The Left Hand of Darkness


eventhorizon,

Tenho vindo a publicar breves “recensões” aos livros de ficção científica que vou lendo. É verdade que tenho escolhido bem os livros, e que, até ao presente, todas as obras sobre as quais escrevi estão entre as melhores do género, e têm-me proporcionado excelentes horas de leitura. Talvez qualquer dia faça também para os livros um “top 15”; para já, destaco a minha última leitura, The Left Hand of Darkness, que é também um dos melhores livros que já li. Não é, de facto, por acaso que a obra ganhou os mais importantes prémios do género (o Hugo e o Nébula), e que a sua autora, Ursula K. Le Guin, é ainda hoje considerada uma das maiores escritoras de fantasia e ficção científica, e uma das autoras do género que maior reconhecimento obteve fora dos círculos tradicionais do género. A história está enquadrada no seu “Hainish universe”, um universo futurista alternativo na qual Le Guin situou muitas das suas mais importantes obras, como Rokanon’s World, Planet of Exile, The Word for World is Forest e The Dispossessed (sobre o qual escrevi aqui). Um pouco como a “Terra Média” de Tolkien na fantasia; com a diferença que os diversos livros e contos de Le Guin são independentes, ainda que exista uma cronologia implícita – por exemplo, a história narrada The Left Hand of Darkness é cronologicamente posterior à de The Dispossessed (no entanto, este foi escrito em 1974, enquanto aquele foi publicado pela primeira vez em 1969).
No universo de The Left Hand of Darkness, existe uma organização interplanetária que une oitenta e três mundos diferentes (desde a Terra a Hain) conhecida por “Ekumen”. O protagonista da história, Genly Ai, oruindo da Terra, é enviado como emissário do Ekumen a Gethen, um gélido e distante planeta onde existe uma civilização humana, mas com uma peculiaridade que a distingue das demais: os humanos de Gethen são andróginos e hermafroditas, e as suas diversas sociedades não possuem qualquer distinção ou discriminação baseada na identidade sexual. Durante a maior parte do tempo (mais ou menos vinte e quatro dias do seu ciclo lunar, que dura vinte e seis dias) os humanos de Gethen não possuem qualquer manifestação sexual; durante os restantes dias, no período designado por kemmer, assumem um dos géneros sexuais através de interacção por feromonas com os potenciais parceiros sexuais. Como resultado prático, cada indivíduo em Gethen pode, por analogia, ser “pai” ou “mãe”, ou mesmo ambos. Ao longo da obra, esta característica dos habitantes de Gethen é acentuada por contraste com Genly Ai (para os restantes personagens, Genly vive num estado de kemmer permanente), que considera esta falta de dualidade sexual como explicação para muitas das peculiaridades das civilizações de Gethen, como a inexistência de guerras. A questão sexual é um dos temas fundamentais de uma história também marcadamente política, que se centra na personagem de Genly Ai e nos seus esforços para fazer Gethen aderir ao Ekumen. A narrativa começa por situar o protagonista na nação de Karhide, um país de características feudais, para na segunda parte passar a acção para Orgoreyn, uma sociedade extraordinariamente burocrática. A terceira parte narra o exílio e a longa viagem de Genly Ai para regressar a Karhide e chamar a nave que está estacionada em órbita, como medida desesperada para convencer os habitantes do planeta que de facto é oriundo de outro mundo.
A história de The Left Hand of Darkness é narrada de forma linear, mas com base em “fontes” dispersas, alternando entre os diários e as memórias de Genly Ai e o diário do outro protagonista, Estraven, sem contudo seguir uma estrutura fixa (como acontece, por exemplo, em The Dispossessed). Pelo meio, de forma mais ou menos aleatória, surgem capítulos distintos que apresentam lendas e contos de Gethen, descrevem as várias religiões presentes naquele planeta, ou que incidem sobre outros aspectos daquele mundo – aspectos laterais que ajudam a compreender mais um fascinante mundo imaginado e descrito por Ursula K. Le Guin.
Por coincidência, uma vez que acabei de ler o livro esta manhã, publico este texto no dia em que a autora celebra 81 anos.

