Vá ao Magreb com a CP, mas só em Longo Curso


eventhorizon,

O Magreb começa em Elvas? Não sei. Ainda há no Magreb ligações ferroviárias com comboios regionais? É que essas, ao que parece, estão praticamente para acabar aqui no rectângulo. Nada que surpreenda: de há sete anos a esta parte, na linha que habitualmente uso (Lisboa – Algarve), a CP tem procurado por todos os meios, e de forma pouco discreta, que ninguém use o serviço Regional. Do antigo Inter-regional que ligava o Barreiro a Vila Real de Santo António (com paragem em todas as estações), passou-se para dois Regionais a ligar o Pinhal Novo a Faro, com horários cada vez mais inúteis, até ao presente: ligação Setúbal a Tunes (Faro?), com horários que servem praticamente ninguém. Depois queixam-se. Esta ligação, ainda assim, parece que se vai manter – por quanto tempo, veremos; mas a CP vai eliminar só 450 quilómetros do serviço regional. Só. Quase concordo com um comentário idiota à notícia do Público: para isto, mais vale de facto o Governo dar um carro a cada português.

Enfim, é neste país a destruir comboios que alguns deslumbrados querem um TGV. É isso, ou seremos o Magreb. Com mentalidades destas (felizmente a idiotice não paga imposto), não há alta velocidade que nos valha.

A revolta popular online


eventhorizon,

Há dias, talvez no último fim-de-semana, apanhei em zapping o programa Ponto e Contraponto, da SIC Notícias, e nele parei enquanto o jantar estava a apurar. Dizia José Pacheco Pereira, sobre a retaliação à prisão de Julian Assange, que assumiu a forma de ataques aos sites da Mastercard, da Visa e de outros, e a propósito de uma notícia do Público, que não seria correcto dizer que os ataques eram uma forma de “revolta popular online”. Isto porque, na opinião do comentador, ataques daquela natureza não estariam ao alcance de qualquer um, e que havia – cito de memória – para aí cinquenta ou sessenta pessoas capazes de fazer aquilo. O que ficou ao alcance de qualquer um naquele programa foi que Pacheco Pereira não conhece o submundo da Internet que tanto aprecia, nomeadamente o messageboard 4chan e tudo o que daquelas profundezas sai. Como memes famosíssimos como os lolcats, por exemplo, ou o esquivo grupo Anonymous.

A verdade é que para mandar uma página web abaixo hoje em dia, apenas é necessário mobilizar um número considerável de pessoas. Tudo o resto está à distância de uma pesquisa no Google e dois cliques – não é de todo necessário ser um hacker profissional para derrubar o site da Mastercard. Diria mesmo que a maioria das pessoas que constituem o Anonymous são pessoas como eu ou eventualmente como o leitor, que provavelmente nem saberão programar mais do que meia dúzia de linhas em código HTML. Nestes casos em concretos, o grupo Anonymous usou uma ferramente disponível na internet, intitulada “Low Orbit Ion Cannon” (bonita referência de ficção científica), que permite lançar um ataque de Distributed Denial of Service (DDoS). O procedimento é simples: são enviados tantos pedidos de acesso a um site que a sua capacidade entre em quebra e o serviço seja interrompido. Não é propriamente rocket science – é tão simples como descarregar uma música.

Alguns dados disponíveis na Wikipedia indicam que, entre 8 e 10 de Dezembro, foram feitos mais de 30 mil downloads do LOIC. De resto, os ataques de DDoS de resposta à detenção de Assange não são inéditos: em Outubro deste ano, o grupo Anonymous já tinha usado com sucesso o LOIC para derrubar o site da Recording Industry Association of America, como retaliação pelo projecto de medidas mais duras para quem descarrega ficheiros ilegalmente. Pacheco Pereira faria muito bem em informar-se sobre estas matérias. É que a Internet de 2010 não é bem a Internet dos tempos de ouro do Abrupto.

