Cabeçada no poste


eventhorizon,

Há na blogosfera algumas pessoas, porventura mais adeptas do “aportuguesamento” de tudo o que é expressão estrangeira, que não escrevem posts, mas sim postes. Já tinha reparado nisto há algum tempo, mas nunca tinha falado sobre o tema. Falo agora: ó meus amigos, um poste é isto:

Aquilo que escrevem não é um poste (que diabo, um poste não se escreve!), mas sim um post (em inglês), ou, se quiserem uma tradução gratuita, um artigo. Podem chamar-lhe crónica, também – dá à coisa um ar mais importante. Eu sei que estas coisas são tramadas, que as terminologias vêm todas em inglês, que raramente há traduções directas. Mas se blog passou a blogue de forma mais ou menos pacífica, não será por isso que post passará a poste. Em caso de dúvida, há sempre o itálico.

Afinal tenho uma boa razão para dizer que vivo “no fim do mundo”


eventhorizon,

No último dia de Maio expirou o meu bilhete de identidade, e tive por isso de fazer o cartão do cidadão (esperei até ao último dia). Quando estava a dar os meus dados ao funcionário da repartição, ele disse-me que a morada que lhe tinha fornecido – do Alentejo, que é a que dou sempre para efeitos de documentação – não existia na base de dados utilizada, que, acrescentou, é a dos CTT. No entanto, o código postal coincidia com uma morada provável, pelo que, na falta de alternativas, ficou essa.

 

Previsivelmente, a carta que me permitia ir à repartição buscar o meu cartão do cidadão (maldita rima) foi parar à morada errada – mais precisamente, foi entregue a um vizinho cuja casa tem o mesmo número que a minha, mas que fica… no quarteirão ao lado (na prática, são dois bairros – maravilhas das “urbanizações” portuguesas). A vantagem das aldeias é que toda a gente se conhece; e, pelo menos na minha, não há grandes inimizades entre vizinhos – que eu saiba, claro. Por isso, a carta acabou por chegar a mim, intacta. Voltei hoje à repartição para ir buscar o meu cartão e alterar a morada. Mas, uma vez mais, foi-me dito: esta morada não existe.

 

O que não deixa de ser curioso: a casa está naquele sítio há largos anos, os meus pais vivem lá; o meu banco envia extractos regulares para aquela morada; a biblioteca municipal envia-me, todos os anos, um postal pelo meu aniversário (são simpáticos); a minha antiga universidade sempre enviou para lá correspondência; e, mais curioso, as Finanças enviam para lá toda a minha correspondência (o Fisco funciona sempre, afinal). Ora nunca uma carta foi parar a casa de um vizinho ou foi de alguma forma transviada. Logo, a morada existe, apesar de a base de dados dos CTT insistir que não. Digo à funcionária que isso é impossível, pelos motivos acima citados, e por um motivo bem mais simples: os meus pais têm o cartão do cidadão com a morada correcta. A partir do nome da minha mãe, a funcionária verificou que, na identificação dela, aparece a morada correcta. No entanto, essa morada continua a não existir; e se a morada não existe, explicou a funcionária, o cartão não pode ser emitido. Enfim, lá foi encontrada uma forma de contornar o sistema informático; mas meia hora mais tarde, estava eu a almoçar (muito para lá da hora), telefonam-me da repartição a dizer… que a morada que eu tinha dado não existia.

 

“Existe, sim, ou eu sofro de alucinações há quase uma década”, respondo-lhe, acrescentando: “é a base de dados dos CTT que está errada.” “Não pode ser.” “Não só pode como está. Resolvam como quiserem.” “Certo. Irá provavelmente demorar mais algum tempo do que o previsto.” “Está bem. Eu aviso o meu vizinho.”

 

E é isto o choque tecnológico. O cartão do cidadão não serve para eu votar à distância, a partir de Lisboa; não serve para eu ter uma consulta médica em Lisboa (já me foi recusado atendimento médico várias vezes); e a base de dados utilizada não reconhece um lugar onde vivem algumas dezenas de pessoas. Doze euros para isto. Porreiro, pá.

