Uma história inacreditável


cadernoelastico,

Longe vai o tempo em que as empresas punham e dispunham dos consumidores portugueses. Depois de nos arrastarmos na cauda da lista dos consumidores que assumem os seus direitos (durante muitos anos, comíamos e calávamos, que o livro de reclamações é uma coisa muito séria), surgem pessoas como a Maria João Nogueira, a demonstrar que o acto de compra não se limita a dar dinheiro em troca de um bem. Há um contrato, que deve ser cumprido pelas duas partes. As empresas têm obrigações, e deveres perante a lei. Quando falham, tentar calar o consumidor que reclama é capaz de não ser a atitude mais inteligente. Particularmente na era da informação ilimitada (blogues, redes sociais, etc.). Se os Estados têm lições a tirar do caso Wikileaks, também as empresas como a Ensitel têm uma lição a retirar desta vergonha que a Maria João descreve: é que o mau tratamento dos clientes pode ter consequências bem mais nefastas para a empresa do que a perda de um só cliente. Bem-vindos ao mundo em rede.

Temas fracturantes


cadernoelastico,

Esta campanha presidencial está realmente ao rubro nas questões fracturantes que interessam a todos os portugueses (e consta que às portuguesas também):

 

1. Eu conheço mais pobres que tu. (Quem nunca viu o brilho nos olhos depois de uma côdea de pão, etc., etc.)

2. Eu estive em mais teatros de guerra que tu. (Depois de Angola 69, temos o Líbano 82. Aguardo ansiosamente pelo Kosovo 99 e Afeganistão 08.)

3. Eu sou mais anti-fassista que tu. (Um clássico, mas que nunca passa de moda. E tu, onde estavas no Abril de 71? A única resposta certa é Casablanca.)

 

Como o Natal não é todos os dias, acrescento umas sugestões da minha lavra:

 

1. Eu tenho mais netos que tu. (A questão demográfica é também uma questão de classe, não se iludam.)

2. Eu como mais bolo-rei que tu. (Juro que não foi de propósito, é que uma filhós para mim não é bem uma filhós para outra pessoa.)

3. Eu apanhei mais reguadas da D. Adozinda que tu. (Os problemas da educação: será que antigamente, quando as crianças pregavam pregos em tábuas, é que era?)

Desfasamentos


cadernoelastico,

Um dia destes dei por mim a recordar Maslow, e a sua pirâmide das necessidades humanas. Da maneira mais simplificada, de acordo com o senhor temos na base as necessidades primárias: um tecto, comida, água descanso. Subindo pela pirâmide, começamos a complexificar a existência humana. Quando estamos seguros e saciados, procuramos um conforto social. Amigos, família, um parceiro para a vida. Depois, já quase a chegar ao topo, vêm as outras questões, de realização pessoal, de auto-estima, dignidade, etc. Os degraus são vários, mas esta é a ideia: depois de determinadas necessidades básicas, desenvolvemos outras, que se vão tornando centrais.

Uma sociedade arruma-se mais ou menos nesta pirâmide. Uma sociedade desenvolvida, próspera, politicamente livre, estará provavelmente no topo. Os seus cidadãos não se preocupam com a base. Quando alguém cai, o Estado assegura os mínimos. É aqui que surgem questões como o casamento dos homossexuais, por exemplo. São questões que surgem quando as nossas necessidades têm a ver com a felicidade individual, abandonando o materialismo e procurando desejos mais subjectivos.

Chegada a este ponto, é evidente o ponto onde queria chegar. Todos os dias nos chegam notícias de pobres a comer os restos da sociedade do topo da pirâmide (literalmente: a comer as sobras da sociedade que vai ao restaurante, porque gosta de comer bem, não porque precisa das calorias); notícias de desempregados a perder o subsídio, e angustiados com a falta de uma rede de segurança. Ou seja: a base da pirâmide alastra, e tanto o Estado como a sociedade têm de lhe dar atenção. O imenso paradoxo é que nos consideramos uma sociedade  moderna de topo da pirâmide. Pensámos que as questões da base estavam resolvidas. Não estão, e o problema é o desfasamento, o fosso que cresce entre a base e o topo, numa mesma sociedade. Tão grave como a solução da crise é a questão de como a viver, nesta pirâmide sem meio.

