
A mais recente debandada de vários membros do Bloco de Esquerda – entre os quais se encontram diversos fundadores daquela que constitui hoje a maior bancada parlamentar situada à esquerda (embora à direita, no hemiciclo) da do PS – constitui certamente um aviso de que poderá estar para breve uma recomposição deste tabuleiro político. Em alternativa à sua definitiva decomposição.
Com a formação da “geringonça”, em Novembro de 2015, António Costa secou os dois principais blocos políticos que ainda se afirmam defensores da via revolucionária – ou “socialista” – para a tomada do poder e a transformação da sociedade.
O BE equivale hoje à ala esquerda do PS, sendo notórios os vasos comunicantes entre os dois partidos e a ambição do núcleo dirigente bloquista de integrar um Executivo liderado pelo partido que Mário Soares fundou em 1973.
O PCP abandonou a via do protesto, trocando-a pela via do resmungo ocasional enquanto baixa os decibéis para não ferir a sensibilidade governativa.
Ambos os partidos aceitaram nesta legislatura o que recusaram na anterior: a ortodoxia financeira de Bruxelas, o aperto na despesa pública, a primazia atribuída ao controlo do défice. Costa anestesiou BE e PCP com umas vagas flores de retórica “socialista” enquanto entregava a condução integral dos assuntos do Estado, na componente financeira, a Mário Centeno, recém-convertido à austera disciplina imposta pelo Banco Central Europeu. E com tanto zelo o professor de Finanças se prestou à missão que acabou glorificado com o título honorífico de presidente do Eurogrupo. Uma justa recompensa por se ter revelado o campeão das cativações. Ou dos orçamentos mentirosos, para evitar um eufemismo.
Há quase quatro anos que não escutamos ninguém, por bandas do BE, exigir a renegociação da dívida – estribilho incessantemente martelado nos quatro anos anteriores – nem reivindicar a saída de Portugal do sistema monetário europeu. Ainda menos se ouve por aquelas bandas um vago sussurro em defesa da “revolução socialista”. Os bloquistas, já com um pé no umbral da porta que lhes dará acesso directo à próxima coligação governamental, nada fazem para ensombrar o sorriso de Centeno.
Quanto ao PCP, continua a reivindicar em teoria o adeus ao euro e o regresso ao escudo, mas já ninguém leva a sério esta proclamação mecânica após a bancada comunista ter votado cordatamente, de braço dado com o PS, quatro orçamentos que validavam a moeda única e as políticas a ela associadas. Transfiguração reformista e proto-capitalista que lhe valeu, de resto, uma derrocada eleitoral nas autárquicas de 2017. E vem gerando muita contestação interna, que seguramente seria alvo de notícias nos jornais se estes aplicassem ao PCP os critérios informativos que reservam aos restantes partidos.
O socialismo europeu há muito ultrapassou a sua fase épica: limita-se hoje a gerir o sistema capitalista, desempenhando a tarefa insubstituível de secar as alternativas de cariz revolucionário que ainda lhe mordiam o flanco esquerdo. É este o papel que António Costa tem exercido em Portugal. Um papel histórico, podemos já dizê-lo sem desmentido.
Daí o ar melancólico que o primeiro-ministro vem exibindo nas suas mais recentes aparições públicas. Ele não ignora nada disto. Nem a debandada em curso nos dois parceiros da “geringonça” – ruidosa no BE, muito mais silenciosa no PCP – o apanha de surpresa. No fundo, está lá para cumprir esta missão, por mais que intimamente lhe custe. Sem estados de alma, Centeno – o seu operacional máximo nesta estratégia – foi devidamente recompensado. O mesmo sucederá com ele, num futuro próximo. Mas, de algum modo, o essencial do seu encargo já pertence ao passado.

poderá estar para breve uma recomposição deste tabuleiro político
Tenho a impressão de que o Pedro Correia está a confundir os seus desejos com a realidade.
Em Portugal é muito difícil recompôr o tabuleiro político. Isso já foi tentado por dissidentes do PSD (nos tempos de Sá Carneiro), do BE (o MAS), e do PCP. Em todos os casos sem sucesso.
Costa anestesiou BE e PCP com umas vagas flores de retórica “socialista”
Não somente com retórica; também com concessões bem reais e significativas em termos de “devolução de rendimentos” e anulação de privatizações.
vem gerando muita contestação interna, que seguramente seria alvo de notícias nos jornais, se estes aplicassem ao PCP os critérios informativos que aplicam aos restantes partidos
O Pedro Correia parece andar muito bem informado sobre o que se passa nos bastidores do PCP. Que dados concretos tem sobre essa alegada “contestação interna”?
Mais uma lavourada.
Às 11.25, anuncia o comendador Lavoura: ebandada-10539420?thread=82955932#t82955 932
«Agora sou militante da Iniciativa Liberal.»
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/d
Às 12.13, proclama aqui o comentador Lavoura:
«Em Portugal é muito difícil recompor o tabuleiro político. Isso já foi tentado por dissidentes do PSD (nos tempos de Sá Carneiro), do BE (o MAS), e do PCP. Em todos os casos sem sucesso.»
