Da irremediável decadência do francês


Pedro Correia,

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Ao ouvir ontem a presidente executiva da TAP, Christine Ourmières-Widener, falar durante grande parte da manhã numa comissão parlamentar em São Bento, confirmei esta evidência: o francês sofre um irremediável declínio.

A gestora é francesa, os deputados são portugueses, mas a senhora – incapaz de dominar o idioma de Camões – recorreu ao inglês. Podia ter-se expressado sem problema na sua língua materna, recorrendo aos competentes serviços de tradução simultânea da Assembleia da República, mas se calhar nem pensou nisso. Preferiu falar na “língua do império”, com pronúncia muito questionável, presumindo – porventura cheia de razão – que à volta daquela mesa poucos seriam os deputados capazes de entendê-la sem recorrerem a intérpretes.

Em duas gerações, o francês – dominante na cultura e nos circuitos diplomáticos até meados do século XX – foi riscado do mapa linguístico corrente fora do perímetro dos países onde ainda é idioma oficial. Paradoxalmente, isto aconteceu a partir da data do seu suposto apogeu: a vaga revolucionária do Maio de 68. Que, partindo da esquerda mais radical, funcionou afinal como trampolim definitivo para a expansão da cultura norte-americana a nível planetário. Ao romper os cânones estabelecidos, deitou fora também os vetustos padrões gauleses que imperavam desde o Século das Luzes, começando pela língua, tornada obsoleta. Os próprios franceses a vão abandonando nos palcos internacionais.

E nós? Ainda não chegámos ao ponto de falar em inglês com a senhora francesa – foi ela quem teve de recorrer à tradução simultânea quando ontem os grupos parlamentares lhe formulavam perguntas. Mas à volta daquela mesa não faltou o jargão “amaricano” para designar cargos com designações consagradas na nossa língua. Abundaram as alusões ao “si-i-ou” e ao “chérman” da TAP, como se fôssemos micro-sucursal linguística do vasto império.

A questão é que somos mesmo. Desembocámos nisto.

A ler


Sérgio de Almeida Correia,

Para além de colega e actualmente meu bastonário, o Luís Menezes Leitão é, igualmente, companheiro nesta casa que nos acolhe. Espero que, apesar disso, o autor me perdoe.

Faltando-me a paciência e a disposição para sobre o tema escrever alguma coisa, não podia deixar de aqui trazer o que ele escreveu na sua crónica do jornal i sobre as comemorações do 25 de Abril pela Assembleia da República.

Para se concordar não é preciso estar no mesmo campo político. Tal como para criticar também não se exige estar do outro lado da barricada.

É que há coisas que me parecem de tal forma evidentes que só por birra ou ausência completa de bom senso se pode insistir. E nesta insistência temos tido dirigentes que são imbatíveis, conseguindo mostrar dentro e fora do Parlamento que é possível articular as duas na perfeição.

A melancolia de António Costa


Pedro Correia,

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A mais recente debandada de vários membros do Bloco de Esquerda – entre os quais se encontram diversos fundadores daquela que constitui hoje a maior bancada parlamentar situada à esquerda (embora à direita, no hemiciclo) da do PS – constitui certamente um aviso de que poderá estar para breve uma recomposição deste tabuleiro político. Em alternativa à sua definitiva decomposição.

 

Com a formação da “geringonça”, em Novembro de 2015, António Costa secou os dois principais blocos políticos que ainda se afirmam defensores da via revolucionária – ou “socialista” – para a tomada do poder e a transformação da sociedade.

O BE equivale hoje à ala esquerda do PS, sendo notórios os vasos comunicantes entre os dois partidos e a ambição do núcleo dirigente bloquista de integrar um Executivo liderado pelo partido que Mário Soares fundou em 1973.

O PCP abandonou a via do protesto, trocando-a pela via do resmungo ocasional enquanto baixa os decibéis para não ferir a sensibilidade governativa.

Ambos os partidos aceitaram nesta legislatura o que recusaram na anterior: a ortodoxia financeira de Bruxelas, o aperto na despesa pública, a primazia atribuída ao controlo do défice. Costa anestesiou BE e PCP com umas vagas flores de retórica “socialista” enquanto entregava a condução integral dos assuntos do Estado, na componente financeira, a Mário Centeno, recém-convertido à austera disciplina imposta pelo Banco Central Europeu. E com tanto zelo o professor de Finanças se prestou à missão que acabou glorificado com o título honorífico de presidente do Eurogrupo. Uma justa recompensa por se ter revelado o campeão das cativações. Ou dos orçamentos mentirosos, para evitar um eufemismo.

