Uma comparação muito rápida. Um leitor que vá à Fnac para comprar Dune, de Frank Herbert, pode hoje escolher uma de três opções. A primeira, é comprar a edição de bolso, em formato paperback e em língua inglesa, editada pela Ace e vendida por sete (7) euros. A segunda, é comprar a edição também em língua inglesa, mas em formato hardcover, numa edição da Gollancz integrada na colecção “SF Masterworks”; esta opção tem o preço de 14,5 euros. A terceira opção é comprar a edição em Português, recentemente traduzida e publicada pela Saída de Emergência. Custa 23 euros.
Não sei se a edição portuguesa é paperback ou hardcover – sei que dificilmente será de bolso, já que o mercado português não aceita livros de pequenas dimensões. Acredito que a tradução seja boa, pois confio no trabalho da Saída de Emergência, a única editora em Portugal dedicada a sério à divulgação de fantasia e ficção científica, que já traduziu nomes como Douglas Adams, Richard Morgan ou George Martin – e, agora, Herbert. Mas não consigo compreender o preço, que me parece absolutamente excessivo. Vinte e três euros por um livro? Nestes tempos? Depois admiram-se de haver poucos leitores. Com preços destes, não surpreende.

É perfeitamente verdade que os livros em Portugal são extremamente caros.
Mas a comparação com livros ingleses não é adequada. Os livros editados em inglês dispõem do mercado inglês, norte-americano, australiano, e quiçá até de outros países (Índia, não sei). Um mercado gigantesco. Os livros editados em português dispõem de um mercado reduzidíssimo. Ao que parece, nem sequer podem ser exportados para o Brasil…
Seria mais adequado comparar o preço da edição portuguesa com o preço de uma edição húngara ou checa, por exemplo.
Tem razão, Luís. Mais acrescento: o mercado inglês inclui também… Portugal, e países como o nosso. Uma vez que, tendo eu 23 euros para gastar em livros, prefiro gastá-lo em três paperbacks de língua inglesa a gastá-lo em apenas um livro em língua portuguesa – com a agravante de que, quando vamos para géneros mais alternativos, ainda existe o risco de encontrar traduções que não lembram ao Menino Jesus nas palhinhas deitado. O mais engraçado é que nem preciso de comprá-los na net, mesmo sabendo que por essa via consigo preços muito mais competitivos.
De qualquer maneira, Luís, 23 euros por um livro parece-lhe normal para o nosso país?
Para encontrar más traduções, nem é preciso ir para géneros mais alternativos: é muito difícil encontrar boas traduções, ou até mesmo razoáveis, em qualquer género. O problema – é que nem toda a gente consegue ler na língua original, seja esta a inglesa ou outra; para quem consegue, sai efectivamente muito mais barato (existem clássicos da literatura inglesa ou norte-americana a menos de 3 euros, o mesmo sucedendo com a francesa).
(Sempre me fez confusão o facto de numa mesma editora, para livros com aproximadamente o mesmo nímero de páginas, ser indiferente na definição do preço a existência ou não de trabalho de tradução.)
Não tinha noção de que os preços não reflectem o trabalho de tradução. Curioso, sem dúvida.
E sim, suspeitava de que a má tradução em Portugal era mais vasta do que os géneros que mencionei. Mas foi naqueles que comecei a aperceber-me desse problema. Já li coisas de bradar aos céus. Experimente é a perguntar a alguém de uma dessas editoras como foi possível publicarem um livro naquelas condições. Engasgam-se, balbuciam meia dúzia de palavras sem grande nexo, e esperam que mais ninguém pergunte nada. É divertido.
Aos problemas de tradução acrescem, muitas vezes, os erros ortográficos – um só livro pode concentrar dezenas. Há uns anos, li um (salvo erro, “Um Amante na Palestina”, de Sélim Nassib, editado em Portugal pela Teorema), de que até estava a gostar, que tinha erros ortográficos página sim, página sim.
Esses são tão comuns…
João, assunto muito interessante.
Compro, e comprei mais, livros estrangeiros.
Mesmo com as despesas de envio, ficam-me mais baratos.
Bem sei, é em lingua castelhana, ou inglesa…mas há que fazer um esforço para as dominar.
Todos, mas mesmo muitos, pomos os preços em portugal na ordem! Comprar livros é lá fora. O turismo pode ser cá dentro.
Os operários da tipografia ganham 1350 Euros como ganham os ingleses?
A tinta lá é mais barata?
E os direitos autorais? Ou é o tradutor?
