Hoje estava na praia a ler o jornal, quando me deparei com o seguinte excerto na entrevista a Heloísa Apolónia. E ainda dizem que o feminismo é uma causa velha.
Como concilia a vida de deputada com a pessoal?
Não é muito diferente da de pessoas que fazem advocacia ou outra profissão. Há um senão em termos de compatibilização: temos hora para começar as reuniões, mas nunca temos hora para acabar. E eu tenho horas para ir buscar os miúdos à escola. Às 19h00 no máximo tenho de ir buscá-los ao ATL. Há uma coisa em que reparo, por exemplo, a necessidade de apanhar um avião, a necessidade de ir para uma reunião é factor de justificação aqui nesta comunidade para sair mais cedo de uma reunião. Mas se disser, como já disse, que tenho de sair porque tenho de ir buscar os miúdos à escola isso não é entendido pela generalidade dos deputados. Já saí uma vez de uma reunião em que já tinha manifestado a minha opinião, pedi que o meu voto fosse considerado porque estaria ausente da reunião para ir buscar os miúdos e não aceitaram. Foi típico de filme, fui buscar os miúdos tipo seta, ficaram aqui na Assembleia, entrei na reunião e pus o dedo no ar para votar, porque estavam a começar as votações. Fiz isso por teimosia. Não hei-de deixar de votar.
O parlamento ainda é uma casa de homens?
Já ouvi alguém dizer, não para mim mas para a pessoa que estava ao lado, “não percebo estas mulheres que querem ser mães a tempo inteiro e querem ser deputadas”. Não vou deixar de ser mãe pelo facto de ser deputada, nem vou deixar de ser deputada pelo facto de ser mãe. Cabe-me gerir isto no dia-a-dia, às vezes com grandes dores de cabeça. Devo ser a deputada que mais olha para aquele relógio grande no plenário.