Uma democrática cabazada


eventhorizon,

O país parou pela segunda vez em oito dias, isto partindo do princípio de que Portugal alguma vez se mexe para algum lugar, ou com algum propósito. Mas para não estragar o texto logo na primeira frase, vou manter: o país parou hoje, e desta vez houve sete boas razões para parar. Sete zero aos norte-coreanos, que queriam vingar a afronta de 1966 e acabaram por levar uma muito democrática cabazada, pois deu para todos provarem a sopa, desde a estrela Cristiano Ronaldo ao cepo Hugo Almeida. Só lamento desta vez não ter feito qualquer aposta. Passo a explicar: há uns anos, Portugal empatou a dois golos com o Liechtenstein, país que nem os próprios liechtensteinenses (?) devem saber bem onde fica, e cuja existência tem como único propósito ser a rasteira da pergunta do Quem Quer Ser Milionário? (ou do Trivial Pursuit, depende de termos ou não o Jorge Gabriel) “com quantos países faz fronteira a Suíça?” Enfim, empate a dois, um resultado vergonhoso que os irredutíveis do mister Scolari não gostam de ver lembrado, pois é sabido que menos de cinco a zero ao Liechtenstein é derrota. Pouco tempo depois, a selecção foi jogar com a Rússia, e nessa noite estava eu a jantar com os colegas da associação de estudantes da universidade ali para os lados da Expo, com o jogo a passar num bom écrã gigante e a sangria a chegar à mesa em quantidade assinalável. Com as expectativas muito baixas – vínhamos de um empate com o Liechtenstein, mais uma vez, desculpem continuar a pisar -, o dono do restaurante decidiu oferecer-nos um jarro de sangria extra por cada golo que os portugueses marcassem. O resultado final foi um sete a um para os portugueses, com um prejuízo de oitenta e quatro euros para o restaurante – a aposta foi paga golo a golo – e com uma clara redução da nossa capacidade de nos mantermos sóbrios. Se eu soubesse, tinha hoje proposto um negócio do género no restaurante onde vi o jogo enquanto almoçava, algo do género: uma imperial por cada golo. Ficava melhor uma mini, bem sei, mas – desculpem qualquer coisinha – a mini não é instituição lisboeta. Não sei é se vale a pena arriscar algo do género para o jogo com o Brasil, já que toda a gente nos dá como derrotados antes mesmo de o jogo começar; mas se o jogo for futebol, e não andebol, e se o Queiroz não inventar muito (como hoje não inventou), talvez a coisa nem corra assim tão mal.

25 de Abril sempre… ou quase


eventhorizon,

Se celebramos um feriado para comemorar um acontecimento histórico ou religioso, que sentido faz mudar esse dia para outro? Para mim, não faz qualquer sentido. Para a Fernanda Câncio, parece que até faz (não resisti a pegar no tema, Sérgio). Muito bem. Sugiro que se vá um pouco mais longe – que sejam extintos todos os feriados religiosos, sem excepção, e que juntamente com eles desapareçam também as “férias do Natal” e as “férias da Páscoa” nas escolas, e o mui amado subsídio de Natal, que se acabarmos com o Natal acabamos com a troca de prendas, e assim já não é preciso subsídio.

 

De resto, é estúpido (para dizer o mínimo) celebrar o dia do trabalhador noutro dia que não o 1 de Maio, ou o 25 de Abril noutro dia que não… o 25 de Abril. Acho disparatado fazer guerra aos feriados religiosos, mas nem me oponho à sua eliminação desde que ela seja feita de forma coerente (até às últimas consequências, portanto). Meias doses é que não, pois nem fartam nem matam a fome.

