Quando o Pedro Correia me nomeou escriba oficial do jantar (muito para minha surpresa, devo confessar), pensei em fazer da história daquela noite um conto mais ou menos futurista. Sempre fazia jus à reputação de Skywalker que a nossa anfitriã Ana Vidal cunhou*. Mas o tempo é escasso, e a inspiração não é muita. Por isso, deixemos os cenários futuristas, as naves espaciais e eventuais alienígenas de parte – até porque naquela noite, embora com menos importância que a bucha**, também foi assinado algures um acordo*** que, entre outras coisas, parece que parou a alta velocidade, pelo que até aos carros voadores ainda demoraremos um bocado. Enfim, passemos ao relato da noite; a ficção especulativa ficará para outro dia.
Não se sabe ao certo se, naquela dia de Outubro do ano de 2010, foi o céu que desabou sobre Lisboa, ou o rio que decidiu espreguiçar-se e, entre dois bocejos, reclamar a zona ribeirinha da cidade. Diga-se de passagem que tal facto também não importa muito, pois a água, a muita água que subiu e desceu naquele dia não impediu que um grupo de delituosos se juntasse para mais um repasto. E, verdade seja dita, nunca as paredes do Campo Pequeno tinham albergado tanto delito junto, apesar de, pelo que se diz, em tempos obscuros ter havido ideia parecida…
Adiante. Era Outubro, chovia, e juntou-se o Delito em amena cavaqueira. Hmm. Cavaqueira soa mal nesta época, não soa? Mas alegre convívio não me parece melhor – e eu até gosto muito do edifício do Campo Pequeno, mas neste momento também não creio ser adequado dizer que é um nobre edifício (faltam-me os trocadilhos para o camarada Chico, alguém me ajude). Pronto: juntou-se o Delito no restaurante Torricado, do chef Luís Suspiro. E desta vez com um convidado especial: Jorge Pimenta, vencedor dos mais interessantes movie awards da blogosfera, cortesia da nossa Teresa Ribeiro. O serão prometia; a chuva, essa, não nos demoveu, mas impediu-nos de usufruir da bela esplanada, pelo que tivemos de nos apertar no interior do restaurante. Felizmente, a Ana Vidal, que uma vez mais fez as honras da casa, desfez num ápice o embrulhado U das mesas num belo O, meio quadrado (não, isto não é uma alusão a um célebre programa de televisão), que sempre permite um convívio mais alargado. Chegou o tinto, chegou o branco, e chegaram umas belas entradas. Peço desculpa pela lamentável falha descritiva na ementa: a verdade é que não sei o nome da maior parte das iguarias que chegaram às nossas mesas (houve bacorinho e houve polvo, mas, tanto quanto sabemos, não era o falecido Paul; pelo menos – corrijam-me se estiver errado – ninguém começou a adivinhar os resultados da selecção espanhola, ou, vá lá, do Sporting). A verdade é que num jantar destes, a refeição em si acaba por ser secundária. O que de facto importa é a companhia – e essa, como sempre, foi a melhor. Falou-se de política, debateu-se a blogosfera, falou-se de comentadores e trolls. E houve até momento de poesia, cortesia do Luís M. Jorge, que com entoação exorcizou demónios das caixas de comentários. Um luxo, é o que vos digo (e uma valente gargalhada).
E ainda houve tempo, para alguns, para delitos prolongados em metro e meio, com saltos abruptos de conversa de política para cinema, de literatura para o dia-a-dia. Ausentes estiveram o J.M. Coutinho Ribeiro, o Paulo Gorjão e o João Carvalho, que, ouvi dizer, já garantiu que para a próxima não haverá anticiclone que o demova. Lá estaremos.
*Skywalker, Ana? É engraçado que é a segunda “alcunha” que me surge relacionada com Star Wars – a primeira era Darth Vader, e estava relacionada com a minha voz de bagaço.
**Bucha: designação alentejana (do meu Alentejo, pelo menos) para refeição.
***Mas à semelhança do tal acordo, também não há registos fotográficos deste jantar-delito. É curioso: começa a conversa e ninguém se lembra disso..!