Impossível cortar na despesa


cadernoelastico,

É impossível cortar na despesa. É impossível cortar nos institutos públicos. Senão, como ia esta gente toda viver?

Vamos a um exemplo. Conhecem a ANACOM? Espero que gostem do site. Custou-vos exactamente 54.000,00 €, em dois contratos por ajuste directo, de 180 dias cada um, mas com uma diferença entre si de pouco mais de uma semana.

É um instituto público já com alguns anos. Em 2009 fez 20 anos. Gostava de ter sido convidada para a festa. Imaginem que só a tenda (aluguer e montagem), a decoração e o som e vídeo ficaram em 74.063,00 €. O catering, animação e afins só vos custou 60.476,00 €. Uma pechincha, os 20 anos. Isto foi em Outubro, e zás, mete-se o Natal. No ano anterior, em 2008, o Luís Suspiro só tinha cobrado 21.250,00 € pelo jantar de Natal. Como 2009 já era ano de crise, contratou-se o Hard Rock Café para o catering da festinha. Por 8000 €, vale bem a pena!

2009 foi também o ano em que a ANACOM precisou de um template Word e Excel novos. Por 11.350,00 €, e em 150 dias, ficou o trabalho feito. Foi um ano importante para a saúde do instituto: 10.985,00 € para se deixar de fumar. O programa Melhor Vida, dizem eles. Pois, acredito.

Este post podia continuar. Mais uns 12000 € em convites para aqui, umas dezenas de milhar em conferências e brindes para ali. O meu ponto é só este: antes de aumentar impostos, antes de cortar em salários, pensões e subsídios, era para isto que se devia olhar. Não tenho nada de pessoal contra a ANACOM. