«Esta ideia do António Lobo Antunes já vem de longe, ele fala nela sempre que tem oportunidade, nos encontros com o seu público.
Levo a questão ainda mais além: há que primeiro incentivar o gosto (perdido) pela leitura e só então, depois deste estar presente, ensinar a ler.
Os programas escolares da disciplina de língua portuguesa são pouco apelativos, os textos são analisados pela rama, não se vê um esforço para puxar pelo aluno em relação à interpretação de um texto ou escrever sobre ele.
Os miúdos lêem pouco, basicamente só aquilo que o programa obriga e mesmo assim sabe Deus, e escrevem ainda menos.
É um problema que começa logo na primária e antes disso em casa, com os pais. Um esforço que devia começar em casa e terminar na escola.»
Da nossa leitora Patti. A propósito deste texto do Sérgio de Almeida Correia.


Comentário oportuníssimo, este da Patti. É certo que não é muitas vezes fácil começar em casa, mas isso já resulta de estarmos na segunda (a caminho da terceira) geração desinteressada pela leitura. O que faz do caso um drama a requerer rápida intervenção para que este triste realidade se inverta.
É um belo comentário esse, mas utópico. Só ensinar a ler depois de estar presente o gosto pela leitura? Então e nos casos em que pura e simplesmente a pessoa não gosta de ler?
É uma ideia muito “eduqueira” a de que a leitura é uma realidade tão universal que o seu gosto pode brotar em qualquer espírito, desde que devidamente cultivado. Está ao mesmo nível da ideia segundo a qual se pode incutir em todos o gosto por ópera ou pelo cinema português, desde que se siga um “bom método”, seja lá isso o que for.
Na verdade, a Humanidade caracteriza-se, entre outras coisas, pela diversidade dos seus gostos. E, do mesmo modo, em que o chocolate pode ser algo adorado por uns e abominado por outros, e de que Saramago ou Lobo Antunes têm cada um o seu séquito de admiradores e o seu bando de detractores, não será possível incutir em todos um “gosto” verdadeiramente sentido pela leitura.
Portanto, requerer o “gosto” como pressuposto do ensino, seria uma inovação com resultados muito desanimadores, quando se visse que por muito que se esforcem os professores, sempre haverá miúdos para quem a leitura é uma “seca” e a aula um tempo que ocupam contando os minutos que faltam para o intervalo.