The Moon Is a Harsh Mistress


eventhorizon,

Imaginemos um mundo futurista por volta do ano de 2075, em que as nações da Terra deram lugar a “super-nações” de dimensões continentais, e em que a colonização da Lua é uma realidade. Ou antes: em que a utilização das cidades subterrâneas (sublunares?) da Lua como uma enorme colónia prisional é uma realidade. Imaginemos que, nessa colónia, um técnico de computadores individualista e apolítico, uma agitadora profissional, um professor reformado que se define como “anarquista racional” e um supercomputador tão complexo que ganhou consciência própria acabam por se aliar para colocar em prática uma revolução que dê à Lua o estatuto de “nação independente”. Quais seriam as probabilidades de sucesso dessa revolução? E como executá-la?

Este é o ponto de partida de The Moon Is a Harsh Mistress, obra premiada de Robert A. Heinlein, que aborda os aspectos teóricos de uma revolução colocando-a em prática neste cenário de ficção científica através de personagens improváveis, mas muito interessantes. Heinlein disserta sobre a natureza das revoluções, sobre o seu planeamento, sobre os factores aleatórios que, em muitos casos, as precipitam e as levam para direcções imprevisíveis – nunca esquecendo as lições que a História ensinou, como as revoluções americana e russa. E a revolução acaba por ser um pretexto para o autor explorar remas relacionados com a família, o patriotismo, a guerra, a forma de governo (existe até uma curiosa passagem sobre a monarquia, a propósito de um personagem que se afirma monárquico), e a economia – aqui, opondo o modelo libertário praticado pelas colónias lunares, aos vários modelos existentes na Terra (que todos conhecemos). Há quem diga que Heinlein terá até sido o primeiro autor a referir em livro a ideia de “não há almoços grátis” (muito associada a Milton Friedman), através da sigla TANSTAAFL (There Ain’t No Such Thing As A Free Lunch), presença constante ao longo de todo o livro e, diria, base ideológica de toda a obra. Tudo isto sem nunca descurar a componente científica, de uma precisão considerável.

The Moon Is a Harsh Mistress consegue, para além de ser uma obra extremamente inteligente, ser uma leitura muito divertida. Aliás, desde a leitura de The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, de Douglas Adams, que não ria tanto com um livro: desde o início, em que “Mike”, o computador consciente, adquire sentido de humor e procura compreendê-lo, até todas as peripécias que decorrem da revolução. Foi, sem dúvida, uma obra excelente para começar as minhas leituras de Outono. E que aproveito para recomendar.

Festa? Qual festa?


eventhorizon,

A avaliar pelas breves imagens das comemorações do centenário da república que vi há pouco na RTP em directo do Terreiro do Paço, tenho a dizer que com meia dúzia de amigos, duas grades de minis, uma garrafa de whisky e uma garrafa de vodka – um orçamento total de cerca de vinte e cinco euros, portanto – já fiz festas mais animadas cá em casa.

O insecto mais divertido da Internet


eventhorizon,

Também na banda desenhada – isto vem a propósito da bela série que o Pedro tem vindo a publicar aqui no DO – a Internet teve um impacto assinalável, na medida em que permitiu que muitos autores criassem os seus próprios espaços, em páginas ou blogues próprios, e que nesses espaços publicassem os seus trabalhos. É possível hoje encontrar milhares de cartoons e webcomics na rede, sobre os mais variados temas, nos mais variados estilos. Como sempre, há alguns muito bons, outros nem por isso – a Internet também não faz propriamente uma filtragem, e ainda bem. Há webcomics que são já uma referência – é o caso do xkcd, com o seu humor “geek/pop culture” nem sempre acessível, mas com rasgos de brilhantismo ocasionais.

Aquele que considero o melhor webcomic que já encontrei, e que leio diariamente, é o Bug Comic. Desenhado por Adam Huber, o Bug Comic consiste num simpático insecto que se vê envolvido nas mais variadas situações. Não existem continuações: cada tira encerra uma história, ou melhor, uma ideia, um conceito que Huber decide explorar com os seus bicharocos. Normalmente, é muito bom – consegue sempre arrancar-me pelo menos um sorriso. Nos dias mais inspirados, cada vinheta tem uma piada individual, todas elas muito boas. Pessoalmente, considero o Bug Comic a melhor comic strip que li desde os tempos de Calvin & Hobbes (que para todos os efeitos é insuperável e insubstituível).

