Esta notícia sobre as chamadas pensões douradas dá que pensar, por um motivo muito simples. É neste género de coisas que avaliamos a justiça ou injustiça de um dado modelo. Infelizmente, é raro isto dar origem a qualquer discussão um bocadinho mais livre de preconceitos. Se não “gostamos” da ideia das pensões, é porque somos um invejosos, e também as queríamos. Se “gostamos”, é porque somos uns chupistas profissionais, e fazemos parte daquela mítica categoria “urricos”.
No entanto, há de facto vários problemas com o valor destas pensões. Quem as recebe, descontou, naturalmente, durante muitos anos para as ter. E tinha um salário relativamente alto (em relação à média nacional), que permite atingir estes valores. O problema é que no estado em que estamos – demográfico, económico, social – não é possível continuar a pagar estes valores. As razões são simples: não há população suficiente a descontar, e a tendência é decrescente. A base da pirâmide é cada vez menor. Se pensarmos que a geração que agora tem 50 anos é ainda mais qualificada, e portanto terá salários mais altos para indexar reformas, vemos que o dinheiro fica escasso. O Estado pura e simplesmente não tem dinheiro para isto, e a solução que tem implementado gera pobreza. A minha geração, a dos recibos verdes, foi agora convidada a pagar 30% de segurança social. Para quem ganha 500 euros, a única solução é ignorar as prestações, e incorrer em dívida.
E há também uma razão de ordem moral, de justiça: um Estado que corta nas pensões e apoios aos mais pobres, pode manter este nível de pensões para parte da população? Um Estado com problemas graves de financiamento dos apoios sociais pode pagar pensões múltiplas aos seus mais altos – e caros – funcionários (vide PR e os seus 10.000 euros de duas reformas estatais acumuladas)?
O problema da sustentabilidade da segurança social é sobejamente conhecido, numa Europa envelhecida. Em alguns países, a opção foi enviar as reformas para o sistema bancário privado. Na Suíça, é obrigatório ter um PPR. As pessoas poupam ao longo da vida para garantir uma velhice tranquila. Se houver algum acidente, o Estado ajuda (aliás, essa é a melhor definição de Estado social). Para quando esta coragem aqui?