Um filme mudo


cadernoelastico,

 

No total, este filme de Anton Corbijn não terá mais de trinta minutos de diálogo. É um filme mudo, dominado na perfeição por George Clooney. Bastam-nos as expressões deste grande actor, não precisamos de muitas palavras. Os diálogos e explicações estão todos nos gestos de Clooney, no seu movimento.

Blogue da semana


cadernoelastico,

É cada vez mais difícil escolher o blogue da semana. A blogosfera portuguesa está viva e recomenda-se, em cada vez mais áreas.

Esta semana, decidi fugir à política, e eleger a culinária como tema. Comecei a lembrar-me dos blogues que visito, e a coisa não ficou facilitada: são muitos, alguns muito bem escritos, outros com fotografia belíssima, mas todos com uma identidade própria, que vem de serem ricos em experiência. Na blogosfera da cozinha, encontramos gente que faz comida porque gosta. Porque chega a casa, e tem prazer a fazer uma refeição em condições, à moda antiga. Eu confesso que também sou assim: cozinhar relaxa-me, dá-me gosto, e nada sabe melhor do que ver o resultado desses minutos ou horas na satisfação dos outros. A cozinha é para os outros, e acho que somos uma sociedade tanto mais forte quanto mais valor dermos a estas pequenas coisas. Assim, de entre tantos outros possíveis, escolhi o Cinco Quartos de Laranja. E recomendo.

A política comparada é um campo muito útil


cadernoelastico,

 

“We should avoid the facile assumption that cabinet durability necessarily spells regime stability. In fact, it is considered more plausible to think of cabinet durability as a sign of executive domination over the legislature. And few if any observers of parliamentary democracies would want to argue that overbearing executives and subservient legislatures are more conducive to the health and stability of democratic regimes than balanced executive-legislative powers.” Arend Lijphart, 1984.

 

Esta pequena citação diz exactamente o que penso de governos de salvação nacional e apelos à estabilidade. A democracia representativa também é isto: tumulto, governos que caem, ministros aos gritos no parlamento, deputados aos berros uns com os outros. O mundo político cor-de-rosa só existe na cabeça de quem tudo quer ordenar.

Comparações


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Por motivos profissionais, ando a ler relatórios sobre acontecimentos políticos dos últimos anos por toda a Europa. Desengane-se quem pensa que a nossa democracia “é uma pouca vergonha!”. Não somos nem mais nem menos que os restantes europeus: corrupção, escândalos sexuais (Ok, aqui podíamos melhorar a nossa prestação), conflitos Presidente-Primeiro Ministro (ui, a Polónia é engraçadíssima neste aspecto), birras entre partidos, etc. Mas há uma diferença, que tenho encontrado em vários casos de corrupção: se na Áustria, Irlanda e Finlândia à primeira prevaricação apanhada em flagrante o partido tenta disfarçar, à segunda o ministro ou primeiro ministro cai mesmo. É que as sondagens parecem não perdoar, e em democracia ser eleito é a principal preocupação dos partidos. Ora lembrem-se lá do que acontece por cá… E não, não se trata de justiça: o caso pode nem chegar a tribunal, mas nisto de democracia e partidos, o povo ainda parece ser quem mais ordena.

Outros parasitas


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Já me tinha esquecido daquela história de 2008, quando se descobriu que a CML oferecia casas a torto e a direito. Querem saber o que fez um ex-director municipal perante a injustíssima denúncia? A resposta está aqui, e não é bonita. Amuado por ficar sem a casa de que ilegalmente se tinha apossado (e depois passado para o filho, que isto da vida são 3 dias, e pode não haver mais tempo para enganar o papalvo do contribuinte), destruiu grande parte do interior. Nem as maçanetas das portas escaparam.

