As leituras surpreendentes e o meu Rendezvous With Rama


eventhorizon,

Há poucas coisas tão boas como sermos surpreendidos – no bom sentido – por um livro. Não sei como é que as outras pessoas compram os seus livros, quais são os critérios que utilizam, ou como chegam a um livro em particular. Comigo, isso normalmente acontece por influência. Por exemplo, o gosto pela literatura de ficção científica devo-o a um antigo (e extraordinário) professor de Filosofia, que sabendo do meu gosto pelo género no cinema e das minhas incursões pela escrita de ficção, me emprestou aquele que é um dos livros da minha vida: The Snow Queen, de Joan D. Vinge. Já o gosto pela “literatura de fantasia” surgiu do meu interesse antigo pelas mitologias, por alguns jogos mais ou menos geek que jogava durante a adolescência, e pelo impacto visual da adaptação de The Lord of the Rings, de Tolkien, realizada com mestria por Peter Jackson. E outros escritores surgiram mais ou menos por acaso. Vergílio Ferreira apareceu – em ambos os sentidos – no meu décimo-segundo ano (como podem ver, ter professores realmente bons pode fazer uma grande diferença). Salinger, com The Catcher in the Rye, surgiu após ver uma (excelente) série de animação japonesa que usava a obra como inspiração de um enigmático personagem (a saber: Ghost in the Shell – Stand Alone Complex). O interesse por Ayn Rand veio após anos a ler as constantes referências a ela feitas pela malta d’O Insurgente ao longo dos anos, e a leitura do Fountainhead não desiludiu (nem a de Atlas Shrugged, já agora – são dois livros extraordinários). E, enfim, Eça é Eça. Mas disperso-me: voltando ao tema das surpresas, a verdade é que a partir do momento em que a ideia de ler um autor surge por influência positiva, e planeamos a leitura, esperamos que o livro seja bom. E ainda que o livro supere largamente as nossas expectativas, uma boa parte do factor surpresa acaba por se perder. Afinal, estávamos à espera que fosse bom. As nossas fontes, por assim dizer, não podiam estar erradas.

 

Tive recentemente uma óptima surpresa com Nightfall, de Asimov e Silverberg. Mas Nightfall estava no meu “plano de leitura” (em resumo, fiz uma lista mais ou menos longa de obras de ficção científica que tenciono adquirir e ler durante os próximos tempos), pelo que, inevitavelmente, iria lê-lo e deliciar-me. Mas como o li com uma rapidez que até a mim me surpreendeu, e me atrasei um pouco com a minha próxima encomenda, dei por mim sem nada novo para ler, a duas semanas de receber mais dois livros da minha lista. Sem vontade para releituras, fui à loja mais próxima ver se encontrava alguma coisa para me entreter até ao início de Setembro. Por momentos, pensei comprar um de Salinger, que as novas edições da Penguin estão aparentemente muito boas, mas o meu apetite de leitura anda um bocadinho mais “futurista”, passe a expressão; ainda olhei para a secção de fantasia, mas não vi nada que me interessasse; e a primeira ideia que me veio à cabeça foi adquirir o 2001: A Space Odyssey, de Arthur C. Clarke, que tinha visto à venda semanas antes e que me interessava por vários motivos – por Clarke ser um dos mestres do género, e por o filme de Kubrick ser o meu filme preferido. Esgotado, obviamente (as leis de Murphy costumam aplicar-se bastante a mim). Após longos minutos a olhar para a prateleira de sci-fi (a oferta ainda não é perfeita por cá, mas tem melhorado), optei por Clarke, mas por um livro do qual só conhecia o título, graças às longas pesquisas na Internet: Rendezvous With Rama. Foi uma opção às cegas – nunca tinha lido nada de Clarke, e a edição que comprei não tem uma sinopse muito elaborada na contracapa, pelo que do enredo, sabia praticamente nada. Como disse no início deste texto, há poucas coisas tão boas como sermos surpreendidos por um bom livro; e Rendezvous With Rama foi uma dessas boas surpresas, com a sua fascinante história de exploração de um objecto estranho à deriva no Sistema Solar (Clarke gosta de objectos estranhos e “escuros” – recordemos o monólito de 2001), com as suas personagens, os exploradores do futuro a lembrar os descobridores de tempos passados, com as constantes “espreitadelas” à sociedade futurista daquelas personagens, com a sua precisão científica, e com a sua escrita pausada, ritmada, muito bem arrumada em capítulos curtos que, por vezes, são quase uma história em si. Que todas as leituras fossem assim: agradáveis e surpreendentes.