 

(E sobre o mesmo assunto, recomendo a leitura deste texto do Daniel Oliveira. Grande ideia, a do Dia do Feriado Nacional)

Os exames nacionais


eventhorizon,

Creio que a silly season começa oficialmente com a primeira reportagem num noticiário das oito da noite sobre a “pressão” dos exames nacionais. É já um clássico da estação: reportagens nas escolas, perguntas feitas aos alunos “em pânico”, talvez a um ou dois professores. Como se os exames nacionais fossem um ovni. No meu tempo, não havia exames nacionais no nono ano. Havia “provas globais”. Aliás, havia uma prova global no oitavo ano (Ciências da Natureza), e no nono ano havia as restantes (Português, Inglês, Francês, Matemática, Fisico-Química, História, Geografia, e até Educação Visual). No secundário, havia provas globais a todas as disciplinas no décimo ano (no meu caso, Português A, História, Geografia, Métodos Quantitativos, Inglês 4, Francês 6, Filosofia – sim, sete provas). Idem no décimo-primeiro ano. No décimo-segundo, havia exames nacionais a todas as disciplinas, e não apenas às específicas – o que, no meu caso, resultou em cinco exames nacionais em duas semanas: Português A, História, Inglês 6, Psicologia, IDES. Se havia stress antes das provas globais? Claro que havia. Como há antes de qualquer teste. Se me preocupei com os exames nacionais? Claro que sim – passei uma semana a estudar, como nunca estudei, para o exame de Português (o primeiro), até dar em doido na véspera do exame. Estava nervosíssimo. Tinha duas horas para fazer esse exame, de Português. Duas horas (mais meia hora de compensação) para analisar em forma de comentário um poema de Eugénio de Andrade, para escrever uma dissertação sobre João da Ega, personagem de Os Maias, e para fazer um resumo de texto. Isto tudo fiz eu em cinquenta minutos; e dada a impossibilidade de sair da sala, acabei por re-escrever a dissertação sobre o Ega. Saí do exame a rir-me – afinal era aquilo um exame nacional? Os quatro que se seguiram foram feitos com muito mais descontracção. E a média foi óptima. De resto, nunca nenhum colega de turma chumbou (no meu tempo chumbava-se; estou mesmo a ficar velho) por causa de um exame nacional ou de uma prova global; pelo contrário, vi muitos colegas salvarem um ano menos bom graças àquelas provas. Hoje em dia trata-se o tema como se os exames nacionais fossem um monstro, como se naquelas duas horas (ainda são duas horas?) os alunos fossem obrigados a caminhar descalços por cima de brasas, a domar um leão com uma cadeira, ou qualquer outra coisa do género. Que os alunos do secundário, a cada manifestação que fazem, gritem pelo fim dos exames, eu até percebo – naquelas idades prestamo-nos a tudo, até às ideias mais alarves. Que os adultos tratem os exames nacionais como um bicho de sete cabeças, e não como aquilo que eles são – uma componente fundamental de uma avaliação tão justa quanto possível – é que já me faz muita confusão.

Valem-me as minis


eventhorizon,

Fim-de-semana (não ponte) na aldeia. Como de costume, sem acesso à internet ou a televisão por cabo, e com uma rede de telemóveis muito fraquinha. No sábado, à hora do jantar, a televisão está ligada na emissora pública, que dedica o noticiário inteiro a um único tema. É a selecção de futebol a deixar o centro de estágios em Oeiras. É a selecção de futebol no autocarro. É a selecção de futebol a chegar, ainda no autocarro, ao Parque Eduardo VII. É a selecção de futebol a sair do autocarro, com os jornalistas a perguntarem ao Eduardo (guarda-redes) como estão as mãos. É a selecção de futebol a subir ao palco onde, momentos antes, actuara Tony Carreira para uma multidão de, dizem, oitenta mil pessoas. Tenho vontade de dar um murro na mesa. O meu pai pergunta-me: será que nos outros países é a mesma palhaçada, com directos e tudo?

 

Fica a pergunta. Também estou muito curioso.

 

Na falta de tecnologia na aldeia, já agora, salvam-se as minis a cinquenta cêntimos, indispensáveis para aguentar o calor alentejano e a silly season nacional, que – será impressão minha? – a cada ano parece começar mais cedo.