A Scanner Darkly


eventhorizon,

Normalmente, quando publico aqui no Delito as minhas curtas recensões de ficção científica, faço-o apenas depois de ter lido os livros sobre os quais escrevo. Tenho três na calha, por manifesta falta de tempo (e de inspiração), mas hoje vou abrir uma excepção e falar de um livro que ainda estou a ler: A Scanner Darkly, de Philip K. Dick. Sobretudo por um motivo: A Scanner Darkly, com a sua escrita alucinada e uma narrativa tão psicadélica como as drogas de que fala, pode muito bem ser o exemplo perfeito de um livro de ficção científica que, por si só, devia afastar qualquer preconceito de género. Houve alguns livros sci-fi que pularam a cerca, passe a expressão, e se impuseram como referências na literatura mundial, talvez não por serem obras de ficção científica, mas apesar de serem obras de ficção científica – como bons exemplos, poderia apresentar Farenheit 451, de Ray Bradbury, A Clockwork Orange, de Anthony Burgess, ou, claro, Nineteen Eighty-Four, de George Orwell. A Scanner Darkly não fica atrás de nenhum destes – é, muito justamente, considerada uma das obras maiores de Philip K. Dick, ele mesmo considerado por muitos um dos maiores escritores de ficção científica de sempre.

A Scanner Darkly contém alguns elementos autobiográficos, e tem no consumo de drogas e respectivos efeitos o centro da história. A narrativa centra-se em Bob Arctor, nos seus amigos e colegas de casa Jim Barris e Ernie Luckman, e na sua namorada Donna Hawthorne. Arctor é polícia numa brigada de narcóticos, com a identidade de “Fred”, e encontra-se a investigar os seus próprios amigos e a sua própria namorada. Nem estes sabem que Bob é, na verdade, um polícia disfarçado, nem a polícia sabe – para evitar a corrupção tão habitual no interior das brigadas de narcóticos – que “Fred” é, na verdade, Bob Arctor. O problema é que, para manter o disfarce, Arctor tem de consumir as drogas que está a investigar. Nomeadamente, uma droga conhecida como “Substância D”, bastante viciante e com efeitos, por norma, devastadores.

Mencionei acima a “escrita alucinada” e a “narrativa psicadélica” de A Scanner Darkly. Faltaram-me adjectivos melhores, confesso; mas a verdade é esta: as quatro personagens principais da história estão quase sempre sob o efeito de drogas, e Philip K. Dick soube traduzir com mestria a vertigem desse estado para a escrita. Algumas passagens são verdadeiras alucinações, pela forma como prendem a atenção do leitor e insistem em desafiar uma lógica que se sabe não existir. Há uma passagem muito interessante (e famosa) que disso é exemplo: quando Arctor, Barris, Luckman e Donna discutem acaloradamente sobre a quantidade de mudanças que uma bicicleta tem. Parece parvo, eu sei, mas acreditem: é um diálogo absolutamente brilhante, entre os melhores que já li.

Uma vez mais, ainda não concluí a leitura do livro. Mas recomendo-o desde já.

 

Esta obra (como muitas outras de Philip K. Dick) foi já também adaptada para cinema em 2006. O realizador foi Richard Linklater, e o filme conta com as interpretações de Keanu Reeves, Robert Downey Jr., Woody Harrelson e Winona Ryder. Não sendo uma obra-prima, é um filme interessante, com momentos deliciosamente adaptados do livro (como a discussão sobre as mudanças da bicicleta, uma vez mais) e que utiliza uma curiosa técnica de animação. Sim, é um filme de animação, criada, tanto quanto sei, em pós-produção, como se o filme fosse reconvertido para animação, ou algo assim: falta-me a linguagem técnica. O que pouco importa aqui: o efeito é surpreendente, sobretudo devido ao enredo já de si “alucinado”.

Dúvida:


eventhorizon,

Já que o Mundial de futebol de 2018 vai ser na Rússia (que chatice, estava convencido de que iam fazer um estádio ultra-moderno lá na aldeia), isso quer dizer que vai haver jogos de São Petersburgo a Vladivostok?

A alternativa


eventhorizon,

Zapping. Na RTPN, Joana Amaral Dias fala em três milhões de pessoas (números dos sindicatos) e diz que a greve geral de hoje mostra que há uma “alternativa” às medidas “duríssimas” do Governo. Falta é explicar qual é a alternativa. Mas isso já seria pedir demasiado.