13 comentários em “As leituras surpreendentes e o meu Rendezvous With Rama”

  1. Olá João!

    É bom ver que continua muito interessado em sci-fi ehehe

    Realmente, esse livro é muito bom! Tem, salvo erro, duas “sequelas”, que nunca cheguei a ler… Clarke é fantástico! 🙂

    Já que estamos numa de recomendações, e continuando em Clarke, aconselho um livro chamado “Songs of the Distant Earth”. Não é muito grande, mas é muito bom! Já o li há uns anos atrás, e acho que daria inclusivamente um óptimo filme. Ah, e como “complemento”, há um album de Mike Oldfield, com o mesmo título, que segundo o próprio, foi inspirado pelo livro 🙂 E efectivamente nota-se 🙂

    Se der uma olhadela num ou noutro, depois diga o que achou 😉

    Abraço!

    1. O gosto pela ficção científica não desaparece… passei foi muito tempo sem me dedicar realmente à leitura (do género). Agora decidi pegar-lhe a sério – e tem sido um excelente investimento.

      Vou anotar as sugestões, tal como anotei as sugestões de filmes. Aliás, entretanto já vi um ou dois que me fariam repensar aquela lista…

      Gosto em tê-lo por cá, uma vez mais (e pode usar a segunda pessoa, que eu não me importo nada – bem pelo contrário).

  2. Gosto muito desse livro. Apareceu depois uma continuação mas que não tem o mesmo brilho.
    Acho nele muitas semelhanças com um clássico da matéria: Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne.
    Boa leitura.

    1. Há muitos anos que não leio Verne, mas quero ver se lhe pego um dia destes.

      Quanto a Clarke, as descrições do interior de Rama são notáveis. Confesso que tive de gastar algum tempo a reler e a pensar bem como é que a geografia daquele mundo funcionava.

  3. Eu adorava conseguir ter esse gosto pela ficção científica que tu tens.
    Leio os teus textos com agrado e pode ser que um destes dias pegue mesmo num desses autores semiesotéricos ” (para mim é claro) de que falas.
    Mas o que quero aqui partilhar contigo é da satisfação em te saber ex-aluno de Vergílio Ferreira. Também eu fui, e embora as aulas dele tivessem muito pouco de ficção, estou de acordo contigo quanto à lição desse mestre.
    Por detrás daquela sisudez estava um professor notável.
    No meu 5º ano, houve uma complicação qualquer com a distribuição das turmas no Camões e ele, ao contrário do habitual, que normalmente só dava aulas ao 6º e ao 7º anos, acabou na minha turma. Para seu grande desgosto. No fim, creio que ele acabou por gostar da experiência. Eu também. Até hoje.

    1. Temos aqui uma pequena confusão: não fui aluno de Vergílio Ferreira; sou é do tempo em que no décimo-segundo ano se estudava a Aparição, e não o Memorial do Convento. O “ambos os sentidos” era um trocadilho que, para variar, não me saiu muito bem 🙂

      Acredito que ele tenha sido um professor fascinante. Felizmente, do meu secundário não me posso queixar: do Português ao Inglês, da Filosofia à Psicologia, da História à Geografia, tive professores notáveis. Daqueles que ficam para sempre.