Recordar os Magazine


eventhorizon,

Se houve uma banda que tive pena de não ver ao vivo, foi esta: Magazine. Terminaram o seu percurso em 1982, com quatro álbuns editados, mas Howard Devoto reuniu a banda no ano passado para alguns concertos no Reino Unido. Leio hoje este artigo do Telegraph, de Fevereiro de 2009. Volto a ter pena de não os ter podido ver. Das grandes bandas dos finais da década de 70, os Magazine serão porventura uma das melhores, e também das mais esquecidas, mesmo com a mais ou menos recente “moda” de ir buscar a música daquela época. Para além de todos os outros motivos, que são vários, poderia dizer que o meu primeiro estágio valeu a pena por ter descoberto esta banda.

 

Vídeo: Magazine, A Song From Under the Floorboards, do álbum “The Correct Use of Soap” (1980)

José Mourinho


eventhorizon,

 

Nunca percebi a aversão nacional a José Mourinho. Ou melhor, perceber até a percebo, e por isso mesmo a acho triste. Mourinho recusa assumir um dos piores e de longe o mais irritante traço de carácter nacional: a falsa modéstia. Mourinho não precisa de que alguém lhe diga “és muito bom treinador”; ele sabe que é muito bom, sabe que é um dos melhores. Sabe o que trabalhou (e trabalha) para isso. E assume-o. Cá no burgo, dizemos que ele é arrogante, como dizemos que é arrogante qualquer pessoa que deixe de lado a miserável falsa modéstia nacional e assuma o valor que tem. A verdade é que todos lhe reconhecem o valor. Todos admitem que ele é um dos melhores treinadores do mundo, se não mesmo o melhor. Como ele sabe. Mas é pecado ele reconhecê-lo; devia ser menos arrogante, dizemos. Devia ser mais humilde, dizemos. Espalhamos fel em blogues, em caixas de comentários de notícias de jornal, em conversas de café. Pobres de nós, que perante um dos nossos melhores apenas nos ocorre dizer que é arrogante e pouco humilde. Tornámo-nos tão pequeninos.

 

Hoje, Mourinho estará na final da Champions. Mais do que ver o jogo, quero vê-lo ganhar e festejar o título se vencer. Porque o merece. Porque faz sempre, sempre por vencer e por ser o melhor.

Convite


eventhorizon,

 

Porque o desporto em Portugal não tem de se resumir ao futebol (soccer), convido-vos a assistirem amanhã, por volta das 16 horas, no Campo CR Técnico (Olaias), à “Superbowl Portuguesa”. Sim, futebol americano, e do bom – os Lisboa Navigators contra os Lumberjacks.

 

(clicar na imagem para aumentar)

A instituição do “feriado móvel”


eventhorizon,

Esta proposta das deputadas do PS Teresa Venda e Maria do Rosário Carneiro sobre os feriados é, no mínimo, estranha. A eliminação de dois feriados civis e de dois religiosos parece ser feita de molde a não ferir susceptibilidades, não obedecendo a uma lógica concreta que eu consiga compreender (porquê aqueles, e não outros quaisquer?).

 

Mas a proposta fica ainda mais estranha com a ideia de os feriados passarem para uma Segunda ou Sexta-feira. Não faz qualquer sentido – se a ideia de um feriado é celebrar uma data histórica (ou um acontecimento religioso) relevante, então que se celebre no dia próprio. Até porque todos os feriados acabam por calhar a um fim-de-semana (excepto a Sexta-feira Santa, por motivos, enfim, óbvios). E que fazer à Páscoa? Dá-se a Segunda? Esquisito – parece a lógica de se fazer a festa de aniversário à Sexta, porque o dia do aniversário calhou à Terça…

 

De qualquer maneira, registe-se a ironia de eliminar o feriado de 5 de Outubro no exacto ano em que se comemora o centenário da República. Parafraseando o (saudoso) Diácono Remédios, não havia necessidade: o 5 de Outubro devia, na minha opinião, ser sempre um feriado. Não pela implementação da República, mas pela assinatura do Tratado de Zamora, naquele dia do ano de 1143, que assinalou a independência de Portugal face a Castela.

