Ler em português sai caro


eventhorizon,

Uma comparação muito rápida. Um leitor que vá à Fnac para comprar Dune, de Frank Herbert, pode hoje escolher uma de três opções. A primeira, é comprar a edição de bolso, em formato paperback e em língua inglesa, editada pela Ace e vendida por sete (7) euros. A segunda, é comprar a edição também em língua inglesa, mas em formato hardcover, numa edição da Gollancz integrada na colecção “SF Masterworks”; esta opção tem o preço de 14,5 euros. A terceira opção é comprar a edição em Português, recentemente traduzida e publicada pela Saída de Emergência. Custa 23 euros.

 

Não sei se a edição portuguesa é paperback ou hardcover – sei que dificilmente será de bolso, já que o mercado português não aceita livros de pequenas dimensões. Acredito que a tradução seja boa, pois confio no trabalho da Saída de Emergência, a única editora em Portugal dedicada a sério à divulgação de fantasia e ficção científica, que já traduziu nomes como Douglas Adams, Richard Morgan ou George Martin – e, agora, Herbert. Mas não consigo compreender o preço, que me parece absolutamente excessivo. Vinte e três euros por um livro? Nestes tempos? Depois admiram-se de haver poucos leitores. Com preços destes, não surpreende.

Os subúrbios


eventhorizon,

 

Já que, perante isto, isto e isto, parece-me necessário alguém fazer o papel de advogado do diabo, faço-o eu: o novo álbum dos Arcade Fire, The Suburbs, é muito bom. Sem ironias – é mesmo muito bom. Como disse lá no jardim há coisa de um mês, estranhei à primeira, rendi-me à segunda. Não o considero inferior ao Neon Bible. Dia 18 de Novembro comprovamos ao vivo. De resto, tenho um palpite: os Arcade Fire vão ser a próxima banda a sofrer o “síndrome Muse”.

 

(E, já agora, o melhor disco dos Radiohead é o Amnesiac. Também sem ironia.)

Finalmente


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Voto antecipado será alargado a alguns estudantes e trabalhadores: O Governo aprovou esta quinta-feira uma proposta de lei que irá remeter ao Parlamento para o alargamento das situações em que é permitido o voto antecipado em todas as eleições, apesar de a regra continuar a ser o voto presencial. De acordo com o Ministro da Administração Interna, Rui Pereira, (…) passa a prever-se o voto antecipado para estudantes matriculados em estabelecimentos de ensino situados em locais diferentes daqueles onde estão recenseados e eleitores que devido à sua profissão se encontrem impedidos de votar no dia fixado, quer estejam em Portugal ou no estrangeiro. (TVI 24)

Finalmente, sim, mas com uma dúvida: se o Cartão do Cidadão inclui o número de eleitor, porque tem de ser a votação antecipada? Não seria mais prático ser electrónica? (Mais uma vez: para que serve o Cartão do Cidadão, afinal?)

As leituras surpreendentes e o meu Rendezvous With Rama


eventhorizon,

Há poucas coisas tão boas como sermos surpreendidos – no bom sentido – por um livro. Não sei como é que as outras pessoas compram os seus livros, quais são os critérios que utilizam, ou como chegam a um livro em particular. Comigo, isso normalmente acontece por influência. Por exemplo, o gosto pela literatura de ficção científica devo-o a um antigo (e extraordinário) professor de Filosofia, que sabendo do meu gosto pelo género no cinema e das minhas incursões pela escrita de ficção, me emprestou aquele que é um dos livros da minha vida: The Snow Queen, de Joan D. Vinge. Já o gosto pela “literatura de fantasia” surgiu do meu interesse antigo pelas mitologias, por alguns jogos mais ou menos geek que jogava durante a adolescência, e pelo impacto visual da adaptação de The Lord of the Rings, de Tolkien, realizada com mestria por Peter Jackson. E outros escritores surgiram mais ou menos por acaso. Vergílio Ferreira apareceu – em ambos os sentidos – no meu décimo-segundo ano (como podem ver, ter professores realmente bons pode fazer uma grande diferença). Salinger, com The Catcher in the Rye, surgiu após ver uma (excelente) série de animação japonesa que usava a obra como inspiração de um enigmático personagem (a saber: Ghost in the Shell – Stand Alone Complex). O interesse por Ayn Rand veio após anos a ler as constantes referências a ela feitas pela malta d’O Insurgente ao longo dos anos, e a leitura do Fountainhead não desiludiu (nem a de Atlas Shrugged, já agora – são dois livros extraordinários). E, enfim, Eça é Eça. Mas disperso-me: voltando ao tema das surpresas, a verdade é que a partir do momento em que a ideia de ler um autor surge por influência positiva, e planeamos a leitura, esperamos que o livro seja bom. E ainda que o livro supere largamente as nossas expectativas, uma boa parte do factor surpresa acaba por se perder. Afinal, estávamos à espera que fosse bom. As nossas fontes, por assim dizer, não podiam estar erradas.

