosse o mesmo que ir comer uma sardinhada no tasco ali ao lado do mercado.
É grave não usar gravata? Sei lá se é grave. Grave é a camisa aberta e o que se lhe segue. Se a camisa ‘à padre’ sem colarinho e fechada em cima ou a camisola de gola alta não servem, como farão os da postura inadequada perante uma recepção em traje de noite, por exemplo? Imagino: «A esta palhaçada não vou! Cambada de palhaços!»
Palhaços? Talvez, sim. A juntar aos malabaristas, acrobatas e contorcionistas da nossa política. Se querem que o hemiciclo seja um circo, acho que já faltou mais…
22 de Maio — Ainda ontem Jaime Gama teve de repetir uma chamada de atenção na sessão plenária com o governo. O presidente da Assembleia da República precisou de conter o ministro Manuel Pinho, que insistia em dirigir-se aos parlamentares tratando-os por «vocês». Cada vez mais elegantes, os nossos políticos.
Longe vai o tempo em que todos se tratavam por "Vossa Excelência" no hemiciclo, o que até servia para elevar os momentos mais acesos dos debates. De "Vossas Excelências" a "vocês" foi um percurso à TGV, sem paragem na estação dos "Senhores". Eles lá saberão porquê. Ou nem sabem, mas está-lhes no subconsciente.
(Com a preciosa colaboração do João Severino)
O Parlamento debate hoje com o Executivo o "Estado da Nação". Sócrates vai estar sob fogo cruzado como nunca antes visto: a oposição lá dentro; GNR e PSP do lado de fora. Ou serão medidas de segurança especiais?

Super G Constellation
(Nova Iorque – Londres, em 1955)
Esta manhã, numa breve vista de olhos pela imprensa, o jornalista Pedro Coelho disse na SIC-Notícias uma coisa extraordinária sobre a condenação do campeão da fraude norte-americano: «Teve azar ao ser julgado em tempo de crise.» Eu é que nunca tinha pensado nisso, mas agora, vendo melhor, acho que sim: se não fosse a crise, o ex-superbanqueiro não teria apanhado 150 anos. No máximo, Maddoff ficaria preso uns 147, 148 anos; vá lá, 149 no máximo. O homem teve mesmo azar: ele nada teve que ver com a crise e foi logo apanhar com ela em cima.
Tem andado a circular por aí um "documento" sobre «Mentes Famosas» da História da Humanidade:
Leonardo da Vinci – mente excepcional;
Galileu Galilei – mente extraordinária;
Isaac Newton – mente brilhante;
Albert Einstein – mente genial;
José Sócrates – mente muito.
A lista merece reparo, por um exagero que comete e que pode configurar uma injustiça para outros. É que a obra de Einstein já tem sido contestada…
No sítio do costume, a Fátima Campos Ferreira deu a palavra ao socialista Vítor Ramalho. Em poucos minutos, o discurso reencontrou o novo paradigma. Basicamente, estava a ver que a coisa não era posta em cima da mesa e que corríamos um grande risco sistémico.
Quem ainda não estava a par, ficou seguramente preocupado com a notícia de que há doentes cancerosos a morrer por falta de resposta do nosso sistema de saúde. Horas depois, a ministra da Saúde veio explicar publicamente que as listas de espera para cirurgias têm estado a diminuir e que, portanto, vai havendo menos mortos.
Era o que tinha para dizer ao País? Apenas com uma curta intervenção, Ana Jorge conseguiu riscar de alto a baixo a sua passagem pelo ministério. Será caso para nem a mencionar no seu currículo, porque acabou de matar o exercício que lhe estava entregue. Para cargos políticos, acredito que morreu.
Os portugueses são pobres e desmobilizados, num país socialmente muito frágil; mesmo assim, apesar de pouco capazes de se mobilizar individual e colectivamente, são felizes. É a conclusão (?) do recente estudo Necessidades em Portugal – Tradição e Tendências Emergentes, de sociólogos do Centro de Estudos Territoriais do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa.
As notícias que vi sobre aquele estudo deixam um bocado a desejar: dão conta dos baixos rendimentos de muitos agregados sem dizer quantas pessoas compõem esses agregados; referem casais jovens que acabam por se considerar relativamente felizes com alguma relutância, talvez pela idade e por se sentirem saudáveis, mas não concretizam a ideia de felicidade; e por aí fora.
Sou muito desconfiado em relação a estas conclusões abstractas de que os teóricos costumam gostar muito. Interessa-me mais o lado concreto das coisas. Registei alguns dados mais específicos.
A população pobre anda nos 20 por cento e o estudo ainda encontrou privações que se alargam muito para lá dessa percentagem. Por exemplo: um terço dos portugueses em condições precárias e preocupados com a sua sobrevivência e 32,6 por cento sem conseguir aquecer a casa; muito mais do que os 20 por cento de pobres sem conseguir pagar uma semana anual de férias fora e de regresso ao trabalho antes de concluídas as baixas médicas por causa da redução salarial; 57 por cento com um orçamento familiar abaixo dos 900 euros.
Outros dados: a privação média ou alta atinge 35 por cento dos portugueses; os mais vulneráveis são os idosos, as famílias monoparentais e os menos instruídos; os mais jovens também já enfrentam situações de vulnerabilidade; as qualificações superiores não garantem emprego.
Posto isto, o tal estudo diz que as condições deficientes ou más determinam (numa escala de 1 a 10) um grau de satisfação de 6,6 (um dos mais baixos da Europa) e um grau de felicidade de 7,3.
Concluir que estamos satisfeitos e que somos felizes é aceitar com um encolher de ombros que temos notas positivas sem sequer saber o que é satisfação e felicidade. Por isso é que não gosto de abstracções. Basta reler os dados concretos para ficar assustado. E para desmontar o cenário que o actual governo apregoava há um ano sobre o aumento da nossa qualidade de vida e a descida do número de pobres.
Nota — Sobre este assunto, vale a pena reler esta reflexão no DO, do Jorge Assunção, escrita há pouco mais de um mês.
«A Assembleia Legislativa da Madeira tem pago pareceres jurídicos para fundamentar, ou para justificar a posteriori, iniciativas legislativas ou meros caprichos eleitoralistas» da maioria madeirense. Pagos assim pelo Orçamento, tais pareceres «custam, em média, 25 mil euros cada e, na generalidade, são encomendados por ajuste directo a juristas da área social-democrata, actuais ou ex-deputados».
Ora, a apetência de Alberto João Jardim para disparar sobre tudo e todos costumava ter o contraponto dos seus pares, que corriam sempre a assinalar o exercício impoluto do presidente do governo regional e líder do PSD-M. Porém, as irregularidades sobre as viagens aéreas de Jardim, estas adjudicações directas aos amigos suportadas pelo erário público e outras escandaleiras estão a minar a auréola do desbocado todo-poderoso da Madeira.
Tudo isto parece confirmar o que há muito se sabe: por princípio, o exercício do poder por tempo indeterminado não é recomendável. Embora, também por princípio, o País e os visados continuem a dormir o sono dos justos. Injustamente.
A notícia: «Sócrates propõe criar cinco mil estágios profissionais por ano na função pública». Neste fim da legislatura, "propor" é um eufemismo: deve ler-se "Sócrates promete".
Se prometer também não aumentar impostos, referendar o Tratado de Lisboa, arranjar 150 mil novos postos de trabalho, encomendar os famosos estudos de viabilidade do TGV e equilibrar as contas públicas – se prometer também tudo isto, então Sócrates vai por bom caminho. Está no papo.
Toneladas de dinheiro, jactos privados, mordomias sem fim, luxos vitalícios – nada disso me impressiona excessivamente. O que me faz espécie é aquilo dos 40 seguranças privados. (Lembrei-me logo de Santana Lopes primeiro-ministro, com os seus 14 seguranças, como se Portugal fosse a Colômbia ou a Guiné-Bissau.) O homem fez o quê e anda com medo de quem?
Aquilo dos 40 seguranças é, a meu ver, a prova provada do que até tenho medo de pensar: não estamos a falar de um banco e de banqueiros; estamos é a descobrir uma máfia e uns ‘padrinhos’. A menos que estejamos perante um mix de Santa Isabel e de Zé do Telhado, que só queira juntar para distribuir pelos pobres, como se espera de um bom católico.