E para desanuviar, os festivais de música


eventhorizon,

Apesar de ser um apaixonado pela música pop, genericamente não gosto de festivais de rock, eventos industriais para a catarse da rebeldia juvenil, concentrações toleradas de álcool, alucinógenos e outras substâncias, excessos que o jovem burguês toma hoje como inalienáveis direitos. Debaixo de condições sonoras deploráveis, estes “concertos” decorrem no meio duma imundice total, de poeira e detritos orgânicos, onde quase sempre os artistas actuam pateticamente, qual pianista de saloon a martelar as teclas enquanto a malta se engrossa, joga póquer e se esmurra mutuamente, indiferente ao que se passa no palco. Por João Távora, no Corta Fitas.

Não sei que “festivais de rock” o João Távora conhece, mas suponho – e não estou a ser irónico – que fala com conhecimento de causa. Daí a minha curiosidade. Enfim, adiante. Resumir um festival de música ao género rock parece-me francamente redutor – basta ver o cartaz de qualquer um dos festivais programados para o Verão que se aproxima para se perceber que há música para todos os gostos. Rock, sim, mas também pop, grunge, metal, indie, punk, electrónica, e, com jeitinho, ainda se descobrem por lá mais géneros e sub-géneros, mas confesso que nunca tive muito jeito para catalogar música.
Da mesma forma, também me parece muito redutor definir os “festivais de música” como “eventos industriais para a catarse da rebeldia juvenil”. Na verdade, e ainda que a “malta jovem” (no sentido etário, entre os vinte e os trinta, e não no sentido político, onde, como se sabe, a juventude vai até aos cinquenta) prevaleça nos festivais, encontra-se por lá gente de todas as idades. Lembro-me, por exemplo, de um concerto de Slayer (metal) a que assisti há uns anos num festival aqui em Lisboa; nesse concerto, na zona do mosh (onde toda a gente dá e leva porrada ao ritmo da música – e onde, ao contrário do que o João Távora pensa, presta muita atenção ao que se passa no palco e, sobretudo, ao que sai do palco – a música), eu, com os meus vinte e um anos, era de longe o mais novo numa multidão de gente com idades mais próximas dos meus pais do que de mim.
Sobre o álcool e drogas: sim, consomem-se por lá. Nunca apanhei uma bebedeira num festival porque simplesmente não tenho dinheiro para isso, quando a cerveja custa pelo menos dois euros o copo (pequeno); e suspeito que o mesmo se passe com muita gente. Costumo ver muita gente em “mau estado”, sim, mas mais do cansaço e das mazelas provocadas por um concerto mais “intenso” do que do álcool. Quanto a drogas, bom, não é exactamente necessário ir a um festival para usufruir desse “inalienável direito” do “jovem burguês” de que o João Távora fala. Diz que nas universidades é até mais fácil.
Das condições sonoras pouco sei – tanto do aspecto técnico da coisa, como do que o João Távora fala ao certo. Se o som está muito alto e chateia a vizinhança? Pois sim, é chato, mas acontece até num arraial pupular ou num comício partidário a céu aberto. Quanto às condições sonoras, é verdade que não serão as mesmas de uma boa sala de espectáculos (o que exclui naturalmente o Pavilhão Atlântico), mas o ambiente em si é diferente. Já a poeira é uma maçada, sim, e é o motivo principal que me faz fugir do meu vizinho Festival Sudoeste como o diabo da cruz (isso e os péssimos cartazes da última década). Mas os festivais hoje em dia já costumam dar muito uso ao chão sintético, à areia (não gosto, mas prefiro-a à poeira) e a outros materiais mais práticos. Quanto aos detritos, o maior problema é mesmo a zona dos sanitários, que a partir das nove da noite cheira pessimamente – a única excepção que conheço é mesmo o Rock in Rio, onde o asseio das casas-de-banho é mais cuidado do que nos sanitários da Rodoviária de Odemira (também não é preciso muito, diga-se de passagem).
Quanto aos artistas “actuarem pateticamente”, bom, parece-me mais ser uma questão de gosto (do João Távora) do que de patetice (dos músicos). Alguns dos melhores concertos que já vi – Slayer, Muse, Tool, Rage Against the Machine, Soulfly, The White Stripes, Audioslave, System of a Down, entre outros – decorreram precisamente em festivais. E que concertos. E que público (o público também faz um concerto, já agora)! A repetir este ano, que a época dos festivais está a chegar, e para já, promete. Mesmo sem póquer (Póquer? Num festival? Já vi por lá coisas esquisitas, mas póquer nunca vi. Mas era bom: podia ser que ganhasse dinheiro suficiente para ir a vários festivais, que os tempos estão difíceis).