O ensino das línguas estrangeiras


eventhorizon,

A pequena polémica sobre o spoken engrish de José Sócrates pode ser um excelente ponto de partida para uma discussão muito interessante e, na minha opinião, muito importante. Não sei se alguém fala nisso, mas a verdade é que os programas curriculares de línguas estrangeiras do ensino básico e secundário não permitem aos alunos aprender a falar esses idiomas. Nem o Inglês, língua que goza de uma série de factores que creio facilitarem imenso a sua aprendizagem (a opção por legendagem nas séries e filmes, ao invés da dobragem). Ora se isto nem acontece num idioma com o qual todos contactamos desde tenra idade, como pode acontecer em idiomas menos presentes, como o Francês? Falo no Francês, entenda-se, porque no meu tempo era a segunda língua dos programas escolares. No meu caso, foi a primeira: tive Francês do quinto ao décimo-primeiro ano (sete anos, com sete níveis correspondentes), e Inglês do sétimo ao décimo-segundo (seis anos, seis níveis). A verdade é que, ao longo desses sete anos de língua francesa e seis anos de língua inglesa (durante os quais, com uma excepção no nono ano a Inglês, tive sempre professoras boas ou muito boas), nunca houve um treino metódico e intensivo para que aprendêssemos a falar aquelas línguas. Havia exercícios de gramática (imensos), de vocabulário. Escrevíamos redacções (raramente textos livres). Líamos textos. Falava-se o básico no idioma em estudo com a professora – mas apenas isso, o básico. Com sete anos de excelentes notas a Francês, acabei o Secundário incapaz de me exprimir com um mínimo de fluência na língua francesa; e o mesmo não aconteceu com o Inglês porque aprender a ler, escrever e falar correctamente Inglês foi um objectivo pessoal que estabeleci no décimo ano e que resolvi sozinho, nos meus tempos livres – e tudo graças aos meus gostos mais ou menos geek, quem diria.

Confesso que nunca tinha pensado nisto até ter passado umas férias em casa de amigos na Dinamarca. Amigos dinamarqueses, entenda-se, com filhos mais novos que eu. A mais nova, com treze anos na altura, já falava inglês quase tão bem como eu. As duas filhas mais velhas do casal, à época com 15 e 17, falavam inglês com absoluta naturalidade. Quantos adolescentes em Portugal dominam a língua inglesa?

Regressando a Portugal: a verdade é que chegam todos os anos às universidades imensos alunos incapazes de manter uma conversa ou escrever num idioma estrangeiro – falo no Inglês porque é o mais comum nos dias que correm. Mais grave: temos alunos a acabar cursos universitários exactamente nas mesmas condições [por favor: tive colegas de turma que acabaram Jornalismo (!) quando eu acabei e eram incapazes de chegar à terceira frase em Inglês; talvez até fossem a maioria]. No desastre que é o ensino em Portugal, fala-se muito do Português e da Matemática e perde-se imenso tempo em redor da famigerada “educação sexual”; mas não vejo ninguém referir o descalabro no ensino das línguas estrangeiras. É pena, pois faz falta. Como o nosso primeiro-ministro tão bem demonstrou.

Como envergonhar o país no estrangeiro


eventhorizon,

Não sei se os leitores estarão lembrados de um episódio caricato do primeiro mandato do governo PS: aquele discurso, não me lembro onde ou a que propósito, em que o inglês macarrónico (autêntico engrish) de José Sócrates fez Angela Merkel e Gordon Brown rirem a bom rir. O vídeo está na Internet e chegou a circular em alguns círculos mais “obscuros” da rede com o título de “English Fail”. Esse episódio devia ter feito Sócrates pensar duas vezes: afinal, nestas coisas há sempre tradução simultânea, também é necessário dar emprego a tradutores e, enfim, sempre se evita fazer má figura. Mas se há actividade à qual o nosso primeiro-ministro não dedica muito tempo é a pensar; tampouco é conhecido pela sua noção do ridículo, pois, algum tempo volvido, decidiu repetir a graça, mas em castelhano, em terras de Espanha. E como não há duas sem três, parece que a recente visita de Sócrates aos Estados Unidos tem sido rica em episódios. Confesso que suspirei de alívio por, nas Nações Unidas, Sócrates ter discursado em Português – pensei para com os meus botões: o homem pode nunca deixar de ser um primeiro-ministro sofrível, passe o eufemismo, mas ao menos já aprendeu alguma coisa. Erro meu: na Universidade de Columbia, em conferência, o senhor primeiro-ministro de Portugal decide quebrar o gelo recorrendo… a uma piada. A uma que nem foi original, por ser já muito batida: quem viu o excelente Le Cinquième Elément, filme europeu de ficção científica (juro que esta foi coincidência) com Bruce Willis, Milla Jovovich, Ian Holm e outros, certamente recordar-se-á de uma passagem em que Leeloo (Jovovich), em estado mais ou menos catatónico, começa a falar no idioma dos deuses; e Korben Dallas (Willis), confuso, diz-lhe apenas “woah, lady, I only speak two languages: English and Bad English”. Foi mais ou menos esta a linha de Sócrates, dizendo, perante uma plateia já de si atónita com o engrish de um primeiro-ministro (um primeiro-ministro, meu Deus!), qualquer coisa do género: que iria discursar na língua mais falada internacionalmente, não o inglês, mas o mau inglês. Se alguém quiser exibir o vídeo, por favor; no computador que estou a usar isso não me é possível. Adiante. Isto de contar piadas numa conferência para quebrar o gelo tem muito que se lhe diga; já vi alguns oradores (sobretudo americanos, mas recordo-me também de um extraordinário orador alemão que conheci) fazerem-no com mestria e tornarem conferências sobre temas complexos em sessões muito divertidas e enriquecedoras. Mas é preciso jeito para falar em público, sentido de humor e, sobretudo, muita prática; ora o nosso primeiro-ministro não possui possui qualquer vestígio de talento para falar em público; desconheço-lhe sentido de humor, pelo menos, sofisticado; e assim sendo não há prática que lhe valha. Tentou ser engraçado; conseguiu envergonhar o país no estrangeiro, uma vez mais. Way to go, man.

Sem carros?


eventhorizon,

Não deixa de haver alguma ironia no facto de ontem, dia europeu sem carros, ter sido o dia em que mais tempo perdi no trânsito dentro de Lisboa, tanto de manhã como à noite. E nem choveu.

Neuromancer


eventhorizon,

No cinema, o cyberpunk, sub-género da ficção científica, foi inaugurado com polémica em 1982 com Blade Runner, adaptação de Ridley Scott ao romance Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick, hoje considerado uma obra-prima, não só do género, como do cinema em geral. Digo com polémica porque, à época do seu lançamento, Blade Runner não foi um filme consensual, tendo sido devastado pela crítica e rejeitado pelo público. O tempo – no fundo, o grande juiz da arte – deu razão a Ridley Scott, que no início da década de 80 realizou um filme que estava à frente do seu tempo. Mas é possível que essa antecipação tenha contribuído para o entusiasmo que, dois anos mais tarde, conheceu o romance Neuromancer, de William Gibson, premiado com os mais importantes prémios do género.

Olhando para trás, podemos concluir que várias obras que se tornaram emblemáticas no cinema e na literatura de ficção científica não teriam provavelmente existido sem o trabalho original de Gibson – podemos falar de exemplos muito óbvios, como o anime Ghost in the Shell ou o filme de culto The Matrix (aliás, a própria palavra que dá titulo ao filme é um conceito particularmente importante na obra de Gibson), ou livros como Catspaw, de Joan D. Vinge. Gibson (e Scott, no cinema) abriu as portas a um sub-género que se tornaria particularmente rico, afastando-se das sagas espaciais que se tinham tornado na principal imagem de marca da ficção científica, e trazendo a acção de volta para o nosso próprio planeta, em sombrios futuros próximos onde as mais avançadas tecnologias se combinam com as formas mais “alternativas” – degradantes, por vezes – de vida.

