Apesar de ser um apaixonado pela música pop, genericamente não gosto de festivais de rock, eventos industriais para a catarse da rebeldia juvenil, concentrações toleradas de álcool, alucinógenos e outras substâncias, excessos que o jovem burguês toma hoje como inalienáveis direitos. Debaixo de condições sonoras deploráveis, estes “concertos” decorrem no meio duma imundice total, de poeira e detritos orgânicos, onde quase sempre os artistas actuam pateticamente, qual pianista de saloon a martelar as teclas enquanto a malta se engrossa, joga póquer e se esmurra mutuamente, indiferente ao que se passa no palco. Por João Távora, no Corta Fitas.
Não sei que “festivais de rock” o João Távora conhece, mas suponho – e não estou a ser irónico – que fala com conhecimento de causa. Daí a minha curiosidade. Enfim, adiante. Resumir um festival de música ao género rock parece-me francamente redutor – basta ver o cartaz de qualquer um dos festivais programados para o Verão que se aproxima para se perceber que há música para todos os gostos. Rock, sim, mas também pop, grunge, metal, indie, punk, electrónica, e, com jeitinho, ainda se descobrem por lá mais géneros e sub-géneros, mas confesso que nunca tive muito jeito para catalogar música.
Da mesma forma, também me parece muito redutor definir os “festivais de música” como “eventos industriais para a catarse da rebeldia juvenil”. Na verdade, e ainda que a “malta jovem” (no sentido etário, entre os vinte e os trinta, e não no sentido político, onde, como se sabe, a juventude vai até aos cinquenta) prevaleça nos festivais, encontra-se por lá gente de todas as idades. Lembro-me, por exemplo, de um concerto de Slayer (metal) a que assisti há uns anos num festival aqui em Lisboa; nesse concerto, na zona do mosh (onde toda a gente dá e leva porrada ao ritmo da música – e onde, ao contrário do que o João Távora pensa, presta muita atenção ao que se passa no palco e, sobretudo, ao que sai do palco – a música), eu, com os meus vinte e um anos, era de longe o mais novo numa multidão de gente com idades mais próximas dos meus pais do que de mim.
Sobre o álcool e drogas: sim, consomem-se por lá. Nunca apanhei uma bebedeira num festival porque simplesmente não tenho dinheiro para isso, quando a cerveja custa pelo menos dois euros o copo (pequeno); e suspeito que o mesmo se passe com muita gente. Costumo ver muita gente em “mau estado”, sim, mas mais do cansaço e das mazelas provocadas por um concerto mais “intenso” do que do álcool. Quanto a drogas, bom, não é exactamente necessário ir a um festival para usufruir desse “inalienável direito” do “jovem burguês” de que o João Távora fala. Diz que nas universidades é até mais fácil.
Das condições sonoras pouco sei – tanto do aspecto técnico da coisa, como do que o João Távora fala ao certo. Se o som está muito alto e chateia a vizinhança? Pois sim, é chato, mas acontece até num arraial pupular ou num comício partidário a céu aberto. Quanto às condições sonoras, é verdade que não serão as mesmas de uma boa sala de espectáculos (o que exclui naturalmente o Pavilhão Atlântico), mas o ambiente em si é diferente. Já a poeira é uma maçada, sim, e é o motivo principal que me faz fugir do meu vizinho Festival Sudoeste como o diabo da cruz (isso e os péssimos cartazes da última década). Mas os festivais hoje em dia já costumam dar muito uso ao chão sintético, à areia (não gosto, mas prefiro-a à poeira) e a outros materiais mais práticos. Quanto aos detritos, o maior problema é mesmo a zona dos sanitários, que a partir das nove da noite cheira pessimamente – a única excepção que conheço é mesmo o Rock in Rio, onde o asseio das casas-de-banho é mais cuidado do que nos sanitários da Rodoviária de Odemira (também não é preciso muito, diga-se de passagem).
Quanto aos artistas “actuarem pateticamente”, bom, parece-me mais ser uma questão de gosto (do João Távora) do que de patetice (dos músicos). Alguns dos melhores concertos que já vi – Slayer, Muse, Tool, Rage Against the Machine, Soulfly, The White Stripes, Audioslave, System of a Down, entre outros – decorreram precisamente em festivais. E que concertos. E que público (o público também faz um concerto, já agora)! A repetir este ano, que a época dos festivais está a chegar, e para já, promete. Mesmo sem póquer (Póquer? Num festival? Já vi por lá coisas esquisitas, mas póquer nunca vi. Mas era bom: podia ser que ganhasse dinheiro suficiente para ir a vários festivais, que os tempos estão difíceis).
Um último reparo, sobre a mão-de-obra do Rock in Rio: são voluntários, como o próprio João Távora refere no seu post. Voluntários. Dito de outra forma: estão lá porque querem – seja pela t-shirt ou pela oportunidade de verem um bocadinho dos concertos -, e não estão a ser enganados.