 

Há quase quatro anos que não escutamos ninguém, por bandas do BE, exigir a renegociação da dívida – estribilho incessantemente martelado nos quatro anos anteriores – nem reivindicar a saída de Portugal do sistema monetário europeu. Ainda menos se ouve por aquelas bandas um vago sussurro em defesa da “revolução socialista”. Os bloquistas, já com um pé no umbral da porta que lhes dará acesso directo à próxima coligação governamental, nada fazem para ensombrar o sorriso de Centeno.

Quanto ao PCP, continua a reivindicar em teoria o adeus ao euro e o regresso ao escudo, mas já ninguém leva a sério esta proclamação mecânica após a bancada comunista ter votado cordatamente, de braço dado com o PS, quatro orçamentos que validavam a moeda única e as políticas a ela associadas. Transfiguração reformista e proto-capitalista que lhe valeu, de resto, uma derrocada eleitoral nas autárquicas de 2017. E vem gerando muita contestação interna, que seguramente seria alvo de notícias nos jornais se estes aplicassem ao PCP os critérios informativos que reservam aos restantes partidos.

 

O socialismo europeu há muito ultrapassou a sua fase épica: limita-se hoje a gerir o sistema capitalista, desempenhando a tarefa insubstituível de secar as alternativas de cariz revolucionário que ainda lhe mordiam o flanco esquerdo. É este o papel que António Costa tem exercido em Portugal. Um papel histórico, podemos já dizê-lo sem desmentido.

Daí o ar melancólico que o primeiro-ministro vem exibindo nas suas mais recentes aparições públicas. Ele não ignora nada disto. Nem a debandada em curso nos dois parceiros da “geringonça” – ruidosa no BE, muito mais silenciosa no PCP – o apanha de surpresa. No fundo, está lá para cumprir esta missão, por mais que intimamente lhe custe. Sem estados de alma, Centeno – o seu operacional máximo nesta estratégia – foi devidamente recompensado. O mesmo sucederá com ele, num futuro próximo. Mas, de algum modo, o essencial do seu encargo já pertence ao passado.

Tsipras? We don’t know him


Pedro Correia,

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«La politique c’est, avant tout, l’interprétation des réalités.»

Charles de Gaulle (1958)

 

«Cometi erros… grande erros.»  Numa notável entrevista ao Guardian, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras – outrora «the global pinup of the far-left anti-establishment movement», para usar a saborosa expressão do jornal britânico – faz várias confissões. Estava impreparado ao assumir o poder, em Janeiro de 2015, não soube escolher as pessoas certas, foi confrontado com um panorama ainda mais sombrio do que esperava.

Hoje, com o seu país a registar tímidos progressos na frente económica, o antigo radical de esquerda não hesita em reconhecer que foi correcta a decisão de manter os compromissos assumidos pelo Estado grego perante as instituições políticas de Bruxelas e os pilares financeiros da eurozona – contrariando o que algumas vozes líricas apregoavam então e ainda apregoam por cá. E questiona, acertadamente: «Se abandonássemos a Europa íamos para onde? Para outra galáxia?»

De campeão da retórica anti-austeridade a gestor das mais severas medidas austeritárias de que há memória na Grécia: eis um governante que chegou a contar com uma ruidosa legião de adeptos lusitanos mas nunca mais voltou a ser mencionado nos círculos políticos e mediáticos em Portugal. Há um par de anos, muitos queriam fazer-se fotografar com ele. Hoje apagaram essas fotografias, eventualmente comprometedoras. «As coisas são o que são», costumava dizer o general de Gaulle: nada como a dura realidade para destronar os mitos.

PàF mais à frente


Pedro Correia,

As legislativas decorreram há um mês. Muito aconteceu já de então para cá, com reflexos nas sondagens entretanto efectuadas:

 

Intercampus – Se as eleições fossem hoje, coligação PSD/CDS obteria 41,3%, ampliando a vantagem para o PS, que ficaria com 32,7%.

 

Eurosondagem – PSD e CDS sobem 2,2% num mês, aumentando para 8,3% a distância face ao PS nas intenções de voto.

 

Aximage – Partidos da coligação sobem para 40,1% nas intenções de voto: têm mais um ponto percentual em relação ao anterior barómetro.

Actualizado

As coisas são o que são


Pedro Correia,

Se a lógica que alguns socialistas defensores da “unidade de esquerda” para entronizar o derrotado António Costa em São Bento tivesse sido levada à prática nas quatro décadas de vigência da Constituição de 1976, Mário Soares e António Guterres – eleitos sem maioria absoluta – nunca teriam sido primeiros-ministros. É quanto basta para se perceber até que ponto a prática constitucional ameaça ser distorcida por estes dias.