Neuromancer tem em Case o seu personagem principal. Case fora em tempos hacker, um ladrão de informações no ciberespaço – cowboy é o termo utilizado -, mas um trabalho que lhe correra mal custara-lhe a sua capacidade para entrar no ciberespaço. Até que um misterioso homem, ajudado por uma assassina, se propõe restituir-lhe os seus sentidos em troca da sua colaboração num sofisticado roubo. Boa parte da narrativa é uma verdadeira trip, quase como se as drogas que as personagens consomem em quantidades generosas também actuassem no leitor; a escrita é boa por ser má, com os muitos erros deliberados a tornarem a narrativa mais próxima e coloquial, e com um vasto recurso a calão (perfeitamente adequado, convém dizer) – recursos que contribuem para a caracterização das personagens (Gibson não foi o primeiro a fazê-lo; Salinger usou inteligentemente a linguagem de modo parecido no brilhante The Catcher in the Rye). A história vai sendo contada a partir de um caos narrativo que só aparentemente é aleatório, as pontas soltas vão-se fechando, e damos por nós completamente imersos na leitura, envolvidos no mistério que ela encerra. O ritmo narrativo é rápido, vertiginoso por vezes, e extraordinariamente eficaz – obriga e estimula o leitor a querer ler mais e mais. Um clássico, sem dúvida.

 

(Nota: A imagem à esquerda é a capa original de Neuromancer. A imagem à direita é a capa da edição brasileira que mencionei neste post, e que considero ser um exemplo de uma boa capa de livro.)

“Lonesome George”


eventhorizon,

Não sei se já ouviram falar no “Lonesome George”. Se não ouviram, eu faço as apresentações: o George é uma adorável Tartaruga das Galápagos (na foto), da subespécie Geochelone nigra abingdoni, uma das onze subespécies das famosas Tartarugas das Galápagos. George seria uma tartaruga como as outras, não fosse por um pequeno detalhe, de extraordinária importância: encontrado na ilha de Pinta em 1971, é o único sobrevivente puro da sua subespécie em habitat natural. No Jardim Zoológico de Praga, existe um exemplar que se pensa ser uma Tartaruga da Ilha de Pinta pura, mas para azar de George, é também macho (chama-se Tony). Estima-se que George terá entre 60 e 90 anos, e encontra-se de boa saúde – sobretudo desde que os esforços de preservação da fauna e da flora das Galápagos começaram a dar frutos. Só lhe falta mesmo uma companheira.

Aos eventuais interessados, a recompensa para quem encontrar companheira de raça pura para o George é de dez mil dólares. Até ao presente, todas as tentativas de acasalar George com fémeas de subespécies próximas fracassaram (no que a crias diz respeito, entenda-se).

 

(Fotografia de Frank Sulloway)

Julgar o livro pela capa


eventhorizon,

Falava lá no Jardim de julgar um livro pela capa, a propósito de uma edição que encontrei na Internet do livro Neuromancer, de William Gibson, que tem uma capa que considero muito boa (a da edição que possuo, infelizmente, não é assim tão boa). Acontece que as capas são precisamente uma das coisas que me desagradam nos livros modernos. Olha-se para as estantes de uma livraria, e o cenário é desolador. O novo livro de Lobo Antunes tem uma capa pavorosa. O de João Tordo, romance que tem dado que falar, também tem uma capa muito pobrezinha. O mais recente de José Luís Peixoto também não tem uma capa particularmente interessante. Não sei de onde veio esta moda de fazer capas com fotografias que não só revelam um gosto estético duvidoso (da parte dos editores, que, creio, são os responsáveis por estas escolhas, não são?), como me deixam a mim a pensar: será que esta imagem tem alguma coisa que ver com a história de que trata o livro?