Pergunta inocente:


eventhorizon,

Serve de alguma coisa uma greve, por mais geral que seja, que dure apenas um dia? Não é por nada – eu nem faço parte dos grevistas, este post foi escrito ontem e, à hora da publicação, só não estarei a trabalhar se não houver um único autocarro da Carris na minha vizinhança -, mas lembro-me de que, há um par de anos, não foi preciso uma greve geral para parar o País e, aí sim, dar um valente cagaço ao Governo: os camionistas foram suficientes para dar conta do recado. Greve geral, pois sim. Demonstração de força e recuperação das cassetes antigas. Na quinta-feira, volta tudo à estaca zero.

O (grande) regresso dos mortos-vivos


eventhorizon,

 

Há algum tempo que não acompanhava na televisão uma série tão boa como The Walking Dead. Talvez desde Firefly (que, de resto, só vi recentemente) que não me deparava com uma série tão bem feita e com um grupo de personagens tão interessante. Baseada nas aclamadas graphic novels de Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard, The Walking Dead acompanha um grupo de sobreviventes num mundo devastado por um apocalipse de zombies. A premissa é antiga, bem sei; já conheceu muitos meios, grandes sucessos (como George Romero e o canónico The Night of the Living Dead) e fracassos estrondosos (como os filmes da série Resident Evil, que apenas conseguiram arruinar o enorme potencial de uma grande série de videojogos). Mas, como esta série veio provar, a velha ideia está bem longe de estar esgotada.

Disse que em The Walking Dead acompanhamos um grupo de sobreviventes no meio de um apocalipse zombie. Não se sabe como regressam os mortos à vida, ou o que desencadeou a epidemia – eis uma questão que provavelmente será explorada mais tarde. Sabe-se apenas que são zombies no mais clássico e “romeriano” sentido do termo: putrefactos, e com um insaciável apetite por carne humana. Bom, por carne em geral. E, como o grupo de sobreviventes prova, dentro das suas próprias interacções e do contacto com outros grupos de sobreviventes, no meio da devastação os maiores inimigos nem sempre são os mortos, mas os vivos.

Os desempenhos são bastante bons, de um elenco onde, perdoem-me se estiver errado, não figuram estrelas (eu, pelo menos, até ao momento não reconheci um único actor do elenco). E desde Rick, o protagonista, a Merle ou a Glenn, as personagens são credíveis, são interessantes, e, na maior parte dos casos (Merle será mesmo uma excepção), é difícil não gostar delas. O que torna a série ainda melhor: por aquilo que os quatro episódios já transmitidos deram a entender, o realizador, Frank Darabond (Shawshank Redeption, The Green Mile), não tem qualquer problema em matar personagens de que o público poderá gostar. Ou seja: ninguém está a salvo. O que, dizem-me, é fiel ao espírito da banda desenhada que está na base da série. De qualquer forma, o realizador merece aplauso por esta opção.

E por outra, igualmente importante: por não cair no facilitismo dos efeitos especiais, optando por fazer os zombies à moda antiga: através da caracterização. E, claro, merece aplauso a equipa responsável por aqueles mortos-vivos, de tão nojentos, tenebrosos e realistas que são. Há enfim um bom motivo para ficar em casa nas noites de terça-feira.

O sossego


eventhorizon,

A cimeira da Nato interessou-me pouco; chateou-me o concerto de Arcade Fire ter sido cancelado, mas já era previsível. Por um misto de preguiça e de falta de tempo, não sei muito bem o que se discutiu na cimeira, ou a que conclusões se chegou (se é que alguém chegou a alguma conclusão, ou se é que a ideia era chegar a alguma conclusão). Nem sei como correram as manifestações do costume – ouvi dizer que a Avenida da Liberdade continua mais ou menos intacta, o que, suponho, já será positivo. Mas estou muito feliz por a coisa ter acabado. Sexta-feira foi um dia terrível para se trabalhar no centro de Lisboa (aqui não houve essa coisa exótica da tolerância de ponto): sirenes a ecoar rua acima e rua abaixo a cada cinco minutos torram a paciência do mais paciente alentejano. Abençoado sossego que regressa amanhã.

