A nós, que sempre vivemos num ciclo onde dia e noite se sucedem, a noite e as estrelas no céu nocturo não fazem confusão. São a vista normal, e sempre bem vinda, no momento em que o Sol desaparece para lá do horizonte e a escuridão se instala. Mas imaginemos por um momento que não conhecíamos outra realidade que não a do Sol, a do dia; que no nosso mundo, o Sol nunca se escondia, e a noite nunca caía; imaginemos que vivíamos todos num dia perpétuo, e que desconhecíamos por completo as trevas – neste mundo, como reagiríamos se o Sol desaparecesse e a escuridão da noite se instalasse?
Esta é a premissa fundamental de Nightfall, romance de Isaac Asimov e Robert Silverberg, baseado num conto de Asimov. Os habitantes do planeta Kalgash não conhecem a noite, nunca viram as estrelas – os seis sóis que iluminam o planeta mantém aquela sociedade num dia eterno desde – pensa-se – o início dos tempos. Mas esse dia pode estar a chegar ao fim, e vemos os indícios disso mesmo através de vários pontos de vista: do psicólogo Sheerin, que se dedica a estudar a loucura e a histeria induzidas por exposição às Trevas; do astrónomo Beenay, que descobre uma falha fundamental nos cálculos da órbita de Kalgash em redor do seu principal sol, Onos; da arqueóloga Siferra, que descobre numa escavação indícios de um cataclismo civilizacional a intervalos regulares; do jornalista Theremon, que investiga estas informações; e dos “Acolytes of Flames”, um culto religioso que acredita que os deuses vão enviar o mundo para as trevas, e purificá-lo do pecado através do fogo divino das “estrelas”, que ninguém sabe o que são. Mas o que acontecerá quando os sóis desaparecem e a escuridão se instalar? O conto original de Asimov termina nesse ponto, no anoitecer; mas a narrativa de Asimov e Silverberg vai mais longe, e expande a história para além da noite, para a manhã de Kalgash. A todos os níveis, Nightfall foi uma surpresa: é uma história extremamente bem contada, com personagens sólidas e um enredo surpreendente até ao final. Numa época em que os mais fracos argumentos dão origem a “filmes-catástrofe” de fraquíssima qualidade, não percebo como ainda ninguém pensou em adaptar, com a devida mestria, este conto ao grande écrã.


A história foi passada para o cinema em 1988. Não é grande filme e acho que o próprio Asimov (cujo ego, como é sabido, não era pequeno) o detestou.
Acho que mais recentemente (dois mil e poucos) foi feito outro filme. Não o conheço.
Não sabia. Mas de qualquer maneira, não me referia a uma tentativa falhada, mas sim a algo bem feito. Mais ou menos como a adaptação de “Do Androids Dream of Electric Sheep”, de Philip K. Dick, feita pelo Ridley Scott. Isso, sim, é uma adaptação a sério. E este livro merecia-a.
É mais um grande livro de Asimov – para quem, como eu, gosta muito de ficção científica, a obra de Asimov é um marco na história da FC.
Nessa obra de excelência é difícil escolher o melhor, mas o livro que mais me entusiasmou foi a trilogia da “Fundação”.
Hei-de chegar à trilogia – tenho uma lista de leituras sci-fi muito grande pela frente. Para já, e para primeira leitura de Asimov, posso dizer que “Nightfall “me encheu as medidas”, passe a expressão. É realmente um livro notável.