Neuromancer


eventhorizon,

No cinema, o cyberpunk, sub-género da ficção científica, foi inaugurado com polémica em 1982 com Blade Runner, adaptação de Ridley Scott ao romance Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick, hoje considerado uma obra-prima, não só do género, como do cinema em geral. Digo com polémica porque, à época do seu lançamento, Blade Runner não foi um filme consensual, tendo sido devastado pela crítica e rejeitado pelo público. O tempo – no fundo, o grande juiz da arte – deu razão a Ridley Scott, que no início da década de 80 realizou um filme que estava à frente do seu tempo. Mas é possível que essa antecipação tenha contribuído para o entusiasmo que, dois anos mais tarde, conheceu o romance Neuromancer, de William Gibson, premiado com os mais importantes prémios do género.

Olhando para trás, podemos concluir que várias obras que se tornaram emblemáticas no cinema e na literatura de ficção científica não teriam provavelmente existido sem o trabalho original de Gibson – podemos falar de exemplos muito óbvios, como o anime Ghost in the Shell ou o filme de culto The Matrix (aliás, a própria palavra que dá titulo ao filme é um conceito particularmente importante na obra de Gibson), ou livros como Catspaw, de Joan D. Vinge. Gibson (e Scott, no cinema) abriu as portas a um sub-género que se tornaria particularmente rico, afastando-se das sagas espaciais que se tinham tornado na principal imagem de marca da ficção científica, e trazendo a acção de volta para o nosso próprio planeta, em sombrios futuros próximos onde as mais avançadas tecnologias se combinam com as formas mais “alternativas” – degradantes, por vezes – de vida.

Neuromancer tem em Case o seu personagem principal. Case fora em tempos hacker, um ladrão de informações no ciberespaço – cowboy é o termo utilizado -, mas um trabalho que lhe correra mal custara-lhe a sua capacidade para entrar no ciberespaço. Até que um misterioso homem, ajudado por uma assassina, se propõe restituir-lhe os seus sentidos em troca da sua colaboração num sofisticado roubo. Boa parte da narrativa é uma verdadeira trip, quase como se as drogas que as personagens consomem em quantidades generosas também actuassem no leitor; a escrita é boa por ser má, com os muitos erros deliberados a tornarem a narrativa mais próxima e coloquial, e com um vasto recurso a calão (perfeitamente adequado, convém dizer) – recursos que contribuem para a caracterização das personagens (Gibson não foi o primeiro a fazê-lo; Salinger usou inteligentemente a linguagem de modo parecido no brilhante The Catcher in the Rye). A história vai sendo contada a partir de um caos narrativo que só aparentemente é aleatório, as pontas soltas vão-se fechando, e damos por nós completamente imersos na leitura, envolvidos no mistério que ela encerra. O ritmo narrativo é rápido, vertiginoso por vezes, e extraordinariamente eficaz – obriga e estimula o leitor a querer ler mais e mais. Um clássico, sem dúvida.

 

(Nota: A imagem à esquerda é a capa original de Neuromancer. A imagem à direita é a capa da edição brasileira que mencionei neste post, e que considero ser um exemplo de uma boa capa de livro.)

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