A tetinha do Estado


eventhorizon,

A peça já nem surpreende: um jovem cuja formação não chegou muito longe e cujo currículo se resume à militância partidária, neste caso, no PS, arranjou um belo tacho. Ou melhor: arranjou um pote de ouro, se tivermos em consideração os valores divulgados. Junte-se a isto uma empresa vazia, inactiva como convém – um nome fictício para roubar (sim, roubar) mais uns milhares em subsídios ao erário público. Não surpreende a chico-espertice, não surpreende a falta de vergonha de quem abriga parasitas deste calibre. Quem tinha razão era Elisa Ferreira, quando disse que “o dinheiro é do Estado, é do PS”. No entendimento desta gente, é. E será enquanto a tetinha não secar.

Fórum Fantástico 2010


eventhorizon,

 

 

Começa dia 12 de Novembro, sexta-feira, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras (Lisboa), o Fórum Fantástico 2010, porventura o mais relevante – e interessante – evento de ficção científica a decorrer por cá. Depois da excelente edição de 2008 e do interregno de 2009, é bom ter o FF de volta. Aos interessados, o programa encontra-se disponível no blogue oficial.

Também à mesa se faz o Delito


eventhorizon,

Quando o Pedro Correia me nomeou escriba oficial do jantar (muito para minha surpresa, devo confessar), pensei em fazer da história daquela noite um conto mais ou menos futurista. Sempre fazia jus à reputação de Skywalker que a nossa anfitriã Ana Vidal cunhou*. Mas o tempo é escasso, e a inspiração não é muita. Por isso, deixemos os cenários futuristas, as naves espaciais e eventuais alienígenas de parte – até porque naquela noite, embora com menos importância que a bucha**, também foi assinado algures um acordo*** que, entre outras coisas, parece que parou a alta velocidade, pelo que até aos carros voadores ainda demoraremos um bocado. Enfim, passemos ao relato da noite; a ficção especulativa ficará para outro dia.

Não se sabe ao certo se, naquela dia de Outubro do ano de 2010, foi o céu que desabou sobre Lisboa, ou o rio que decidiu espreguiçar-se e, entre dois bocejos, reclamar a zona ribeirinha da cidade. Diga-se de passagem que tal facto também não importa muito, pois a água, a muita água que subiu e desceu naquele dia não impediu que um grupo de delituosos se juntasse para mais um repasto. E, verdade seja dita, nunca as paredes do Campo Pequeno tinham albergado tanto delito junto, apesar de, pelo que se diz, em tempos obscuros ter havido ideia parecida…

Adiante. Era Outubro, chovia, e juntou-se o Delito em amena cavaqueira. Hmm. Cavaqueira soa mal nesta época, não soa? Mas alegre convívio não me parece melhor – e eu até gosto muito do edifício do Campo Pequeno, mas neste momento também não creio ser adequado dizer que é um nobre edifício (faltam-me os trocadilhos para o camarada Chico, alguém me ajude). Pronto: juntou-se o Delito no restaurante Torricado, do chef Luís Suspiro. E desta vez com um convidado especial: Jorge Pimenta, vencedor dos mais interessantes movie awards da blogosfera, cortesia da nossa Teresa Ribeiro. O serão prometia; a chuva, essa, não nos demoveu, mas impediu-nos de usufruir da bela esplanada, pelo que tivemos de nos apertar no interior do restaurante. Felizmente, a Ana Vidal, que uma vez mais fez as honras da casa, desfez num ápice o embrulhado U das mesas num belo O, meio quadrado (não, isto não é uma alusão a um célebre programa de televisão), que sempre permite um convívio mais alargado. Chegou o tinto, chegou o branco, e chegaram umas belas entradas. Peço desculpa pela lamentável falha descritiva na ementa: a verdade é que não sei o nome da maior parte das iguarias que chegaram às nossas mesas (houve bacorinho e houve polvo, mas, tanto quanto sabemos, não era o falecido Paul; pelo menos – corrijam-me se estiver errado – ninguém começou a adivinhar os resultados da selecção espanhola, ou, vá lá, do Sporting). A verdade é que num jantar destes, a refeição em si acaba por ser secundária. O que de facto importa é a companhia – e essa, como sempre, foi a melhor. Falou-se de política, debateu-se a blogosfera, falou-se de comentadores e trolls. E houve até momento de poesia, cortesia do Luís M. Jorge, que com entoação exorcizou demónios das caixas de comentários. Um luxo, é o que vos digo (e uma valente gargalhada).