Alguém já viu as capas das novas edições de Salinger? Estão tão simples e tão boas – vejam esta, por exemplo. Não precisam de imagem. Lembro-me das capas das antigas edições dos livros de Vergílio Ferreira. A do Manhã Submersa, azul-escura; a de Aparição, num quente tom amarelo-torrado. As fontes simples, com o indispensável: o nome do autor, o título da obra. Chega. Para quê a imagem desnecessária, a fotografia duvidosa? A capa da nova edição de Aparição dá vontade, perdoem-me o trocadilho fácil, de fazê-la desaparecer.

Há uma moda pior ainda: a de substituir as capas originais dos livros por capas alusivas aos filmes que resultam da adaptação desses livros. Moda terrível, responsável por avultadas baixas. Exemplo: as belas capas dos três livros que compõem a trilogia His Dark Materials, de Philip Pullman, foram todas substituídas pela imagem do péssimo filme que se fez a partir do (fabuloso) primeiro livro. Ou as várias edições de Tolkien, sobretudo as mais baratas, que trocaram as belíssimas capas ilustradas pelo poster do filme (gosto muito do filme, mas não exageremos). Felizmente, nas edições portuguesas, a Europa-América optou por não embarcar nas modas, e continuamos a ter as excelentes edições com as capas ilustradas. Tenho bem a noção de que, nos géneros que mais leio (fantasia e ficção científica), capas de gosto duvidoso não faltam. Mas esta capa – da edição brasileira, descobri agora mesmo – do Neuromancer é realmente muito boa. Gostava muito que houvesse mais capas assim.

A educação e os discursos


eventhorizon,

Neste post no Cachimbo de Magritte, Nuno Lobo fala da mensagem da Ministra da Educação. Ainda não tive oportunidade de ouvir a tal mensagem; li esta entrevista ao Público, e pareceu-me muito vaga e pobrezinha para uma Ministra de uma pasta tão importante como a Educação – mas nada que surpreenda, infelizmente. Acho todavia interessante a comparação que Nuno Lobo faz da mensagem de Isabel Alçada com este discurso de Barack Obama (do início do ano lectivo passado). Não nutro particular simpatia por Obama, mas há que reconhecer: aquele discurso, para todos os efeitos excelente, seria impossível em Portugal. Por vários motivos, dos quais destaco dois: não temos um político em actividade capaz de produzir e ler um discurso daqueles (o que é pena); e não temos ninguém em cargos políticos na área da Educação que considere que os alunos tambem têm deveres e responsabilidades (o que é uma tragédia que nos vai sair muito cara).

Inception


eventhorizon,

Ao contrário do que o Pedro defendeu nesta crítica, não considero que o filme Inception, de Christopher Nolan, seja, fundamentalmente, “pirotecnia visual”. Convém lembrar que, de todos os géneros cinematográficos, a ficção científica será porventura aquele que melhor explora as potencialidades da tecnologia – efeitos especiais, imagens geradas por computador, câmaras, enfim, um sem-número de truques de encher o olho. Diria mesmo: a ficção científica é o género que vive e desenvolve os efeitos especiais. Sem essa pirotecnia, sem esses “truques”, clássicos como 2001: A Space Odyssey, Star Wars, Alien, Blade Runner ou Matrix não teriam sido possíveis no seu tempo. É evidente que há filmes que fazem dos efeitos especiais o seu único expediente (e que por isso são, por norma, fracos), o que não é manifestamente o caso de qualquer um destes que mencionei; como, na minha opinião, não é o caso de Inception, filme que considero utilizar com mestria a tecnologia disponível para contar e explorar a complexa história que desenvolve ao longo de mais duas horas. Essa “pirotecnia visual” permitiu ao realizador, aliás, criar com mestria algumas cenas visualmente icónicas, que talvez venham a inspirar outras produções num futuro próximo.

 

No entanto, e ao contrário dos clássicos acima mencionados, Inception não me satisfez por completo. Globalmente, considero o filme muito bom, bastante acima da média, com algumas cenas a revelar assomos de um talento ímpar (a cena de Paris, de que o Pedro fala, é uma delas); faltou porém aquele rasgo de génio que poderia ter dado a este filme o estatuto de clássico, pelo menos dentro do género. Dito de forma mais simples: é bom, mas não justifica o hype. Até porque em nenhum momento se pode considerar groundbreaking.