Não parece, mas são o mesmo. Alguém que milita numa organização (diz ele) condenada ao insucesso.
Eu sempre fui, e continuo a ser, da opinião que a Iniciativa Liberal não terá sucesso.
Mas milito nela mesmo assim, porque me identifico ideologicamente com ela.
Há pessoas que querem sempre estar do lado de vencedores. Não é o meu caso. Em quase todas as últimas eleições, votei em partidos que não elegeram ninguém.
Depende muito de si. Quanto mais depressa sair, mais a Iniciativa Liberal terá hipóteses de sucesso.
Voltamos â via estreita a gasóleo.
Rão Arques
A gasóleo não pode ser: ofende Sua Excelência, o ministro da energia híbrida:
https://www.dinheirovivo.pt/economia/ac hei-avisado-fazer-este-aviso-matos-ferna ndes-mantem-posicao-sobre-os-diesel/
Vi ainda agora, numa bomba da GALP, que o gasóleo custa apenas 7,5 cêntimos menos que a gasolina.
Isto quando o gasóleo tem um benefício fiscal, em relação à gasolina, de mais de 20 cêntimos.
De onde se deduz que o gasóleo sai da refinaria muito mais caro do que a gasolina.
Tendência aliás que se vem agravando rapidamente. Apenas há três meses, a diferença de preço entre os dois combustíveis era de 14 cêntimos (numa bomba da BP).
De onde se pode concluir, talvez o ministro do Ambiente tenha razão. Daqui a 4 anos, talvez o gasóleo seja mais caro que a gasolina e ninguém o queira usar.
Quiçá.
Faria bem melhor o ministro do Ambiente em olhar para o que se passa na frota automóvel do estado: s/automovel/detalhe/frota-do-estado-tem-7 3-de-carros-a-gasoleo
https://www.jornaldenegocios.pt/empresa
Pedro, será que os camiões, os barcos (sobretudo os porta-contentores), os tractores e essa montanha de motores existentes, vão deixar o diesel? E se sim, em quantas gerações?
O Dr. António Costa quando, montado num burro, ganhou a corrida a um ferrari vermelho estava a preparar-se para ganhar outras competições, sempre com o inconfudível sorriso que põe quando vai para a Tribuna do todo poderoso LFV.
Um ministro de Costa, que não é burro nem tem Ferrari, lembrou-se agora de recomendar aos portugueses para porem de lado os carros a gasóleo. s/automovel/detalhe/frota-do-estado-tem-7 3-de-carros-a-gasoleo
Esqueceu-se de fazer essa recomendação aos dirigentes do Estado:
https://www.jornaldenegocios.pt/empresa
O BE é como aqueles putos que querem ser independentes, mas sustentados pelos pais. A certa altura, vão ter de cumprir as normas da casa, ou então acaba-se cama, mesa e roupa lavada.
É bonito guinchar contra a UE e os “mercados”, mas são estes que colocam pão na mesa.
Entretanto, seguem a sua dicotomia.
Ganham as causas fracturantes (os casamentos do mesmo sexo, etc), e estrebucham contra a injecção de guito no BES. E seguem a sua vidinha.
Quem manda no BE é Centeno. E mais nada.
Muito bem analizado, Pedro Correia. Peças e mesmo o tabuleiro(!) estão a mudar.
Como iremos ver nos próximos meses. Abraço.
O teu penúltimo parágrafo causa-me discordâncias: o PS é mais do que isso, um mero gestor mais ou menos competente do status quo. É um mecanismo de apropriação, uma geringonça por si só, um vero leviatã
Na óptica da chamada “esquerda revolucionária” – e é nesse posição que faço esta reflexão, tentando interpretar a deserção em massa de 26 destacados membros do BE, incluindo gente que fez parte do núcleo fundador – o PS é um mero gestor, melhor ou pior, do sistema que existe.
Ora essa esquerda não quer gerir o sistema, mas transformá-lo. Acontece que Costa anestesiou as forças à sua esquerda: o BE, partido sem trabalhadores, transformou-se na sucursal urbana-chique do PS; o PCP, ao aprovar quatro orçamentos do Estado que validavam a moeda única, a disciplina orçamental e o pacto de estabilidade, descaracterizou-se por completo como partido de raiz revolucionária.
Esta a missão histórica do menchevique Costa, completando em 2015 o que Soares iniciara em 1975: os bolcheviques lusitanos passaram de vez à história. As autárquicas de 2017, confirmando a total irrelevância do BE e o maior recuo de sempre do PCP ao nível do poder local, confirmaram isto.
Compreendo que Costa, até devido aos seus antecedentes familiares, mergulhe numa certa melancolia por ter cumprido este desígnio histórico, que só peca por tardio. Se não fosse ele, outro o faria: não fazia o menor sentido a extrema-esquerda manter cerca de um quinto do eleitorado português, como aconteceu até Outubro de 2015, quando BE e PCP somaram 18,44% nas legislativas.
As coisas são o que são.
Pode retemperar-se nos acampamentos temáticos do be.
Desintoxicar-se e rejuvenescer.
Desintoxicar num desses “acampamentos temáticos”? Parece-me um programa arriscado.