 

Tive recentemente uma óptima surpresa com Nightfall, de Asimov e Silverberg. Mas Nightfall estava no meu “plano de leitura” (em resumo, fiz uma lista mais ou menos longa de obras de ficção científica que tenciono adquirir e ler durante os próximos tempos), pelo que, inevitavelmente, iria lê-lo e deliciar-me. Mas como o li com uma rapidez que até a mim me surpreendeu, e me atrasei um pouco com a minha próxima encomenda, dei por mim sem nada novo para ler, a duas semanas de receber mais dois livros da minha lista. Sem vontade para releituras, fui à loja mais próxima ver se encontrava alguma coisa para me entreter até ao início de Setembro. Por momentos, pensei comprar um de Salinger, que as novas edições da Penguin estão aparentemente muito boas, mas o meu apetite de leitura anda um bocadinho mais “futurista”, passe a expressão; ainda olhei para a secção de fantasia, mas não vi nada que me interessasse; e a primeira ideia que me veio à cabeça foi adquirir o 2001: A Space Odyssey, de Arthur C. Clarke, que tinha visto à venda semanas antes e que me interessava por vários motivos – por Clarke ser um dos mestres do género, e por o filme de Kubrick ser o meu filme preferido. Esgotado, obviamente (as leis de Murphy costumam aplicar-se bastante a mim). Após longos minutos a olhar para a prateleira de sci-fi (a oferta ainda não é perfeita por cá, mas tem melhorado), optei por Clarke, mas por um livro do qual só conhecia o título, graças às longas pesquisas na Internet: Rendezvous With Rama. Foi uma opção às cegas – nunca tinha lido nada de Clarke, e a edição que comprei não tem uma sinopse muito elaborada na contracapa, pelo que do enredo, sabia praticamente nada. Como disse no início deste texto, há poucas coisas tão boas como sermos surpreendidos por um bom livro; e Rendezvous With Rama foi uma dessas boas surpresas, com a sua fascinante história de exploração de um objecto estranho à deriva no Sistema Solar (Clarke gosta de objectos estranhos e “escuros” – recordemos o monólito de 2001), com as suas personagens, os exploradores do futuro a lembrar os descobridores de tempos passados, com as constantes “espreitadelas” à sociedade futurista daquelas personagens, com a sua precisão científica, e com a sua escrita pausada, ritmada, muito bem arrumada em capítulos curtos que, por vezes, são quase uma história em si. Que todas as leituras fossem assim: agradáveis e surpreendentes.

A olhar para as estrelas


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Dois portugueses participaram numa das mais entusiasmantes – e relevantes – descobertas dos últimos tempos na área da Astronomia: um sistema solar semelhante ao nosso, localizado a 127 anos-luz da Terra, na constelação de Hidra. Tem sete planetas: cinco gasosos, como Neptuno; um gigante gasoso, como Saturno; e um rochoso, que se pensa ser muito semelhante à Terra, apesar de a proximidade para com a estrela impossibilitar a existência de vida nos moldes em que a conhecemos. Notícia no Público.

Claro que a horda de trolls que habita as caixas de comentários do Público online não tardou a aparecer, cheia de vontade de diminuir a importância desta descoberta com base nos muitos problemas que enfrentamos neste nosso planeta. Viver na Terra é um desafio constante, e sim, as preocupações são inúmeras; mas sempre assim foi, e não foi por isso que a Ciência parou, ou – mais importante – que o Homem deixou de olhar para as estrelas.

