Case study


cadernoelastico,

A Câmara Municipal de Lisboa resolveu um dia destes obrigar os moradores de S. Sebastião da Pedreira a fazer reciclagem. A freguesia está a sofrer um projecto piloto, em que o lixo tem dias diferenciados de recolha. Segunda e sexta, plásticos; terça, quinta e sábado, lixo normal; quarta, papel e cartão. Para forçar melhor a iniciativa, retirou todos os eco-pontos da área.

Passadas duas semanas, como está a zona? Bom, porca seria um bom adjectivo. As ruas estão nojentas, o lixo acumula-se por todos os cantos. E porquê? O meu prédio é um bom exemplo. Todos os dias, exceptuando terças, quintas e sábados, o nosso lixo não é recolhido. No caixote, um papel da fiscalização a dizer quais os dias “certos” para a recolha. Liguei para a Câmara, a dizer que isto não podia continuar. Explicaram-me que tenho o caixote errado, destinado a lixo comum, e portanto nos restantes dias não podem recolher. Existem caixotes com tampas diferentes, que a Câmara distribuiu. Pergunto quando foi feita a distribuição dos ditos caixotes novos. Dizem-me que as equipas de rua passaram por todos os números, para actualizar os caixotes. Volto a perguntar exactamente a mesma coisa, e digo que o meu prédio não tem espaço para tantos caixotes (3 diferentes num prédio de 1910 sem hall de entrada era capaz de ser engraçado enquanto gincana). Do outro lado, vão buscar o projecto, para perceber o que se passa: surpresa das surpresas, dizem-me que vivo num prédio arrendado. Pois, eu sei. Que o senhorio mora longe. Pois, também sei disso. E como tal não há ninguém responsável. Resultado: não temos direito a caixotes novos, e a recolha. Tento pôr o lixo “certo” na rua. Como o caixote é dos velhos, ninguém lhe mexe. Quase todos os dias, o autocolantezinho. Prometeram-me uma visita da equipa de rua. Continuo à espera.

13 comentários em “Case study”

  1. CML
    Perfeitamente Kafkiano.
    Não acertam/os uma.
    Um qq assessor, que quis mostrar serviço a um qq chefe distraído.
    Uma limpeza e higiene, digna de um pardieiro do norte de África.
    Não devem andar pelas ruas de Lisboa.
    Malefícios dos popós distribuídos.
    Mas têm tempo, para a Quadratura do Círculo.

    1. Caro JB

      Porquê ….pardieiro do norte de África?

      Se Portugal é ele todo um imenso pardieiro…
      Tão “pardieiro” que até dá para misturar sucata com robalos…

  2. Confesso que não percebi bem qual é o problema. Só vos recolhem o lixo três dias por semana? Qual é o mal disso? Os vossos caixotes não aguentam o lixo de dois dias seguidos?

    Já agora, uma pergunta: se o senhorio mora longe, não há ninguém que tome conta do prédio, uma porteira, um administrador?

      1. Eu pasmo.

        Em minha casa vivemos dois adultos e duas crianças. Jantamos em casa todos os dias. E produzimos um saco de supermercado, muito mal cheio, de lixo de dois em dois dias – não mais do que isso.

        A este ritmo, um caixote do lixo para dez apartamentos chegaria perfeitamente para dois dias. Aliás, no meu prédio, que tem dez apartamentos, o caixote do lixo ao fim-de-semana (que são dois dias) nunca enche.

        Não sei onde raio é que os portugueses produzem tanto, tanto lixo.

          1. De facto. Um exemplo único.
            Para finalizar a conversa, repare só na ironia: eu fazia reciclagem. Deixei de poder fazer, graças a um projecto de generalização da reciclagem.

  3. Já agora, eu ainda este fim-de-semana percorri algumas vezes as ruas Viriato e de São Sebastião da Pedreira, e não reparei que estivessem peculiarmente sujas. Quero dizer, para o padrão normal das ruas de Lisboa – sujíssimas – as da freguesia de São Sebastião da Pedreira não me parecem más.

    Ainda há pouco tempo fui ao Porto e uma coisa que me saltou à vista foi o estado de grande limpeza das ruas, incomparavelmente melhores do que as de Lisboa.

    O problema em Lisboa não se prende tanto com a inexistência de caixotes do lixo ou com a má recolha deles. Pelo que vejo pelas ruas, o problema de Lisboa é mesmo o mau comportamento dos habitantes, que depositam o lixo em qualquer lado, à mercê do vento.

  4. Uma vez mais, o «liberal» Luís Lavoura aponta o dedo acusador não ao estado, não ao município, não às entidades públicas, mas ao cidadão comum. O estado tem sempre razão, o cidadão não.

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