Transparências


cadernoelastico,

É mais fácil perceber o Orçamento na Mongólia que em Portugal

 

Foram hoje publicados os resultados de um estudo do International Budget, que apresenta a transparência orçamental em perspectiva comparada. O relatório português foi realizado por Marina Costa Lobo (ICS), Paulo Trigo Pereira (ISEG), Ana Margarida Craveiro (ICS) e Luís de Sousa (ICS).

Os resultados não são brilhantes para Portugal: 58 pontos num total de 100, uma das piores prestações na zona europeia. Marina Costa Lobo e Paulo Trigo Pereira apresentam hoje um resumo dos nossos resultados no Jornal de Negócios, num artigo que pode ser lido aqui. Vale mesmo a pena perder algum tempo com isto. A falta de transparência é também uma das causas do nosso actual problema. Sem conhecermos a situação, como podemos pedir contas ou tentar corrigi-la?

Montanha russa


cadernoelastico,

Isto é fantástico. As disciplinas são tão importantes que acabam por uma questão orçamental. O fim das “disciplinas” de Área Projecto e Estudo Acompanhado, definido em orçamento de Estado, diz muito sobre a desorientação do Ministério da Educação. Não me interpretem mal, ainda bem que acabam essas perdas de tempo, mas mal vai o país em que o currículo escolar é definido pelo Ministério das Finanças.

Os lucros do Estado


cadernoelastico,

O presidente do conselho de administração da RTP, Guilherme Costa, afirmou hoje que a empresa vai apresentar lucros em 2010, o que sucede “pela primeira vez desde 1991”.

 

Há uma coisa que parece não ser clara no Estado: o Estado não tem de dar lucro. Não é suposto que dê lucro, da mesma forma que não deve dar prejuízo. O saldo entre receitas e despesas deve dar zero. Se dá lucro, a primeira medida é baixar as contribuições (taxas e impostos) impostas a todos os portugueses (não só contribuintes, mas qualquer pessoa com uma conta da luz, neste caso). Porque tiram-se duas conclusões: (1) a gestão foi boa. Óptimo, muitos parabéns. (2) Não precisam de tanto financiamento privado.

Fascinante – mais um ranking


cadernoelastico,

1) A fantástica ideia dos mega-agrupamentos escolares não funciona, dizem os resultados de exames deste ano. Oh really? Ninguém estava à espera. É que ninguém, ninguém, ninguém. Ó p’ra mim tão apanhada de surpresa.

 

2) O director da escola de Felgueiras refere que, se pudesse transpor a sua estrutura toda para Coimbra, também conseguiria os mesmos resultados. Quer-me parecer que ia ficar desiludido: não é só o carácter urbano da escola que é um factor de sucesso. O D.Maria, antigo liceu nacional feminino, consegue reunir uma população escolar quase exclusivamente vinda de classe média, com uma elevada taxa de estabilidade de professores. O liceu não é muito grande, e estamos a falar de alunos, na sua maioria, com pais instruídos (muitos professores, médicos e advogados), com um rendimento bem acima da média nacional. Evidentemente, esta particular fatia social está relacionada com a localização da escola: urbana, classe média alta, zona bem tratada (Solum, em Coimbra). Mas não há milagres. Compare-se o D.Maria, uma escola pequena que se dá ao luxo de escolher alunos, com a Avelar Brotero, uma escola maior, situada uns cinquenta metros ao lado. As diferenças saltam à vista.

Ao cuidado dos decisores


cadernoelastico,

Critical junctures are characterized by the adoption of a particular institutional arrangement from among two or more alternatives. These junctures are “critical” because once a particular option is selected it becomes progressively more difficult to return to the initial point when multiple alternatives were still available.

 

James Mahoney, 2000, p. 513.

Case study


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A Câmara Municipal de Lisboa resolveu um dia destes obrigar os moradores de S. Sebastião da Pedreira a fazer reciclagem. A freguesia está a sofrer um projecto piloto, em que o lixo tem dias diferenciados de recolha. Segunda e sexta, plásticos; terça, quinta e sábado, lixo normal; quarta, papel e cartão. Para forçar melhor a iniciativa, retirou todos os eco-pontos da área.