Por favor…
Não sei, mas conheço algumas editoras que, no que à ficção científica e à fantasia, as poucas traduções que fazem são tão más que o leitor mais exigente fica com vontade de fazer uma espera ao tradutor e dar-lhe um par de estalos. Há uns anos uma editora portuguesa, que por acaso até se dedica muito aos manuais escolares, fez uma tradução de um best seller de fantasia juvenil que, enfim, estava tão mau tão mau que conseguia atentar contra o próprio enredo (já que baralhava personagens e esquecia-se do final de alguns capítulos) e contra a gramática portuguesa em simultâneo. Assusta, acredite.
Felizmente, há coisa de dez anos meti na cabeça que iria aprender Inglês sozinho, para ser capaz de ler livros que sabia não terem tradução para português (nem sequer para português brasileiro), ciente que estava de que o Inglês que aprendia na escola jamais me permitiria ser capaz disso (ou de falar, por exemplo). Ainda hoje penso que essa foi das melhores decisões que já tomei na vida.
O Luís Lavoura já coloca o dedo na ferida acima: a economia de escala faz muita diferença. Ainda assim não explica tudo. A Holanda tem 16 milhões de habitantes, pelo que não hão-de ser muitos mais os que lerão em holandês (correctamente seria neerlandês) do que os que o farão em português (de Portugal). Os preços de livros, ainda assim, continuam a ser mais baixos na Holanda do que em Portugal. E note-se que nós poderemos exportar edições portuguesas para Angola, Moçambique ou até (embora com potencial pouco sucesso) para o Brasil sem grandes problemas. Os holandeses fá-lo-ão, no máximo, para a parte flamenga da Bélgica.
Outro aspecto que pode ser comparado é o do mercado de DVD’s e CD’s. Na Holanda compro facilmente a música e os filmes a 10 e 15 euros, respectivamente, em edições boas, com alguns extras, metade das vezes até com legendas portuguesas (od CD’s são obviamente iguais nos dois países). Em Portugal tenho que ir á Fnac, ter a sorte de apanhar um preço verde e usar o cartão de cliente (que não tenho, não me compensa) para poder atingir preços semelhantes em alguns produtos.
Não sei porque razão isto será, até porque na Holanda se oferecem poucos livros (quando isso é feito normalmente opta-se pelas edições de enorme qualidade que são pagas por um grupo de amigos a custos baixos para cada pessoa) em comparação com Portugal. Mesmo que os livros não sejam lidos, eles são oferecidos (e portanto comprados) em Portugal.
Pessoalmente vejo isto como uma espécie de acordo para concertação de preços por parte das editoras, mas talvez seja a minha tendência esquerdizante a falar…
O que me faz confusão é haver apenas edições caras. Às vezes tenho a sensação de que em Portugal os livros são produzidos e comercializados não para serem lidos, mas para servirem de bibelot na estante da sala. O que é capaz de explicar o preço.
O mercado de filmes e discos por acaso também tem alguns problemas do género, sim. Abençoada internet.
A do bibelot…assino por baixo.
A construção dos preços é um mistério insondável em Portugal. E não é só nos livros: pergunte-se ao camponês a quanto (e como e quando) lhe pagam o quilo de maçã da melhor, ou o litro de leite, ou de vinho, ou qualquer outro género, e compare-se com os preços no consumidor mais favoráveis.
No que aos livros respeita, seria interessante perguntar em quanto fica o produto ao editor e quanto ganha a distribuição. E não vale a pena argumentar com quebras porque, ao contrário das maçãs, livros não precisam de frigorífico nem apodrecem e há muito que são possíveis tiragens à medida das encomendas, as quais permitem evitar os custos de armazenamento. Por fim, tentem comprar e-books em Português na Amazon, especialmente obras recentes, Saramago, etc. Ou as compramos em Inglês, ou as compramos em papel. Nada de e-book na nossa língua. Mistério, já que a conversão para formato Kindle é uma brincadeira de crianças.
Desconheço o mercado de e-books – confesso que os livros electrónicos ainda não me convenceram. Mas é, de facto, uma pena se esse mercado não estiver já a ser explorado como provavelmente devia.
Não faço ideia de quanto custas a produção de um livro, ou a sua distribuição. Tal como também não sei qual é o lucro do escritor, apesar de achar que não será muito.
Assino p/ baixo, josé catarino.outro exemplo do que escreve são as casas!
Não surpreende, de todo. Preços de capa praticados pelas editoras portuguesas são absurdos. As edições têm custos de produção deliberadamente caros, que funcionam contra o consumidor.