E ainda houve tempo, para alguns, para delitos prolongados em metro e meio, com saltos abruptos de conversa de política para cinema, de literatura para o dia-a-dia. Ausentes estiveram o J.M. Coutinho Ribeiro, o Paulo Gorjão e o João Carvalho, que, ouvi dizer, já garantiu que para a próxima não haverá anticiclone que o demova. Lá estaremos.

 

*Skywalker, Ana? É engraçado que é a segunda “alcunha” que me surge relacionada com Star Wars – a primeira era Darth Vader, e estava relacionada com a minha voz de bagaço.

**Bucha: designação alentejana (do meu Alentejo, pelo menos) para refeição.

***Mas à semelhança do tal acordo, também não há registos fotográficos deste jantar-delito. É curioso: começa a conversa e ninguém se lembra disso..!

The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy


eventhorizon,

Falemos de Arthur Dent. Arthur Dent é um pacato cidadão que, numa bela manhã de quarta-feira, acorda com uma valente ressaca. E, ao acordar, apercebe-se de que a sua casa está cercada por buldozers, preparadas para a demolir, com o objectivo de naquele lugar construir um acesso a uma auto-estrada. Indignado, Arthur Dent decide resistir, e deita-se no chão diante as máquinas, para impedir o seu avanço e assim salvar a sua casa.

A história de Arthur Dent, assim contada, não daria para grande prosa de ficção científica, mas a verdade é que, no hilariante livro de Douglas Adams (por vezes considerado o “sétimo elemento” dos Monty Python), The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, este pequeno acontecimento na vida de Arthur Dent é a versão reduzida de um evento de dimensões… galácticas, quando chega ao planeta Terra uma frota de naves da burocrática raça alienígena Vogon (lesmas espaciais, em resumo) com o intuito de… demolir a Terra, para naquele ponto do espaço construir o acesso a uma “auto-estrada” galáctica. De nada servem os apelos humanos: de acordo com os Vogons, o aviso de demolição esteve cinquenta anos publicado em Alfa-Centauri, pelo que se os humanos não viram o aviso e reclamaram junto das entidades competentes a tempo, enfim, problema deles. E assim, a Terra é demolida, e todos os seus habitantes são erradicados.

Quase todos. Arthur Dent salva-se quando o seu amigo Ford Prefect decide resgatá-lo de sua casa, pagar-lhe umas quantas cervejas, e, no momento em que chegam as naves Vogon, arranjar uma boleia para o espaço. Pois Ford é apenas um humano em disfarce, sendo na verdade natural de um “planeta nas proximidades da estrela Betelgeuse”. E é também um dos colaboradores do Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, o mais conhecido guia para uma bela viagem à boleia pela galáxia, com vendas superiores à grande Enciclopédia Galáctica e, é um prático computador com uma capa onde se pode ler, em letras gordas e amigáveis, as palavras “Don’t Panic”. E a partir deste momento começa a odisseia de Arthur Dent e Ford Prefect pela Via Láctea, ao longo da qual encontram personagens inesquecíveis como Zaphod Beeblebrox, Presidente da Galáxia, Trillian, Marvin, o robot depressivo, Slartibartfast, e se envolvem nas mais hilariantes situações. Ao longo da narrativa, é também explicada a busca incansável de uma antiga raça inteligente pela resposta à “Grande Questão da Vida, do Universo… e de Tudo!”, e ainda sobra tempo para que os leitores nunca mais olhem para um rato ou para um golfinho da mesma maneira.