Passadas duas semanas, como está a zona? Bom, porca seria um bom adjectivo. As ruas estão nojentas, o lixo acumula-se por todos os cantos. E porquê? O meu prédio é um bom exemplo. Todos os dias, exceptuando terças, quintas e sábados, o nosso lixo não é recolhido. No caixote, um papel da fiscalização a dizer quais os dias “certos” para a recolha. Liguei para a Câmara, a dizer que isto não podia continuar. Explicaram-me que tenho o caixote errado, destinado a lixo comum, e portanto nos restantes dias não podem recolher. Existem caixotes com tampas diferentes, que a Câmara distribuiu. Pergunto quando foi feita a distribuição dos ditos caixotes novos. Dizem-me que as equipas de rua passaram por todos os números, para actualizar os caixotes. Volto a perguntar exactamente a mesma coisa, e digo que o meu prédio não tem espaço para tantos caixotes (3 diferentes num prédio de 1910 sem hall de entrada era capaz de ser engraçado enquanto gincana). Do outro lado, vão buscar o projecto, para perceber o que se passa: surpresa das surpresas, dizem-me que vivo num prédio arrendado. Pois, eu sei. Que o senhorio mora longe. Pois, também sei disso. E como tal não há ninguém responsável. Resultado: não temos direito a caixotes novos, e a recolha. Tento pôr o lixo “certo” na rua. Como o caixote é dos velhos, ninguém lhe mexe. Quase todos os dias, o autocolantezinho. Prometeram-me uma visita da equipa de rua. Continuo à espera.

Da coerência


cadernoelastico,

Santos Silva, na versão Ministro da Defesa, anunciou a compra de aviões para patrulhamento da zona costeira. Falou de zona económica exclusiva e soberania nacional, e da necessidade de garantir ambas. Uma semana antes, estava sentado ao lado de um PM que berrava contra submarinos comprados para exercer exactamente a mesma função. Já o escrevi antes, e repito: a questão do mar implica uma decisão política, num cenário de escolhas limitadas por recursos escassos. Se optamos pelo mar, então assumimos os custos da decisão. Defender uma das maiores zonas económicas marítimas do mundo implica recursos e consenso político. Esta descoordenação absoluta é só tonta, e mais um caso de possível desperdício de recursos. Não podemos ter um Ministro da Defesa a avançar num sentido, contra um PM à toa.

Encolher os ombros


cadernoelastico,

Nos escritórios do blokhaus denominado Berlaymont, na praça Schuman, em pleno centro da eurocracia bruxelense, todos se servem generosamente. Qualquer intérprete novato começa com 4190 euros por mês. Para os altos funcionários, chega-se facilmente aos 16 mil euros por mês. A isto vêm juntar-se subsídios de expatriação, abono de lar, abono de família, subsídios escolares e pré-escolares. As crianças frequentam escolas europeias privadas, financiadas pelos contribuintes europeus num montante anual de cerca de 100 milhões de euros.

Para os altos responsáveis políticos, o salário é, naturalmente, um pouco mais elevado: um comissário europeu recebe um salário base de 19 910 euros. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, mete ao bolso 304 mil euros todos os anos. A maioria dos altos responsáveis europeus recebe, além disso, um subsídio de residência. A nova Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, a britânica Catherine Ashton, recebe cerca de 323 mil euros por ano, acrescidos de complementos para o seu orçamento privado e despesas de representação. Resultado: esta senhora trabalhista ultrapassa de longe as suas colegas Angela Merkel e Hillary Clinton. Em contrapartida, muitas vezes regressa logo na quinta-feira a Londres, para ver os filhos.


Devemos, no entanto, reconhecer que os comissários europeus não são de nomeação vitalícia. Em geral, são substituídos ao cabo de um ou dois mandatos de cinco anos. Contudo, a seguir não ficam logo sem um tostão, porque continuam a receber entre 40 e 65% do seu salário de base – ou seja, cerca de 10 mil euros por mês – durante três anos, para os ajudar a “gerir a transição para o mercado de trabalho”. Mas não parece que tenham grande dificuldade em se reconverter.