Nightfall


eventhorizon,

A nós, que sempre vivemos num ciclo onde dia e noite se sucedem, a noite e as estrelas no céu nocturo não fazem confusão. São a vista normal, e sempre bem vinda, no momento em que o Sol desaparece para lá do horizonte e a escuridão se instala. Mas imaginemos por um momento que não conhecíamos outra realidade que não a do Sol, a do dia; que no nosso mundo, o Sol nunca se escondia, e a noite nunca caía; imaginemos que vivíamos todos num dia perpétuo, e que desconhecíamos por completo as trevas – neste mundo, como reagiríamos se o Sol desaparecesse e a escuridão da noite se instalasse?

 

Esta é a premissa fundamental de Nightfall, romance de Isaac Asimov e Robert Silverberg, baseado num conto de Asimov. Os habitantes do planeta Kalgash não conhecem a noite, nunca viram as estrelas – os seis sóis que iluminam o planeta mantém aquela sociedade num dia eterno desde – pensa-se – o início dos tempos. Mas esse dia pode estar a chegar ao fim, e vemos os indícios disso mesmo através de vários pontos de vista: do psicólogo Sheerin, que se dedica a estudar a loucura e a histeria induzidas por exposição às Trevas; do astrónomo Beenay, que descobre uma falha fundamental nos cálculos da órbita de Kalgash em redor do seu principal sol, Onos; da arqueóloga Siferra, que descobre numa escavação indícios de um cataclismo civilizacional a intervalos regulares; do jornalista Theremon, que investiga estas informações; e dos “Acolytes of Flames”, um culto religioso que acredita que os deuses vão enviar o mundo para as trevas, e purificá-lo do pecado através do fogo divino das “estrelas”, que ninguém sabe o que são. Mas o que acontecerá quando os sóis desaparecem e a escuridão se instalar? O conto original de Asimov termina nesse ponto, no anoitecer; mas a narrativa de Asimov e Silverberg vai mais longe, e expande a história para além da noite, para a manhã de Kalgash. A todos os níveis, Nightfall foi uma surpresa: é uma história extremamente bem contada, com personagens sólidas e um enredo surpreendente até ao final. Numa época em que os mais fracos argumentos dão origem a “filmes-catástrofe” de fraquíssima qualidade, não percebo como ainda ninguém pensou em adaptar, com a devida mestria, este conto ao grande écrã.

Portugal ferroviário


eventhorizon,

É em Portugal, país cujo Governo quer construir um TGV (Lisboa, praia de Madrid – lembram-se?), que um comboio Intercidades é incapaz de fazer o percurso entre Lisboa e Faro dentro do horário previsto. Há semanas que o comboio no sentido Sul-Norte não chega a horas à Funcheira, registando sempre atrasos a variar entre os cinco e os vinte e cinco minutos. É também Portugal o país que tem metade – pelo menos – das estações ferroviárias encerradas (mesmo naquelas onde o Intercidades tem paragem, como Alcácer do Sal, Grândola, Funcheira e São Bartolomeu de Messines), obrigando os passageiros que embarquem nessas estações a tirar o bilhete no interior do comboio, com o revisor. Pior: esses passageiros são, para todos os efeitos, passageiros de segunda, pois ao embarcar sem bilhete, estão sujeitos à disponibilidade de lugares do comboio. Ou seja, um lugar livre pode ser ocupado na estação seguinte, e o passageiro que entrou na estação encerrada que viaje de pé, se não encontrar outro lugar. Pior ainda: é também Portugal o evoluído país em cujos comboios se aplica a máxima “criança não paga mas também não anda”. Dito de outra forma: crianças até aos seis anos não necessitam de bilhete, mas também não ocupam lugar; e em dias de comboio esgotado, têm de dar lugar a outros passageiros. Não, não estou a brincar. É neste belo país, de transportes rodoviários modernos, pontuais, com bom serviço e boa cobertura do território nacional, que um iluminado Governo quer gastar milhões num inútil comboio de alta velocidade. Faz todo o sentido: se o serviço tem de ser mau, ao menos que ande depressa.

