Tenho vindo a publicar breves “recensões” aos livros de ficção científica que vou lendo. É verdade que tenho escolhido bem os livros, e que, até ao presente, todas as obras sobre as quais escrevi estão entre as melhores do género, e têm-me proporcionado excelentes horas de leitura. Talvez qualquer dia faça também para os livros um “top 15”; para já, destaco a minha última leitura, The Left Hand of Darkness, que é também um dos melhores livros que já li. Não é, de facto, por acaso que a obra ganhou os mais importantes prémios do género (o Hugo e o Nébula), e que a sua autora, Ursula K. Le Guin, é ainda hoje considerada uma das maiores escritoras de fantasia e ficção científica, e uma das autoras do género que maior reconhecimento obteve fora dos círculos tradicionais do género. A história está enquadrada no seu “Hainish universe”, um universo futurista alternativo na qual Le Guin situou muitas das suas mais importantes obras, como Rokanon’s World, Planet of Exile, The Word for World is Forest e The Dispossessed (sobre o qual escrevi aqui). Um pouco como a “Terra Média” de Tolkien na fantasia; com a diferença que os diversos livros e contos de Le Guin são independentes, ainda que exista uma cronologia implícita – por exemplo, a história narrada The Left Hand of Darkness é cronologicamente posterior à de The Dispossessed (no entanto, este foi escrito em 1974, enquanto aquele foi publicado pela primeira vez em 1969).
No universo de The Left Hand of Darkness, existe uma organização interplanetária que une oitenta e três mundos diferentes (desde a Terra a Hain) conhecida por “Ekumen”. O protagonista da história, Genly Ai, oruindo da Terra, é enviado como emissário do Ekumen a Gethen, um gélido e distante planeta onde existe uma civilização humana, mas com uma peculiaridade que a distingue das demais: os humanos de Gethen são andróginos e hermafroditas, e as suas diversas sociedades não possuem qualquer distinção ou discriminação baseada na identidade sexual. Durante a maior parte do tempo (mais ou menos vinte e quatro dias do seu ciclo lunar, que dura vinte e seis dias) os humanos de Gethen não possuem qualquer manifestação sexual; durante os restantes dias, no período designado por kemmer, assumem um dos géneros sexuais através de interacção por feromonas com os potenciais parceiros sexuais. Como resultado prático, cada indivíduo em Gethen pode, por analogia, ser “pai” ou “mãe”, ou mesmo ambos. Ao longo da obra, esta característica dos habitantes de Gethen é acentuada por contraste com Genly Ai (para os restantes personagens, Genly vive num estado de kemmer permanente), que considera esta falta de dualidade sexual como explicação para muitas das peculiaridades das civilizações de Gethen, como a inexistência de guerras. A questão sexual é um dos temas fundamentais de uma história também marcadamente política, que se centra na personagem de Genly Ai e nos seus esforços para fazer Gethen aderir ao Ekumen. A narrativa começa por situar o protagonista na nação de Karhide, um país de características feudais, para na segunda parte passar a acção para Orgoreyn, uma sociedade extraordinariamente burocrática. A terceira parte narra o exílio e a longa viagem de Genly Ai para regressar a Karhide e chamar a nave que está estacionada em órbita, como medida desesperada para convencer os habitantes do planeta que de facto é oriundo de outro mundo.
A história de The Left Hand of Darkness é narrada de forma linear, mas com base em “fontes” dispersas, alternando entre os diários e as memórias de Genly Ai e o diário do outro protagonista, Estraven, sem contudo seguir uma estrutura fixa (como acontece, por exemplo, em The Dispossessed). Pelo meio, de forma mais ou menos aleatória, surgem capítulos distintos que apresentam lendas e contos de Gethen, descrevem as várias religiões presentes naquele planeta, ou que incidem sobre outros aspectos daquele mundo – aspectos laterais que ajudam a compreender mais um fascinante mundo imaginado e descrito por Ursula K. Le Guin.
Por coincidência, uma vez que acabei de ler o livro esta manhã, publico este texto no dia em que a autora celebra 81 anos.
The Left Hand of Darkness
eventhorizon,


Fiquei curiosa acerca do livro, João, ainda bem que deixaste aqui esta nota de leitura; não leio nada da Le
Guin desde a adolescência, tempo em que o ‘Tão Longe de Sítio Nenhum’ deixou a sua marca.
Tanto quanto sei, já existe uma tradução, publicada recentemente pela Presença. Aliás, esta editora tem vindo a publicar vários livros de Ursula Le Guin.
Este vale bem a pena. Também gostei muito do The Dispossessed, mas por algum motivo este livro prendeu-me muito mais.