The Moon Is a Harsh Mistress


eventhorizon,

Imaginemos um mundo futurista por volta do ano de 2075, em que as nações da Terra deram lugar a “super-nações” de dimensões continentais, e em que a colonização da Lua é uma realidade. Ou antes: em que a utilização das cidades subterrâneas (sublunares?) da Lua como uma enorme colónia prisional é uma realidade. Imaginemos que, nessa colónia, um técnico de computadores individualista e apolítico, uma agitadora profissional, um professor reformado que se define como “anarquista racional” e um supercomputador tão complexo que ganhou consciência própria acabam por se aliar para colocar em prática uma revolução que dê à Lua o estatuto de “nação independente”. Quais seriam as probabilidades de sucesso dessa revolução? E como executá-la?

Este é o ponto de partida de The Moon Is a Harsh Mistress, obra premiada de Robert A. Heinlein, que aborda os aspectos teóricos de uma revolução colocando-a em prática neste cenário de ficção científica através de personagens improváveis, mas muito interessantes. Heinlein disserta sobre a natureza das revoluções, sobre o seu planeamento, sobre os factores aleatórios que, em muitos casos, as precipitam e as levam para direcções imprevisíveis – nunca esquecendo as lições que a História ensinou, como as revoluções americana e russa. E a revolução acaba por ser um pretexto para o autor explorar remas relacionados com a família, o patriotismo, a guerra, a forma de governo (existe até uma curiosa passagem sobre a monarquia, a propósito de um personagem que se afirma monárquico), e a economia – aqui, opondo o modelo libertário praticado pelas colónias lunares, aos vários modelos existentes na Terra (que todos conhecemos). Há quem diga que Heinlein terá até sido o primeiro autor a referir em livro a ideia de “não há almoços grátis” (muito associada a Milton Friedman), através da sigla TANSTAAFL (There Ain’t No Such Thing As A Free Lunch), presença constante ao longo de todo o livro e, diria, base ideológica de toda a obra. Tudo isto sem nunca descurar a componente científica, de uma precisão considerável.

The Moon Is a Harsh Mistress consegue, para além de ser uma obra extremamente inteligente, ser uma leitura muito divertida. Aliás, desde a leitura de The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, de Douglas Adams, que não ria tanto com um livro: desde o início, em que “Mike”, o computador consciente, adquire sentido de humor e procura compreendê-lo, até todas as peripécias que decorrem da revolução. Foi, sem dúvida, uma obra excelente para começar as minhas leituras de Outono. E que aproveito para recomendar.

10 comentários em “The Moon Is a Harsh Mistress”

    1. O Stranger in a Strange Land será uma das minhas próximas compras. Mas gostei mesmo muito deste. Mais leve do que o anterior (Starship Troopers), mas nem por isso menos complexo. E ao menos fiquei a saber a diferença entre um laser e um peixe de aquário 🙂

    1. Tanto essa colecção como a colecção de livros de bolso da ficção científica da Europa-América publicaram alguns dos melhores autores do género (Vinge, LeGuin, Clarke, Heinlein, Asimov, Dick), mas com um pequeno problema: péssimas traduções. O primeiro livro que li de ficção científica, se não incluírmos as leituras de Júlio Verne em miúdo, foi desta colecção. A tradução era terrível, demasiado má para ser verdade.

      1. É pelo que refere que recuso ler os livros da Europa-América. O que constitui outro problema, porque são poucas as editoras portuguesas que publicam, com qualidade, livros de ficção científica. Entretanto, ando entretido com a colecção “Viajantes no Tempo” da Editorial Presença, que recomenda-se. Quanto ao livro de Heinlein referido no post, é um dos meus favoritos.

        1. No caso da colecção que referi, sem dúvida que as traduções eram problemáticas. Mas nem tudo é mau na Europa-América. Considero a tradução feita à obra de Tolkien bastante boa.

          1. Ups! Tendo com conta o que escrevi pode entender-se, de facto, que refiro-me a todos os livros da Europa-América. Pretendia cingir-me à colecção que o João Campos refere (que é muito comum nas biblotecas públicas que frequento). Quanto à obra de Tolkien, os três volumes do Senhor dos Anéis fazem parte da minha biblioteca pessoal, pelo que não tenho razões de queixa.

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