Durante anos, ouvimos repetir a ladainha: a escrita jornalística, de carácter noticioso, deve estar totalmente despojada de adjectivos. Esta defesa intransigente de uma prosa jornalística “pura”, sem qualificativos, sob a inspiração da clássica escrita de agência noticiosa norte-americana, cede na prática à imposição dos factos. Uma prosa despida de adjectivos, ao contrário do que indicavam as regras clássicas, acaba por ser muitas vezes a negação do verdadeiro espírito jornalístico, que resulta de uma estreita cumplicidade entre o autor da peça e o leitor.
Querem uma prova? Veio na primeira página do passado dia 12 num dos jornais mais clássicos do planeta: o Times, de Londres. O texto da manchete, dedicada à odisseia dos mineiros chilenos, arrancou com este parágrafo: “After 69 agonising days, the dramatic rescue of 33 miners trapped far beneath Chile’s Atacama desert was finally ser to get underway last night.”
Reparem: dois adjectivos em quatro linhas deste curto texto. Que ficaria muito mais pobre sem os termos “dramático” e “agonizante”. O jornalismo não deve recear o adjectivo justo, claro, preciso, envolvente, apaixonante e apaixonado. Como esta destacada notícia do Times bem demonstra.
E como evitar a utilização de termos valorativos na narração desta história – uma das mais marcantes não só do ano mas também da década? Tudo está bem quando acaba bem. De respiração suspensa, o mundo acompanhou a inédita operação de resgate dos mineiros chilenos, que contou com o incentivo permanente do Presidente da República, Sebastián Piñera. Uma situação limite, que em circunstâncias normais conduziria à morte dos 33 trabalhadores encurralados a 700 metros de profundidade. Mais de dois meses depois do acidente que os deixou enclausurados numa mina de cobre, os 32 chilenos e o seu companheiro boliviano voltaram enfim a ver a luz do dia. Em ambiente de mobilização colectiva, numa altura da história do mundo tão marcada pelo individualismo galopante, em ambiente de solidariedade, numa fase em que os egoísmos nacionais pontificam, estes heróis dos nossos dias regressaram à superfície reconduzindo-nos de algum modo ao imaginário de Júlio Verne: a viagem ao centro da Terra é a última utopia possível neste planeta. Uma utopia que, numa escala limitada, estes homens concretizaram com sucesso. Inesquecível foi o momento em que o último mineiro, Luis Urzúa, cantou o hino nacional chileno abraçado a Piñera. Sem distinções sociais ou políticas de qualquer espécie – naquele minuto, eram apenas dois seres humanos partilhando um irrepetível instante de alegría.
Foi um dos momentos mais marcantes de um ano que já tinha sido tragicamente assinalado, a 27 de Fevereiro, por um brutal sismo no Chile. País mártir. País de esperança também. Um exemplo para a humanidade inteira.
Como escrever uma notícia destas sem adjectivos?


Por detrás do profissional que é o jornalista está o ser humano com todas as conotações que isso importa. É impossível escrever uma narrativa sem se deixar vincular às emoções que ela própria transporta. No entanto, também penso que o profissional tem que estar ciente da necessidade de imprimir critérios objectivos aos seus textos, sob pena de o seu trabalho se tornar maçador e desinteressante.
Não tenho a menor dúvida.
Tinha lido no Hoje Macau.
E respondo à pergunta de forma simples – sem adjectivação, fica tal e qual comida sem tempero.
Penso o mesmo. E as provas estão à vista, de um lado e de outro.
Dois adjetivos bem inapropriados, porém.
Primeiro, só os primeiros 19 dias foram “agonizantes” (deixemos de parte o facto de este adjetivo não ter o mesmo significado em inglês que em português). A partir daí, com os mineiros encontrados, comida e água fornecidas, mais filmes, conversas com a família e tudo o resto, os dias foram aborrecidos mas certamente nenhuma agonia.
Segundo, o resgate não foi nada “dramático”. Não houve drama absolutamente nenhum, apenas o desempenho tecnicamente eficiente de uma operação bem planeada. Não houve sequer a sugestão de uma possível falha, de um qualquer desastre possível – drama nenhum.
1. Nada ‘agonizante’. Estar 17 dias isolado do mundo, sem saber se existe alguma operação de socorro em marcha e comendo apenas uma colher de atum de lata por dia é fixe. Imagino o mineiro Lavoura, imperturbável, a 700 m de profundidade, qual Tarzan das profundezas, soltando gritos de júbilo.
2. Nada ‘dramático’. Uma complexa operação de engenharia, nunca testada anteriormente, acompanhada segundo a segundo por mil milhões de pessoas em todo o mundo, com maior auditório global do que teve a chegada do homem à Lua, só dava mesmo para adormecer. Imagino mesmo o telespectador Lavoura fazendo um ‘zapping’ entediado àquele hora no seu sofá.
3. O ‘Times’, como sabemos, não é modelo de jornalismo para ninguém. Ó Lavoura, passe-me aí o seu exemplar da ‘Hola’, sefachavor.
Respondendo por pontos:
(1) Os primeiros 17 (ou 19) dias foram de facto “agonizantes”, como eu afirmei no meu comentário original. Os restantes 40 ou 50 dias é que não o foram.
(2) Em minha casa, a minha mulher e eu ficámos de facto entediados com aquele espetáculo televisivo. Só não fizemos “zapping” porque só temos quatro canais e estavam todos eles a transmitir o mesmo.
(3) Nunca li nem o Times nem a Hola, pelo que não posso comentar a sua qualidade. Mas, mesmo os melhores jornais cometem deslizes…