Joan D. Vinge, autora um pouco esquecida nos dias que correm (de quem falarei mais noutra ocasião), disse a dada ocasião algo do género: a ficção científica será porventura o melhor género para, através da ficção, reflectir sobre a realidade, precisamente porque o género em si não conhece qualquer limite. Vinge, na sua obra, seguiu esta ideia; mas poucos autores terão feito alegorias tão marcantes como Ursula Le Guin no premiado The Dispossessed.
A trama de The Dispossessed decorre nos planetas Urras e Anarres. Em Anarres, lua de Urras, existe uma sociedade (uma utopia)e anárquica, formada por dissidentes do planeta principal. Nessa sociedade vive o protagonista, Shevek, um físico que desenvolve a Teoria da Simultaneidade, um princípio revolucionário que pode mudar a forma como as diferentes civilizações humanas dispersas pelo universo contactam entre si. Incapaz de prosseguir os seus estudos no seu planeta natal devido à máquina burocrática instalada e aos pequenos egos que continuam a subsistir, Shevek aceita, contra a vontade da sua própria sociedade, o convite dos “capitalistas” da nação de A-Io,em Urras, para estudar na Universidade de Nio Esseia e desenvolver a sua teoria. Mas acaba por se ver “preso” num mundo onde a guerra parece iminente (entre a capitalista A-Io e a socialista Thu, numa alegoria bastante clara à época da Guerra Fria em que a autora viveu, onde não falta um conflito armado a recordar o Vietname), e vê o seu próprio sonho ameaçado, desta vez, pelos objectivos do poder político de A-Io. Com esta trama, Le Guin traça um paralelo muito claro com a sociedade da época em que o romance foi escrito (1974), expondo as falhas de um modelo de sociedade sem no entanto glorificar o outro; na verdade, ao explicar as dificuldades que a população anarquista de Anarres enfrenta (e o próprio Shevek), a autora acaba por demonstrar quão inalcançável é a utopia.
Ursula Le Guin recorre a uma muito bem conseguida estrutura narrativa não-linear, em que os capítulos vão alternando entre a história de Shevek em Urras (números ímpares), e o seu passado em Anarres (números pares). Isto, aliado à intriga bem suportada em personagens realmente interessantes e a uma escrita ímpar, fez de The Dispossessed um clássico da ficção científica, e um dos poucos romances a conseguir vencer, no mesmo ano, os dois prémios literários mais importantes dentro do género: o prémio Hugo e o prémio Nébula. Feito que, aliás, a autora já tinha conseguido anteriormente com a obra The Left Hand of Darkness.


Grande escolha! Foi uma das primeiras obras do género que li, e continua a ser uma das minhas preferidas. A outra é conto «The Gods Themselves», de Isaac Asimov.
De Asimov tenho agora para ler “Nightfall”, para quando acabar “Starship Troopers”, de Robert A. Heinlein.