Um último reparo, sobre a mão-de-obra do Rock in Rio: são voluntários, como o próprio João Távora refere no seu post. Voluntários. Dito de outra forma: estão lá porque querem – seja pela t-shirt ou pela oportunidade de verem um bocadinho dos concertos -, e não estão a ser enganados.

Quem atira a primeira pedra?


eventhorizon,

A resposta é muito simples: os selvagens que ontem apedrejaram os autocarros do Futebol Clube do Porto e do Desportivo de Chaves à passagem por Lisboa são apenas e só isso. Selvagens. Criminosos. Se são adeptos do meu clube, o Benfica (não sei se são), então tenho vergonha de o meu clube ter adeptos destes. Como tenho vergonha de o clube ter – apoiar? – duas “claques” que são pequenas organizações de criminosos e de vândalos. São exactamente estas coisas que afastam muita gente do futebol, e que tornam este desporto num triste espectáculo.

 

Lamento também não conhecer um – um – adepto do Futebol Clube do Porto que seja capaz de dizer o mesmo de algumas figuras que apoiam o clube da Invicta.

 

E uma pequena história (verídica): há alguns anos, quando ainda era estudante, costumava ocupar os meus Verões a trabalhar num restaurante na costa alentejana. Numa ocasião, estiveram no restaurante três rapazes, obviamente mais velhos do que eu, que a dada altura e por qualquer motivo (acho que estava a dar um jogo na televisão), enquanto lhes servia os bitoques, me disseram pertencer aos Super Dragões. Um deles pergunta-me “sabes qual é a minha especialidade nos Super Dragões?”. Disse-lhe que não, e perguntei qual era. “Prateleiras de áreas de serviço”, respondeu-me ele. O que é triste é que até é uma especialidade com futuro neste país.

Eles são todos iguais


eventhorizon,

Desde o acordo entre José Sócrates e Pedro Passos Coelho que Manuela Ferreira Leite foi ressuscitada – em sentido figurado, entenda-se, que tanto quanto sei a senhora encontra-se bem de saúde, como espero que continue. Mas desde o pedido de desculpas (ridículo, de resto) de PPC que muito boa gente começou a dizer “eu avisei” e “ela é que era má, não era?”. Vamos lá ver: a discussão é irrelevante a esta altura. MFL já não é líder do PSD. Ficou para trás nas últimas eleições do partido. Estar a comparar uma atitude concreta – a de PPC – com uma hipotética – a de MFL (eu não sei se ela teria feito o mesmo ou não, e não tenho forma de saber) é pura perda de tempo. O que importa é o presente, é o que temos – e o que temos foi um enorme passo atrás de Passos Coelho. Não concordo com esta (interessante) análise do Filipe Nunes Vicente: se em teoria faz sentido, na prática – que, de resto, é o que interessa – creio que, para a maior parte das pessoas, PPC ajudou apenas a reforçar a ideia de que “eles são todos iguais”. E isso não só não lhe irá trazer votos, como ainda pode ser munição nas mãos dos adversários (de todos eles).