Starship Troopers


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Mais do que contar uma história, Starship Troopers, obra polémica de Robert A. Heinlein, recorre aos mecanismos de uma narrativa para desenvolver um longo – e muito interessante – ensaio militar, político e mesmo social. De facto, muitos são os momentos em que temos a sensação de que a trama – a progressão de “Johnnie” Rico na “Mobile Infantry” durante o conflito espacial com uma espécie alienígena, os “Aracnídeos” – tem como único propósito servir de veículo à visão da sociedade futurista que Heinlein descreve – uma sociedade saída da queda das democracias ocidentais do século XX, e que vive naquilo a que (muito livremente) chamaria de “democracia militar”. Nesta sociedade, os direitos plenos de cidadania apenas são adquiridos após a conclusão de um período de serviço militar voluntário; quem não o fizer, não poderá votar ou candidatar-se a cargos públicos, mantendo porém outros direitos cívicos como liberdade de expressão ou de associação. Os castigos corporais são relativamente comuns, também.

 

As personagens, essas, mais do que serem fundamentais à evolução do enredo, são fundamentais à reflexão do próprio autor. Por exemplo, é através do Coronel Dubois e das suas aulas de História e Filosofia Moral, recordadas em constantes analepses, que uma parte significativa da mensagem da história é transmitida – e é através da recordação de Johnnie dos constantes debates daquelas aulas que o leitor compreende a formação daquela sociedade, e os diferentes factores que a sustentam. Para além de o próprio Dubois ser uma fonte aparentemente inesgotável de conhecimento militar, histórico e táctico, que Heinlein não se cansa de partilhar com o leitor.

Mas não se pense que Starship Troopers, sendo uma obra tão marcadamente ideológica, perde por isso a sua qualidade de “romance”. A verdade é que a história, apesar de simples, funciona muito bem, e a constante ideologia presente permite ao leitor “entrar” realmente naquele mundo. Para além, claro, de todas as cenas de treino militar, e da acção frenética, sempre na primeira pessoa, dos combates. E, claro, da escrita de Heinlein – simples, fluída, ritmada.

Mas Starship Troopers não foi (é) apenas um livro polémico – é também uma obra extremamente influente, e não só em termos literários – não fosse, afinal, Heinlein um dos “três grandes” da ficção científica, a par dos mestres Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. No cinema, temos o óptimo exemplo de Aliens, filme de James Cameron onde se nota alguma inspiração do clássico de Heinlein. E no mundo dos videojogos, é impossível dissociar o popular Starcraft.

The Dispossessed


eventhorizon,

Joan D. Vinge, autora um pouco esquecida nos dias que correm (de quem falarei mais noutra ocasião), disse a dada ocasião algo do género: a ficção científica será porventura o melhor género para, através da ficção, reflectir sobre a realidade, precisamente porque o género em si não conhece qualquer limite. Vinge, na sua obra, seguiu esta ideia; mas poucos autores terão feito alegorias tão marcantes como Ursula Le Guin no premiado The Dispossessed.

 

A trama de The Dispossessed decorre nos planetas Urras e Anarres. Em Anarres, lua de Urras, existe uma sociedade (uma utopia)e anárquica, formada por dissidentes do planeta principal. Nessa sociedade vive o protagonista, Shevek, um físico que desenvolve a Teoria da Simultaneidade, um princípio revolucionário que pode mudar a forma como as diferentes civilizações humanas dispersas pelo universo contactam entre si. Incapaz de prosseguir os seus estudos no seu planeta natal devido à máquina burocrática instalada e aos pequenos egos que continuam a subsistir, Shevek aceita, contra a vontade da sua própria sociedade, o convite dos “capitalistas” da nação de A-Io,em Urras, para estudar na Universidade de Nio Esseia e desenvolver a sua teoria. Mas acaba por se ver “preso” num mundo onde a guerra parece iminente (entre a capitalista A-Io e a socialista Thu, numa alegoria bastante clara à época da Guerra Fria em que a autora viveu, onde não falta um conflito armado a recordar o Vietname), e vê o seu próprio sonho ameaçado, desta vez, pelos objectivos do poder político de A-Io. Com esta trama, Le Guin traça um paralelo muito claro com a sociedade da época em que o romance foi escrito (1974), expondo as falhas de um modelo de sociedade sem no entanto glorificar o outro; na verdade, ao explicar as dificuldades que a população anarquista de Anarres enfrenta (e o próprio Shevek), a autora acaba por demonstrar quão inalcançável é a utopia.

