Há dias, talvez no último fim-de-semana, apanhei em zapping o programa Ponto e Contraponto, da SIC Notícias, e nele parei enquanto o jantar estava a apurar. Dizia José Pacheco Pereira, sobre a retaliação à prisão de Julian Assange, que assumiu a forma de ataques aos sites da Mastercard, da Visa e de outros, e a propósito de uma notícia do Público, que não seria correcto dizer que os ataques eram uma forma de “revolta popular online”. Isto porque, na opinião do comentador, ataques daquela natureza não estariam ao alcance de qualquer um, e que havia – cito de memória – para aí cinquenta ou sessenta pessoas capazes de fazer aquilo. O que ficou ao alcance de qualquer um naquele programa foi que Pacheco Pereira não conhece o submundo da Internet que tanto aprecia, nomeadamente o messageboard 4chan e tudo o que daquelas profundezas sai. Como memes famosíssimos como os lolcats, por exemplo, ou o esquivo grupo Anonymous.
A verdade é que para mandar uma página web abaixo hoje em dia, apenas é necessário mobilizar um número considerável de pessoas. Tudo o resto está à distância de uma pesquisa no Google e dois cliques – não é de todo necessário ser um hacker profissional para derrubar o site da Mastercard. Diria mesmo que a maioria das pessoas que constituem o Anonymous são pessoas como eu ou eventualmente como o leitor, que provavelmente nem saberão programar mais do que meia dúzia de linhas em código HTML. Nestes casos em concretos, o grupo Anonymous usou uma ferramente disponível na internet, intitulada “Low Orbit Ion Cannon” (bonita referência de ficção científica), que permite lançar um ataque de Distributed Denial of Service (DDoS). O procedimento é simples: são enviados tantos pedidos de acesso a um site que a sua capacidade entre em quebra e o serviço seja interrompido. Não é propriamente rocket science – é tão simples como descarregar uma música.
Alguns dados disponíveis na Wikipedia indicam que, entre 8 e 10 de Dezembro, foram feitos mais de 30 mil downloads do LOIC. De resto, os ataques de DDoS de resposta à detenção de Assange não são inéditos: em Outubro deste ano, o grupo Anonymous já tinha usado com sucesso o LOIC para derrubar o site da Recording Industry Association of America, como retaliação pelo projecto de medidas mais duras para quem descarrega ficheiros ilegalmente. Pacheco Pereira faria muito bem em informar-se sobre estas matérias. É que a Internet de 2010 não é bem a Internet dos tempos de ouro do Abrupto.
