Julgar o livro pela capa


eventhorizon,

Falava lá no Jardim de julgar um livro pela capa, a propósito de uma edição que encontrei na Internet do livro Neuromancer, de William Gibson, que tem uma capa que considero muito boa (a da edição que possuo, infelizmente, não é assim tão boa). Acontece que as capas são precisamente uma das coisas que me desagradam nos livros modernos. Olha-se para as estantes de uma livraria, e o cenário é desolador. O novo livro de Lobo Antunes tem uma capa pavorosa. O de João Tordo, romance que tem dado que falar, também tem uma capa muito pobrezinha. O mais recente de José Luís Peixoto também não tem uma capa particularmente interessante. Não sei de onde veio esta moda de fazer capas com fotografias que não só revelam um gosto estético duvidoso (da parte dos editores, que, creio, são os responsáveis por estas escolhas, não são?), como me deixam a mim a pensar: será que esta imagem tem alguma coisa que ver com a história de que trata o livro?

Alguém já viu as capas das novas edições de Salinger? Estão tão simples e tão boas – vejam esta, por exemplo. Não precisam de imagem. Lembro-me das capas das antigas edições dos livros de Vergílio Ferreira. A do Manhã Submersa, azul-escura; a de Aparição, num quente tom amarelo-torrado. As fontes simples, com o indispensável: o nome do autor, o título da obra. Chega. Para quê a imagem desnecessária, a fotografia duvidosa? A capa da nova edição de Aparição dá vontade, perdoem-me o trocadilho fácil, de fazê-la desaparecer.

Há uma moda pior ainda: a de substituir as capas originais dos livros por capas alusivas aos filmes que resultam da adaptação desses livros. Moda terrível, responsável por avultadas baixas. Exemplo: as belas capas dos três livros que compõem a trilogia His Dark Materials, de Philip Pullman, foram todas substituídas pela imagem do péssimo filme que se fez a partir do (fabuloso) primeiro livro. Ou as várias edições de Tolkien, sobretudo as mais baratas, que trocaram as belíssimas capas ilustradas pelo poster do filme (gosto muito do filme, mas não exageremos). Felizmente, nas edições portuguesas, a Europa-América optou por não embarcar nas modas, e continuamos a ter as excelentes edições com as capas ilustradas. Tenho bem a noção de que, nos géneros que mais leio (fantasia e ficção científica), capas de gosto duvidoso não faltam. Mas esta capa – da edição brasileira, descobri agora mesmo – do Neuromancer é realmente muito boa. Gostava muito que houvesse mais capas assim.

8 comentários em “Julgar o livro pela capa”

  1. Este tema é inesgotável. Também já o trouxe aqui, a propósito das excelentes capas que grandes artistas como Cândido Costa Pinto e Lima de Freitas produziram para a colecção Vampiro, da editora Livros do Brasil entre as décadas de 50 e 70. Nada a ver com as banalíssimas capas actuais, que não ficam para a história da edição literária.
    Ficaram célebres as capas que outros artistas, como Sebastião Rodrigues, fizeram para editoras como a Portugália ou o original de Almada Negreiros que acompanhava a colecção de poesia da Ática. Este aspecto tem vindo a ser muito descurado. Ainda há pouco comparei a capa das recentes edições portuguesa (da Livros do Brasil) e brasileira do livro ‘A América e os Americanos’, de Steinbeck: a brasileira vence por goleada.
    Acho bem que voltes a este assunto, João. E que tragas exemplos concretos de capas para todos vermos. E tens razão: a que indicas (e que logo espreitei) merece muito boa nota.

    1. Por acaso gosto muito de capas simples. Cor e texto. Também gosto de algumas capas ilustradas – mas não tenho paciência para as fotografias que se tornaram banais ultimamente.

      O tema pode dar uma série, agora que penso nisso.

  2. Os editores com as melhores capas (na minha opinião, claro) são a Ahab (http://ahabedicoes.com/), a Minotauro (chancela da Alemedina: http://www.almedina.net/catalog/index.php?editoras_id=483), a Palimpsesto (http://www.palimpsesto-editora.pt/index_ficheiros/Page327.htm) e a Livros de Areia (http://www.livrosdeareia.com/livros.htm). Só esta última publica livros com pontos de contacto com o género fantástico. Infelizmente, neste como noutros domínios, impera a facilidade e o mau gosto (é mais fácil ir buscar uma foto a um banco de imagens e colocar-lhe um título em cima do que idealizar uma capa a partir do zero, levando em conta o conteúdo do livro). E as capas evocando filmes são uma verdadeira praga destes tempos em que tudo tem de ser óbvio (obviamente, fujo delas tanto quanto possível)…

    1. Por acaso, a edição que tenho em língua inglesa da trilogia The Lord of the Rings tem a capa alusiva ao filme. Só não reclamei porque comprei os três livros por dez euro, o que dá 3.33 euros por livro. Mas quero um dia comprar uma boa edição.

      A Antígona costumava ter boas capas também. Não sei se ainda mantém a filosofia.

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