Portugal ferroviário


eventhorizon,

É em Portugal, país cujo Governo quer construir um TGV (Lisboa, praia de Madrid – lembram-se?), que um comboio Intercidades é incapaz de fazer o percurso entre Lisboa e Faro dentro do horário previsto. Há semanas que o comboio no sentido Sul-Norte não chega a horas à Funcheira, registando sempre atrasos a variar entre os cinco e os vinte e cinco minutos. É também Portugal o país que tem metade – pelo menos – das estações ferroviárias encerradas (mesmo naquelas onde o Intercidades tem paragem, como Alcácer do Sal, Grândola, Funcheira e São Bartolomeu de Messines), obrigando os passageiros que embarquem nessas estações a tirar o bilhete no interior do comboio, com o revisor. Pior: esses passageiros são, para todos os efeitos, passageiros de segunda, pois ao embarcar sem bilhete, estão sujeitos à disponibilidade de lugares do comboio. Ou seja, um lugar livre pode ser ocupado na estação seguinte, e o passageiro que entrou na estação encerrada que viaje de pé, se não encontrar outro lugar. Pior ainda: é também Portugal o evoluído país em cujos comboios se aplica a máxima “criança não paga mas também não anda”. Dito de outra forma: crianças até aos seis anos não necessitam de bilhete, mas também não ocupam lugar; e em dias de comboio esgotado, têm de dar lugar a outros passageiros. Não, não estou a brincar. É neste belo país, de transportes rodoviários modernos, pontuais, com bom serviço e boa cobertura do território nacional, que um iluminado Governo quer gastar milhões num inútil comboio de alta velocidade. Faz todo o sentido: se o serviço tem de ser mau, ao menos que ande depressa.

9 comentários em “Portugal ferroviário”

  1. Fossem só esses os problemas… Não vale a pena perder tempo a contar as histórias dos comboios na Holanda (onde vivo) e na Alemanha (onde trabalho). Basta dizer que um simples atraso de 15 minutos num comboio é razão para forte indignação e que hoje em dia me queixo (e ouço queixas) da forma como a privatização da companhia holandesa de comboios foi feita: que os comboios estão hoje em dia muito mais cheios e em certos trajectos, a certas horas, há pessoas que têm que ficar em pé.

    Os desgraçados dos holandeses provavelmente prefeririam viajar em Portugal, onde tudo é mais civilizado, não é verdade?

    1. Bom, eu já viajei num Intercidades tão cheio que havia pessoas sentadas nas casas-de-banho, única alternativa quando o bar, os corredores e os espaços junto das portas ficaram apinhados. Parecia um daqueles comboios indianos que vemos em fotografias na internet. Só faltava gente pendurada nas janelas e na locomotiva (eu, felizmente, tinha um lugar no bar – aliás, já fiz imensas viagens no bar; só é pena a cerveja ser tão cara).

      O problema por cá é que ninguém reclama de coisa alguma. Sobretudo no Sul do país. A malta do Norte volta e meia ainda corta uma linha, arma um chinfrim, esperneia, etc. Pode servir de pouco, mas ao menos marcam uma posição. No Sul, somos muito diferentes. Encolhemos os ombos e continuamos à sombra do chaparro. Um dia tiram-nos também o chaparro e quero ver como vai ser.

      1. A verdade é que nunca vi grandes chinfrins quando os comboios estão superlotados. As pessoas aguentam estoicamente até à próxima paragem (para que saiam alguns passageiros) ou então sentam-se nas escadas do comboio (se forem de dois andares) ou até nos suportes das portas. Nas casas de banho também já vi gente a sentar-se, mas menos. Já vagões bar não há. Claro que isto sucede muito menos e não há uma verdadeira sensação de sardinha em conserva, mas pode sempre ser complicado.

        Nota importante: nos comboios alemães é possível reservar lugar mediante um pagamento extra (nem toda a gente opta por esta solução). Nos holandeses é que não: é onde as pessoas se sentarem.

        Na verdade, a maior diferença é a oferta. Na Holanda há comboios entre as principais cidades a cada meia hora com os comboios directos e indirectos a alternarem (os comboios indirectos param numa estação por 5 minutos onde do outro lado da plataforma está o comboio que leva os passageiros ao destino).

        1. Claro, mas esperar meia hora por um próximo comboio é razoável, pelo menos para mim. Mas por cá, como o João disse e bem, a situação é diferente – o serviço é menos frequente.

          O que me chocou particularmente na viagem de ontem nem foi o atraso (a que já estou habituado), ou o facto de o comboio estar lotado. Foi a frieza com que o revisor disse a uma senhora “a sua filha [de cinco anos, talvez] não paga bilhete, por isso também não pode ocupar um lugar”. Isto não faz sentido em lugar nenhum.

  2. O atraso dos comboios é crónico e parece não ter remédio à vista.

    Quanto à compra de bilhetes com lugar marcado, já resolvi o problema: compro-o no site da CP. E não me tenho dado mal.

    Ao princípio até faziam 10% de desconto, o que era simpático, mas entretanto acabaram com o bónus.

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