O outro lado da arte de desenrascar


eventhorizon,

Estou no trabalho com os pés molhados. Ou antes: encharcados. O meu “guarda-chuva aerodinâmico” sobreviveu às rajadas de vento e manteve a parte superior do meu corpo bem seca durante a borrasca desta manhã, se fechar os olhos e me distrair um bocado quase tenho a sensação de, dos joelhos para baixo, estar dentro de água. A saída do autocarro, ali na João Crisóstomo,  foi direitinha para uma poça de água quase do tamanho do Alqueva – os motoristas da Carris aperfeiçoaram a técnica de parar com as portas a dar directamente para a água, qual prancha de um barco pirata. Claro que as obras de toda a zona do Saldanha não ajudam nada. E claro que a famosa, tradicional e mui amada calçada portuguesa também não: a incapacidade nacional de construir um passeio direitinho, sem altos e baixos, só encontra rival na inaptidão, também nacional, para as contas públicas. Junte-se a isso goteiras, algerozes a descarregar directamente para os passeios e as inevitáveis obras – andar a pé em Lisboa em dias de chuva faz lembrar aquele divertido jogo do Takeshi’s Castle (em português, Nunca Digas Banzai!, lembram-se? Era a versão japonesa dos nossos Jogos Sem Fronteiras, mas incomparavelmente melhor que estes) em que os concorrentes japoneses andavam a saltar de “nenúfar” em “nenúfar” no meio de um charco, sendo que alguns (muitos) “nenúfares” eram falsos e lá iam os malucos dos japoneses à lama. Os passeios de Lisboa são mais ou menos o mesmo – a malta anda aos saltinhos, de guarda-chuva na mão, a evitar poças, descargas súbitas e outros transeuntes que jogam o mesmo jogo. O Takeshi’s Castle era divertido – talvez tenha sido o programa mais divertido a passar na televisão portuguesa -, mas este jogo alfacinha não é nada engraçado, bem pelo contrário.

Depois há as sarjetas. Os degraus da nova parte da estação de Metro de Saldanha pareciam as cataratas do Niagara, e metade do átrio da estação ameaçava deixar os lisboetas com água pelo tornozelo (parece que o sistema de escoamento da nova estação não é grande coisa). Diz que a Baixa alagou, como alaga sazonalmente. Idem para Alcântara. Passei lá de manhã, no autocarro, estava o dilúvio a começar. Pouco tempo depois ficou neste lindo estado que o Expresso mostra. Aqui, a regularidade também é sazonal. Um tipo fica a pensar: mas se isto acontece todos os anos, por que motivo nada se faz para prevenir a inundação? Talvez, para começar, não seja necessária grande engenharia para a coisa: limpar as sarjetas já deve ajudar, e para ver isso até um independente engenheiro de domingo deve servir. Este é o lado perverso do internacionalmente famoso desenrascanço português: nunca planeamos nada, mesmo quando enfrentamos o mesmo desastre a cada Outono. Este ano ainda não acabou, mas podemos ficar descansados: para o ano, por esta altura, as zonas baixas de Lisboa voltam a alagar. É certinho.

 

 

 

 

 

 

 

Imagem 1: a saída de um autocarro da Carris em dia de chuva. O uso de capacete é puramente estético; já a prancha é muito recomendada.

 

 

 

 

 

 

Imagem 2: Como andar nas ruas de Lisboa em dias de chuva. Sugestão do dia: um par de meias suplentes, ou galhochas. Boa sorte.

5 comentários em “O outro lado da arte de desenrascar”

  1. “os motoristas da Carris aperfeiçoaram a técnica de parar com as portas a dar directamente para a água, qual prancha de um barco pirata.”

    Ouvi dizer que fazem apostas entre eles, e que as dos melhores já chegam aos milhares de euros.

  2. Com todo respeito pela sua opinião, mas com base na minha formação, posso garantir-lhe que Lisboa e grande parte das cidades nacionais, têm sistemas de drenagem que em nada diferem das demais cidades europeias. A única critica que se pode levantar é a limpeza das sarjetas. Mas, creio que ontem em Lisboa andaram a tratar disso segundo vi nos noticiários.
    O que o João Campos e muitos não sabem é que estas chuvadas como a de hoje, são absolutamente normais e que nada pode ser feito para contrariar anormalidades climatéricas. Por mais limpas que as sarjetas estejam, por melhores redes de drenagem, o mal já foi há muito tempo feito, chama-se falta de planeamento, que mesmo assim não eliminava a possibilidade da existência de cheias, quanto muito atenuava.

    1. Como se viu, a limpeza de ontem deu resultados… molhados hoje.
      Eu até concordo consigo, Renato: o mal foi feito há muito tempo, e, sim, chama-se falta de planeamento. Daí também a alusão ao “desenrascanço”, que é precisamente o oposto. Faz-se como calha, e depois logo se vê.
      Mas tenho uma dúvida: se Lisboa tem sistemas de drenagem que em nada diferem das restantes cidades europeias, se estas chuvadas são normais e se as inundações acontecem no mesmo sítio todos os anos, não há mesmo nada que pudesse ser feito? Ou teremos somente de nos resignar a isto? Se assim for, vou comprar um caiaque, e para o ano vou fazer “urban rafting” para a Avenida da Liberdade.

      1. Lisboa tem sistemas de drenagem iguais aos de Londres,Bruxelas,Antuérpia,Hamburgo e…Bergen(mais do que Bruxelas,esta o verdadeiro penico do Céu !!) ??? Ok, então dado que o Outono vai acontecendo todos os anos,a chuva também é um dado adquirido e não tivemos o Katrina, que tal menos gastos com faroladas para inglês ver e mais prevençãozinha e sujar de mãos a limpar sarjetas e outros colectores ?? Dá trabalho e não aparece na “Caras” ?? Pois, que chatice…

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