 

Ursula Le Guin recorre a uma muito bem conseguida estrutura narrativa não-linear, em que os capítulos vão alternando entre a história de Shevek em Urras (números ímpares), e o seu passado em Anarres (números pares). Isto, aliado à intriga bem suportada em personagens realmente interessantes e a uma escrita ímpar, fez de The Dispossessed um clássico da ficção científica, e um dos poucos romances a conseguir vencer, no mesmo ano, os dois prémios literários mais importantes dentro do género: o prémio Hugo e o prémio Nébula. Feito que, aliás, a autora já tinha conseguido anteriormente com a obra The Left Hand of Darkness.

A polémica do calhamaço


eventhorizon,

Leio este texto de Francisco José Viegas, a propósito de uma das mais recentes “polémicas” da bloga, em torno de Bolaño e do romance 2666. Por alturas do lançamento, há coisa de um ano, também eu escrevi algumas coisas a propósito do tema, do marketing, do hype. Nada contra Bolaño; só achei muito engraçado ver um autor como Bolaño envolvido naquele hype, no fundo muito idêntico à euforia gerada a cada lançamento de novo livro por J.K. Rowling ou Stephenie Meyer (autoras de Harry Potter e Twilight, respectivamente). Na verdade, o hype tende sempre a gerar um movimento de sinal contrário, também ele muito forte. Enfim, euforias e “ondas” à parte, esta foi mais uma polémica estéril: no final, cada um lê o que quiser ou o que lhe interessar, independentemente do marketing (o mesmo se aplica à música, ao cinema…). É mais ou menos neste ponto que, na minha opinião, o bom texto de FJV azeda um pouco: acaba por não estar em causa a “descrição de sonhos”, ou a ideia (creio que sarcástica), de que, e cito, uma pessoa, naturalmente sóbria, culta, equilibrada como um paxá, detesta sonhos. Naturalmente, o que é preciso é acção, acção demolidora, luz do dia, espinafres, função clorofila às horas marcadas e pouco incómodo. Este é, a meu ver, um tiro ao lado. Os gostos dos leitores são tão diversos que me parece bastante problemático catalogá-los de forma tão simples. Se calhar até há pessoas “naturalmente sóbrias, cultas e equilibradas” que gostam de sonhos (isto “soa” estranho, eu sei), e gostaram das descrições de sonhos de Bolano. Ou talvez não tenham gostado. Se calhar as mesmas pessoas que gostam das tais descrições de sonhos também apreciem, de vez em quando, uma leitura mais “de acção”. Ou talvez tenham ignorado essas passagens e apreciado o livro no seu todo. Ou talvez nem tenham tido interesse de lhe pegar. Enfim, as possibilidades são ilimitadas. Uma vez mais, creio que cada um continua a ler o que quer, dentro das suas possibilidades.

Nestas matérias de leituras e livros, incomoda-me muito mais o preço absurdo que os livros têm, faltando a possibilidade de escolha entre hardcovers e edições mais elaboradas (e caras), e as mais modestas e práticas edições paperback, ou de bolso. E, claro, incomoda-me também a contínua “marginalização” (passe a expressão) de alguns géneros literários, que no nosso pequeno mundo literário contam muito pouco – ou nada.

Boas notícias


eventhorizon,

Após a “pausa” do ano passado, o Fórum Fantástico regressa este ano, de 12 a 14 de Novembro, na Biblioteca Municipal de Telheiras. Até ao momento, já está confirmada a presença de alguns escritores nacionais e internacionais. Mais informações aqui.

Do atraso português


eventhorizon,

Nos dias que correm, fala-se muito no “atraso de Portugal”. Ele é a economia que não cresce, o desemprego que não pára de aumentar, os políticos que não param de dizer disparates, a Justiça que já parou há muito tempo, os estudantes a dizerem disparates deste calibre. Enfim, é uma tragédia, este nosso Portugal, e uma tragédia atrasada. Mas como poderia isso mudar, quando temos serial killers com o nome de “Ghob, o Rei dos Gnomos”? Está tudo doido? Nunca ninguém viu séries norte-americanas? Sei lá, Criminal Minds, Bones, CSI? Desta nem o Horatio Caine se lembrava: “Ghob, o Rei dos Gnomos”. Isto é nome – e título, não esquecer o título – que eu não daria a uma personagem de Dungeons & Dragons, quanto mais a um serial killer. E depois querem que o país se modernize. Impossível.