Nada disto é inocente (10)


Sérgio de Almeida Correia,

“The summit document asserts with self-serving dishonesty that Greece’s debt has come off the rails due to the failure of Greek governments to stick to the Memorandum over the last year. Had this not occurred, the debt would still be sustainable.
This is a lie. Public debt ballooned to 180pc late last year – long before Syriza was elected – and even though the New Democracy government had complied with most Troika demands.
The truth is that Greece was already bankrupt in 2010. EMU creditors refused to allow a normal debt restructuring to take place because it would have led to instant contagion to Portugal, Spain, and Italy at a time when the eurozone had no lender-of-last resort or defences.” – Ambrose Evans-Pritchard, The Telegraph

Nada disto é inocente (7)


Sérgio de Almeida Correia,

“Greece unquestionably needs reform. But remember where the country was just a year ago. Austerity was paused in 2014, which allowed growth to return. Athens was in a primary surplus and needed no further financial aid — only extensions to smooth out the steep repayment cliffs in 2015 and 2016 that the eurozone and the International Monetary Fund recklessly left unchanged in the 2012 restructuring. Would it really have been so hard to simply grant the extensions (without haircuts), let the growth rebound continue (which would have increased the ability to service the debt) and leave Greeks to fight out whether and how to fix their country (or not)?” – Martin Sandbu, The Financial Times

Nada disto é inocente (5)


Sérgio de Almeida Correia,

“Lamentablemente, como muestran los niveles de desconfianza y dureza introducidos en el acuerdo alcanzado entre Grecia y sus socios, nunca vistos en la eurozona, algunos miembros de la eurozona parecen estar bien dispuestos a colaborar con ese empeño en dar armas a los populismos soberanistas de izquierdas y de derechas.” – Jose Ignacio Torreblanca, El Pais

 

Nada disto é inocente (4)


Sérgio de Almeida Correia,

“La vera tragedia nel cuore dell’Europa, oggi, non è la Grecia. E’ la Germania, l’isolamento culturale, ideologico in cui vive la maggior potenza del continente. La tragedia è che Schaeuble, la Merkel, la Spd non potevano, probabilmente, per realismo politico, comportarsi diversamente. Per anni, l’establishment tedesco – dai politici ai giornali – ha fornito all’opinione pubblica una immagine della realtà europea fasulla, in cui, ad esempio, i tedeschi appaiono quelli che finanziano i debiti greci, anche se, pro capite, il contribuente tedesco ha versato esattamente quanto quello italiano. Nessuno, tuttavia, al di là del Reno, la mette in discussione. Ora, è anche possibile che i teorici dell’austerità abbiano ragione, ma l’aspetto malsano della vicenda è che l’opinione pubblica tedesca non conosce altra versione della realtà. Le critiche di premi Nobel come Krugman e Stiglitz, le obiezioni di Obama, lo smantellamento dei dogmi dell’austerità da parte del Fmi, gli appelli dello stesso Fmi ad un taglio del debito greco non sono mai arrivati all’opinione pubblica. I giornali non ne parlano, i politici neanche. Per quanto possa apparire incredibile, un dibattito non c’è. Al volante della macchina europea c’è una Germania che non riesce a staccare gli occhi dal proprio ombelico.” – Maurizio Ricci, La Repubblica

Nada disto é inocente (3)


Sérgio de Almeida Correia,

“Dans ce cas, la Grèce serait le détonateur. Les gens sont au bord d’une prise de conscience du tragique réel de la situation. Le tragique réel de la situation, c’est que l’Europe est un continent qui, au XXe siècle, de façon cyclique, se suicide sous direction allemande. Il y a d’abord eu la guerre de 14, puis la deuxième guerre mondiale. Là, le continent est beaucoup plus riche, beaucoup plus paisible, démilitarisé, âgé, arthritique. Dans ce contexte ralenti, comme au ralenti, on est en train sans doute d’assister à la troisième autodestruction de l’Europe, et de nouveau sous direction allemande.” – Le Soir e também aqui

Nada disto é inocente (2)


Sérgio de Almeida Correia,

“Other eurozone countries urged Germany to drop its objections. “Grexit has to be prevented,” said Jean Asselborn, the Luxembourg foreign minister. “It would be fateful for Germany’s reputation in the EU and the world. “Germany’s responsibility is great. It’s about not conjuring up the ghosts of the past,” he told German newspaper Süddeutsche Zeitung. “If Germany goes for Grexit, it will trigger a deep conflict with France. That would be a catastrophe for Europe.”

Italy’s prime minister, Matteo Renzi, was expected to tell Merkel at the leaders’ meeting that “enough is enough” and the eurozone should not humiliate Greece when it had already given up so much.” – The Guardian