Inception não explora por completo o potencial que a história tem – ou antes, creio que não o explora da melhor forma. É demasiado “action-oriented”, creio; um filme cuja trama se desenvolve, na sua maioria, em sonhos – literalmente – devia ser mais “fantasy-oriented”. Para ilustrar este ponto cometo o erro (pelo qual me desculpo já) de fazer uma comparação: no filme Paprika, longa metragem de animação japonesa do (infelizmente) falecido Satoshi Kon, encontramos um filme que parte de uma premissa muito similar – a possibilidade de entrar nos sonhos de alguém, e de cruzar esses sonhos – para recriar uma trama que transporta o espectador para um mundo verdadeiramente onírico. Ou seja: vivo, delirante, absurdo, frequentemente non-sense, difícil de controlar, repleto de impulsos inconscientes primários – para quem quiser recorrer a Freud. Em Inception, isso não acontece: não fica claro o mecanismo de projecção dos sonhos (em Paprika, a tecnologia é explicada), e todo o ambiente “sub-consciente” é perfeitamente controlado. Os mecanismos de defesa da mente são lineares, consistindo essencialmente em multidões enfurecidas (no caso de mentes “destreinadas”) ou em homens/militares armados (no caso de mentes “preparadas”). Todos os cenários são “reais”, pelo que a fusão com a realidade se torna vagamente decepcionante. Entre as várias camadas do sonho, muda o ambiente, mas todos os diferentes cenários continuam a ser perfeitamente racionais, e mesmo as alterações que neles podem ser feitas (recordar cenas iniciais) mantém uma racionalidade algo decepcionante – o que, a meu ver, não funciona se falamos de um “mundo” que, voltando a Freud, é absolutamente irracional. Para além disso, o filme falha ao não explorar outros aspectos que creio serem interessantes, como a tecnologia de infiltração nos sonhos, a criação dos “cenários”, e, mais uma vez, por não dar largas à imaginação num mundo feito à medida dela.

Isso, contudo, não faz de Inception um mau filme, bem pelo contrário; apenas impede que cumpra aquilo que a primeira meia hora promete. De qualquer maneira, a passagem entre as várias camadas de sonhos está feita de uma maneira muito engenhosa, e que inevitavelmente causará simpatia junto de quase todos os espectadores – afinal, quem nunca acordou sobressaltado a pensar que ia cair? -, o que é visível sobretudo na transição “ascendente”. Ainda que, com a excepção do protagonista Cobb (Leonardo DiCaprio), as personagens não estejam desenvolvidas como poderiam estar, há que destacar alguns desempenhos: o de DiCaprio, o de Ellen Page como Ariadne, e sobretudo o de Tom Hardy, no papel de Eames, que rouba várias cenas e dá ao filme um toque de descontracção que, em alguns momentos, é muito necessário. E o enredo em si, não sendo absolutamente original (uma vez mais, ver Paprika), é bastante interessante, e consegue ser bastante complexo sem se perder no labirinto que cria. Simplesmente não explora todos os caminhos, ou pelo menos alguns caminhos que poderiam ter sido bem mais interessantes.

Creio ser essa a diferença entre um filme muito bom e um clássico. Como disse uma amiga, Inception promete muito, mas não cumpre. Ou, como bem disse o Pedro, com toda a razão, passou ao lado de uma obra-prima. É pena, de facto – ainda assim, Inception é bastante mais do que a prima do mestre-de-obras, passe a expressão. Merece ser visto agora no cinema, e novamente quando estiver disponível no circuito comercial – decerto há muitos detalhes que vão sobressair.

 

Como não gosto das estrelinhas, dou-lhe 7,5 em 10. Já a Paprika, filme que muito recomendo, dar-lhe-ia 9 em 10 (este entrava direitinho para o meu top 15).

 

(Já agora, Pedro: a ficção científica normalmente faz-se acompanhar de outro género, ou por outros géneros. Thriller, acção, comédia, drama, terror – enfim, a lista seria quase ilimitada -, acabam por ser subgéneros recorrentes da ficção científica. Na minha opinião, essa transversalidade é um dos vários aspectos que tornam fascinante a ficção científica cinematográfica, e também literária)