O estacionamento


eventhorizon,

Ontem, quando saí do trabalho e me dirigia ao supermercado, vi acontecer à minha frente uma cena infelizmente muito comum: uma senhora estaciona o carro em cima do passeio, bloqueando completamente a passagem a qualquer pessoa, deixa os quatro piscas ligados, e vai calmamente fazer as suas compras. Quando me desviei para a estrada – que remédio -, pensei em lhe dizer qualquer coisa: estava indeciso entre o sarcasmo e o insulto. Acabei por não lhe dizer nada, e fui fazer as minhas compras sem pensar mais no assunto.

Quando saí do supermercado, dez minutos mais tarde, vejo dois funcionários da EMEL a bloquearem o carro da tal senhora. Não sei se foi o universo a acertar as suas contas ou se foi simplesmente um acaso os senhores de verde terem aparecido ali, naquele bocado caótico da Duque D’Ávila com a Defensores de Chaves (reportagem fotográfica um dia destes), para fazerem um bom trabalho – a verdade é que a senhora apareceu, reclamou, mas pagou 90 euros de multa. Acho que é pouco. Sei que Lisboa é uma cidade difícil no que ao estacionamento diz respeito, mas estacionar em cima dos passeios não significa apenas que um tipo como eu, relativamente saudável, tenha de sair do passeio e caminhar no asfalto, junto aos carros que passam; significa, sim, que uma pessoa com um carrinho de bebé (por exemplo), um cego, alguém com muletas ou de cadeira de rodas está metida num sarilho. Normalmente, eu consigo desviar-me sem problemas. Mas há muita gente que não consegue. Para essas pessoas, os passeios, ricamente decorados com postes, sinais de trânsito, caixas de electricidade, caixotes do lixo e detritos variados, já são uma verdadeira prova de obstáculos. Um carro lá enfiado, enquanto o condutor foi calmamente fazer as suas compras ou beber o seu café, é mesmo a última coisa de que precisam.

Dune


eventhorizon,

Há tempos, creio que a propósito de uma conversa sobre ficção científica (para variar), conversei um pouco com a Ana Vidal sobre o filme Dune, a adaptação de David Lynch, feita em 1984, ao romance de Frank Herbert. Ainda não revi o filme – talvez no fim-de-semana -, pelo que mantenho ainda a opinião de que o filme, ainda que interessante, é globalmente fraco. Li, porém, o livro – a minha primeira leitura de Verão, após ter encontrado uma edição em paperback na fnac, a um preço muito convidativo (alguém me lembre de ir lá buscar o 2001: A Space Odyssey, que também estava muito em conta). Enfim, a propósito da obra de Herbert, o “mestre” Arthur C. Clarke disse não conhecer nada que se lhe comparasse para além de The Lord of the Rings. Descontada a simpatia, Dune é, de facto, uma obra espantosa, provavelmente um dos mais ambiciosos trabalhos que o género conheceu. Dune, o primeiro volume de uma série de seis livros escritos por Frank Herbert (e mais alguns, escritos pelo seu filho, Brian Herbert e Kevin J. Anderson), narra a história da família aristocrata Atreides, à qual é concedido, pelo Imperador Shaddam IV, o controlo do planeta Akarris, o único lugar onde se encontra mélange, a substância mais valiosa do universo (a famosa spice). O planeta é um presente envenenado, e o Duque Ledo Atreides sabe disso quando o aceita. E a história prossegue com o seu filho, Paul, e a sua aprendizagem da vida no deserto, com as intrigas políticas entre as famílias aristocratas, com o sonho ecologista de Liet-Kynes e dos Fremen, e com a guerra iminente. Durante a leitura, deparamos com algumas cenas memoráveis, como a do primeiro banquete dado pela família Atreides em Akarris – de longe, a que mais me marcou durante a leitura. Mais não conto, para não estragar uma eventual leitura a alguém; mas fica a sugestão: vai valer a pena cada minuto passado a ler Dune.

Os alertas coloridos


eventhorizon,

Pois é, João, temos o país “amarelado” e “alaranjado”. É um hábito curioso, este que temos de declarar alertas coloridos sempre que as temperaturas vão acima dos 25º e abaixo dos 10º. Tenho cá para mim que o único objectivo disto é pintar o mapa de Portugal com cores vivas para passar na televisão, com infografia a acompanhar – sempre dá para mostrar trabalho durante a “silly season”. Só não percebo é o motivo pelo qual ainda se fala de “risco de incêndio”. Depois dos verões da última década, resta ainda alguma coisa para arder no país?