Como envergonhar o país no estrangeiro


eventhorizon,

Não sei se os leitores estarão lembrados de um episódio caricato do primeiro mandato do governo PS: aquele discurso, não me lembro onde ou a que propósito, em que o inglês macarrónico (autêntico engrish) de José Sócrates fez Angela Merkel e Gordon Brown rirem a bom rir. O vídeo está na Internet e chegou a circular em alguns círculos mais “obscuros” da rede com o título de “English Fail”. Esse episódio devia ter feito Sócrates pensar duas vezes: afinal, nestas coisas há sempre tradução simultânea, também é necessário dar emprego a tradutores e, enfim, sempre se evita fazer má figura. Mas se há actividade à qual o nosso primeiro-ministro não dedica muito tempo é a pensar; tampouco é conhecido pela sua noção do ridículo, pois, algum tempo volvido, decidiu repetir a graça, mas em castelhano, em terras de Espanha. E como não há duas sem três, parece que a recente visita de Sócrates aos Estados Unidos tem sido rica em episódios. Confesso que suspirei de alívio por, nas Nações Unidas, Sócrates ter discursado em Português – pensei para com os meus botões: o homem pode nunca deixar de ser um primeiro-ministro sofrível, passe o eufemismo, mas ao menos já aprendeu alguma coisa. Erro meu: na Universidade de Columbia, em conferência, o senhor primeiro-ministro de Portugal decide quebrar o gelo recorrendo… a uma piada. A uma que nem foi original, por ser já muito batida: quem viu o excelente Le Cinquième Elément, filme europeu de ficção científica (juro que esta foi coincidência) com Bruce Willis, Milla Jovovich, Ian Holm e outros, certamente recordar-se-á de uma passagem em que Leeloo (Jovovich), em estado mais ou menos catatónico, começa a falar no idioma dos deuses; e Korben Dallas (Willis), confuso, diz-lhe apenas “woah, lady, I only speak two languages: English and Bad English”. Foi mais ou menos esta a linha de Sócrates, dizendo, perante uma plateia já de si atónita com o engrish de um primeiro-ministro (um primeiro-ministro, meu Deus!), qualquer coisa do género: que iria discursar na língua mais falada internacionalmente, não o inglês, mas o mau inglês. Se alguém quiser exibir o vídeo, por favor; no computador que estou a usar isso não me é possível. Adiante. Isto de contar piadas numa conferência para quebrar o gelo tem muito que se lhe diga; já vi alguns oradores (sobretudo americanos, mas recordo-me também de um extraordinário orador alemão que conheci) fazerem-no com mestria e tornarem conferências sobre temas complexos em sessões muito divertidas e enriquecedoras. Mas é preciso jeito para falar em público, sentido de humor e, sobretudo, muita prática; ora o nosso primeiro-ministro não possui possui qualquer vestígio de talento para falar em público; desconheço-lhe sentido de humor, pelo menos, sofisticado; e assim sendo não há prática que lhe valha. Tentou ser engraçado; conseguiu envergonhar o país no estrangeiro, uma vez mais. Way to go, man.

6 comentários em “Como envergonhar o país no estrangeiro”

  1. João, também me ria a bom rir se ouvisse Merkel, Sarkozy e Berlusconi a falar inglês. Mais vergonhoso que falar mal inglês, é nunca falar. Espanhóis, Italianos, Alemães nunca falam. Porque não falam mais nada. Nem Gordon Brown fala Português, Francês ou Espanhol.

    1. Por outro lado, se fores falar em inglês com os primeiros-ministros da Suécia e da Dinamarca, eles respondem num inglês praticamente perfeito. Ou até se fores falar com Durão Barroso que, apesar de ter fugido e de não ser exemplo para muita coisa, também já foi primeiro-ministro cá do rectângulo. Isto dos exemplos tem que se lhe diga: é sempre possível encontrarmos os mais convenientes para os nossos pontos de vista.