  4. Decididamente tenho que ler Vergílio Ferreira, João. Quanto ao teu gosto por fantasia, nem sei que te diga, porque sou muito ligada à realidade e os mundos fantásticos, sci-fi incluídos, aborrecem-me. Li O Senhor dos Anéis, o Hobbit e o Silmarillion para um seminário do Mestrado, mas chegou-me.
    O meu critério de escolha dos livros é como o dos destinos de viagem: há pessoas, amigos e conhecidos, em quem confio e me influenciam mas há autores que compro sempre como Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Mário de Carvalho e mais recentemente valter hugo mãe.

    1. Quanto aos gostos, não há muito para dizer, Leonor. Felizmente, temos muita variedade, e podemos ter gostos diferentes. O que é óptimo, nem que seja para haver tema de conversa… e de bloga.

      (que seminário foi esse, se posso perguntar?)

      Vergílio Ferreira merece ser lido. Mário de Carvalho também, mas quanto a ele sou parcial: foi meu professor, digamos assim, em algumas cadeiras extracurriculares no meu último ano de universidade – e ainda hoje penso que aquelas aulas, ao final da tarde, foram as de que mais gostei em quatro anos de curso. Foi ele quem me pôs a ver Kubrick, por exemplo (entre muitos outros filmes que hoje são dos meus preferidos).

      1. Mário de Carvalho foi teu professor? Adoro a escrita dele e acho que é substimado, tem uma riqueza de vocabulário e um humor muito próprios, ‘compro-o’ sempre independentemente da crítica.

        O seminário era Literatura Fantástica. Foi na FCSH e era opção do Mestrado em Estudos Alemães. Sabe-se lá porquê escolhi aquele e não me arrependo. Ainda há pouco tempo deitei para a reciclagem as fotocópias d’ O Senhor dos Anéis em Inglês e Português. Acalmai-vos, livreiros e editores que tenho os origiunais em ambas as línguas actulamente :))))

        1. Graças a Bolonha, o quarto ano do meu curso (Jornalismo) foi reduzido para… um semestre. Enfim, maluqueiras de Bolonha, toda a história desse processo roça o surreal, mas disso falarei noutro dia. De qualquer maneira, para compensar os alunos do quarto ano pelo semestre a menos, a minha escola não decidiu… devolver metade do dinheiro das propinas (haha), mas criou alguns “cursos” extracurriculares, que externos poderiam fazer a pagar, mas que alunos matriculados no quarto ano poderiam fazer de graça. Como não havia nada muito específico para mim, fiz o que me interessava em termos pessoais: Guionismo, Ficção e Escrita Criativa (este último não completei porque comecei a trabalhar entretanto). Todos estes “cursos” eram leccionados pelo Mário de Carvalho, que já era professor na escola. Eram aulas extraordinárias. Aprendi imenso – e se dá gosto lê-lo, acredite, ouvi-lo a contar histórias é de outro mundo.

          É curioso que já ponderei prosseguir estudos em alguma área da Literatura, e tentar trabalhar algum tema relacionado com os géneros de que mais gosto (há uma professora na Nova que tem uma tese de mestrado sobre Tolkien muito interessante). É que considero ser algo inútil continuá-los na minha área, até porque mais dia menos dia vou ter de sair dela. E é verdade que ainda tenho muitos contos na gaveta (ou melhor, no disco rígido).

          1. Devemos estar a falar da mesma professora, Maria do Rosário Monteiro. Defendeu essa mesms tese no ano em que foi minha professora no Mestrado.
            Essas histórias de Bolonha são verdadeiramente fantásticas, mas a Escrita Criativa não me convence, parece-me assim uma espécie de banha da cobra new age. Agora é que me vão matar :)))))

          2. Matar? Nada disso. Concordo em absoluto. Só que na altura (pensava eu) não tinha mais nada para fazer, e valia a pena ir às aulas pelo professor.

            Creio ser essa a professora, sim. Tinha a tese no disco rígido do meu antigo computador… antes de o disco ter ardido, claro.

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