The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy é um livro divertido. Muito divertido. Diria mesmo ser “a” comédia de ficção científica. A mim, fez-me rir desde a primeira linha da introdução (também de Douglas Adams) até ao final. As influências do humor “non-sense” tão típicas dos Monty Python, dos quais Adams era próximo, são evidentes. Diria mais: se os Monty Python tivessem entrado na ficção científica (esqueçamos por momentos o rapto alienígena em Life of Brian), não teriam feito melhor que The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy. Indispensável para quem gosta de ficção científica ou de comédia – e absolutamente obrigatório para quem gosta de ambas.

O outro lado da arte de desenrascar


eventhorizon,

Estou no trabalho com os pés molhados. Ou antes: encharcados. O meu “guarda-chuva aerodinâmico” sobreviveu às rajadas de vento e manteve a parte superior do meu corpo bem seca durante a borrasca desta manhã, se fechar os olhos e me distrair um bocado quase tenho a sensação de, dos joelhos para baixo, estar dentro de água. A saída do autocarro, ali na João Crisóstomo,  foi direitinha para uma poça de água quase do tamanho do Alqueva – os motoristas da Carris aperfeiçoaram a técnica de parar com as portas a dar directamente para a água, qual prancha de um barco pirata. Claro que as obras de toda a zona do Saldanha não ajudam nada. E claro que a famosa, tradicional e mui amada calçada portuguesa também não: a incapacidade nacional de construir um passeio direitinho, sem altos e baixos, só encontra rival na inaptidão, também nacional, para as contas públicas. Junte-se a isso goteiras, algerozes a descarregar directamente para os passeios e as inevitáveis obras – andar a pé em Lisboa em dias de chuva faz lembrar aquele divertido jogo do Takeshi’s Castle (em português, Nunca Digas Banzai!, lembram-se? Era a versão japonesa dos nossos Jogos Sem Fronteiras, mas incomparavelmente melhor que estes) em que os concorrentes japoneses andavam a saltar de “nenúfar” em “nenúfar” no meio de um charco, sendo que alguns (muitos) “nenúfares” eram falsos e lá iam os malucos dos japoneses à lama. Os passeios de Lisboa são mais ou menos o mesmo – a malta anda aos saltinhos, de guarda-chuva na mão, a evitar poças, descargas súbitas e outros transeuntes que jogam o mesmo jogo. O Takeshi’s Castle era divertido – talvez tenha sido o programa mais divertido a passar na televisão portuguesa -, mas este jogo alfacinha não é nada engraçado, bem pelo contrário.

Depois há as sarjetas. Os degraus da nova parte da estação de Metro de Saldanha pareciam as cataratas do Niagara, e metade do átrio da estação ameaçava deixar os lisboetas com água pelo tornozelo (parece que o sistema de escoamento da nova estação não é grande coisa). Diz que a Baixa alagou, como alaga sazonalmente. Idem para Alcântara. Passei lá de manhã, no autocarro, estava o dilúvio a começar. Pouco tempo depois ficou neste lindo estado que o Expresso mostra. Aqui, a regularidade também é sazonal. Um tipo fica a pensar: mas se isto acontece todos os anos, por que motivo nada se faz para prevenir a inundação? Talvez, para começar, não seja necessária grande engenharia para a coisa: limpar as sarjetas já deve ajudar, e para ver isso até um independente engenheiro de domingo deve servir. Este é o lado perverso do internacionalmente famoso desenrascanço português: nunca planeamos nada, mesmo quando enfrentamos o mesmo desastre a cada Outono. Este ano ainda não acabou, mas podemos ficar descansados: para o ano, por esta altura, as zonas baixas de Lisboa voltam a alagar. É certinho.

 

 

 

 

 

 

 

Imagem 1: a saída de um autocarro da Carris em dia de chuva. O uso de capacete é puramente estético; já a prancha é muito recomendada.

 

 

 

 

 

 

Imagem 2: Como andar nas ruas de Lisboa em dias de chuva. Sugestão do dia: um par de meias suplentes, ou galhochas. Boa sorte.

Não sei se o Shire é na Nova Zelândia


eventhorizon,

Mas aproveito para manifestar a minha solidariedade para com os habitantes daquele país, que saíram aos milhares para a rua para protestar contra a possibilidade de a Warner não vir a filmar o filme “O Hobbit” na Nova Zelândia. Podia aqui fazer a comparação com Portugal, país onde já não se protesta por coisa nenhuma, nem por aumentos no IVA nem por outra coisa qualquer, enquanto nos antípodas a malta tem energia para exigir a um estúdio que as filmagens da adaptação cinematográfica do célebre livro de Tolkien não saiam da ilha. Podia, mas não o vou fazer – vou antes aproveitar para falar do próprio filme em si.

Desde o sucesso da trilogia “O Senhor dos Anéis”, realizada por Peter Jackson, que ouço falar numa futura adaptação para o cinema da prequela “O Hobbit”. Neste livro, Tolkien narra a história de Bilbo Baggins, um pacato hobbit do Shire que (com um “empurrãozinho” de Gandalf) se vê no meio de um grupo de anões preparados para recuperar o seu antigo reino a Leste, na Montanha Solitária, em tempos atacada e dominada pelo dragão Smaug. Claro que a viagem não seria assim tão simples, e durante a aventura, os anões e o hobbit perdem-se nas Montanhas Azuis (onde Bilbo encontra Gollum, e lhe rouba o Anel), são capturados por elfos, enfrentam Smaug e acabam por entrar na Batalha dos Cinco Exércitos, contra os Goblins e Wargs de Moria.

Mas a produção do filme não tem sido fácil: foi necessário superar uma batalha legal com o Tolkien Estate, sociedade que detém os direitos da obra de Tolkien, e o projecto tem conhecidos tantos atrasos e paragens que o realizador Guillermo del Toro (realizador do aclamado “O Labirinto de Fauno”) acabou por desistir, ficando Peter Jackson a cargo da realização (inicialmente, Jackson seria o produtor da obra). Discutiu-se ainda se a história iria ser contada num único filme, em dois filmes, ou se iriam ser produzidos dois filmes, um a contar a história de “O Hobbit”, e outro a contar o que se passou entre essa história e o início de “O Senhor dos Anéis” (acho que a opção seguida foi esta última, mas não tenho a certeza). E, por fim, houve uma enorme indecisão quanto ao actor a desempenhar o papel principal do filme: na trilogia, Bilbo Baggins foi representado por Ian Holm, que mesmo com um papel secundário conseguiu uma actuação carismática (menos não se esperava, aliás). Mas Ian Holm tem já 80 anos, idade que, convenhamos, é muito pouco indicada para andar a fugir de Gollum, a enfrentar dragões e a entrar em batalhas.

Para já, esse assunto está resolvido: Martin Freeman (conhecido pelo papel de Arthur Dent na mais recente adaptação cinematográfica da obra “The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy”, de Douglas Adams) irá representar o hobbit. Resta se saber se alguns dos actores da trilogia, como Ian McKellen (Gandalf), Viggo Mortensen (Aragorn), Cate Blanchett (Galadriel), Hugo Weaving (Elrond) ou Andy Serkis (Gollum) irão dar novamente o seu contributo.

A estreia de “O Hobbit”, a não haver mais tropeções, está marcada para o final de 2012.

“O lado escuro da Lua”


eventhorizon,

Já se sabe que o jornalismo científico em Portugal, em termos gerais, não prima pela qualidade. Mas por vezes, seria bom que os jornalistas dedicados a estes temas perdessem alguns minutos a confirmar algumas informações. Por exemplo, com uma pesquisa de cinco minutos da internet, a jornalista que escreveu esta notícia no Público saberia que “o lado escuro da Lua” (astronomicamente falando, não me refiro ao disco dos Pink Floyd) não ganha por vezes esta designação por nunca lá chegar a luz do Sol – ideia obviamente errada!-, mas por aquele hemisfério da Lua nunca ser visível a partir da Terra, devido ao facto de o movimento de rotação do satélite estar sincronizado com o seu período de translação. Enfim, é o que se arranja.