      De resto, algumas considerações: duvido que Merkel não fale um bom inglês, mas é, de facto, possível; não, o nosso PM não tem obrigação de falar inglês no estrangeiro, como um líder estrangeiro que visite Portugal não tem de falar português – é precisamente para isso que se inventou a tradução simultânea; independentemente de Zapatero ou Sarkozy falarem mau inglês, isso não desculpa o péssimo inglês falado de Sócrates – vergonhoso para um primeiro-ministro, sobretudo se pensarmos que o inglês será, hoje em dia, o idioma mais falado do mundo, dominado na perfeição por qualquer escandinavo da nossa idade (o argumento “os outros fazem igual ou pior” não tem validade em nenhum contexto, como sabes); não sei que idiomas falará Brown, mas felizmente para ele (e para todos os habitantes de países de língua inglesa), a língua que domina chega-lhe na perfeição.

      Os líderes de outros países não me envergonham. Da mesma forma que se calhar terás vergonha de Cavaco por causa do episódio do Bolo-rei, eu tenho vergonha de Sócrates sempre que ele bota faladura noutra língua que não a nossa. E mesmo na nossa, mas vá lá, isso são contas de outro rosário. Abraço e gosto em ver-te por cá.

      1. João, percebo a argumento. E não quero com isto dizer que o inglês falado é bom. Mas, por outro lado, não acho que falar inglês bem seja sinónimo de nada. Até porque o inglês é “língua mundial” não sei bem por que razão. O que eu acho é que se, por um lado, o escandinavo fala bem inglês, por outro as línguas maternas são faladas por muito pouca gente. Ao contrário do português. A situação de domínio linguístico em que o mundo caiu, é, em grande parte, por culpa das outras línguas. E aí concordo com a atitude espanhola e italiana. Nesse sentido, acho que um português deveria falar sempre português lá fora. Mas, para além disso, é um facto de que Sócrates fala mais línguas (apesar de não muito bem) do que Gordon, Sarkosy o Merkel (que nunca falou inglês em público). Mais, fazem comparações com Guterres ou Durão são sempre injustas, até porque são dois exemplos de dotes poliglóticos quase perfeitos.

        Ah, e não acho que aos anglosaxónicos lhes chegue falar inglês. Da mesma forma que acho que não me chegaria falar português. No meu ponto de vista, eles partem sempre de uma posição de inferioridade em relação aos outos. Falam, quase sempre, (no mínimo) menos uma língua que os outros. E isso é inferioridade.

        Um Grande Abraço,
        João

        1. Também desconheço a razão, mas a verdade é que o inglês emergiu como “língua mundial” – provavelmente por influência americana, que é uma razão tão válida como outra qualquer.

          Não, falar bem inglês não é sinónimo de coisa alguma. Mas diz alguma coisa sobre Sócrates – não sendo ele poliglota como Durão ou Guterres (o que não é culpa dele), diz que não gastou tempo ou se esforçou para melhorar algo que é uma falha. Ele não teria de falar inglês perfeito; mas, caramba, o inglês dele é demasiado mau. Até me podes dizer – seria verdade – que o inglês dele não será pior do que o da maioria dos portugueses, mas isso importa muito pouco (quanto muito, diz algo particularmente revelador sobre a educação no país). Considerando o cargo que ocupa, Sócrates devia ter um maior cuidado e um maior brio.

          Quando disse que aos anglo-saxónicos o inglês basta é apenas e só porque o inglês, mal ou bem, é falado em toda a parte. Se queres que te seja sincero, a mim nem o inglês me chega – e se há coisa de que tenho pena é de não ter conseguido aprender francês como aprendi inglês (apesar de ter mais anos de francês), e de ainda não ter tido disponibilidade e dinheiro para aprender uma nova língua, provavelmente duma das nórdicas. É evidente que quem fala apenas a própria língua – seja ela qual for – parte sempre de uma posição de inferioridade.

          Abraço, camarada.

  2. Permitam-me meter-me na vossa conversa. No caso concreto da conferência em inglês (e vamos deixar de lado aquela parte do ricipe), o que me envergonha mesmo é a falta de graça do sócrates. imaginemos o soares a falar francês com aquela pronúncia que nem em Toulouse. o soares aguentava porque, independentemente do que se achar do homem como político, tem (ou tinha) à-vontade. O sócrates a tentar dizer uma piada lembra alguém com uma cólica. É doloroso de assistir em qualquer língua.

    1. Ana, é sempre bem vinda. E tem toda a razão. Aliás, é mais ou menos nesse sentido que aponto no final do texto, apesar de ter dado mais destaque ao engrish.

      Uma cólica. Hehe 🙂

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *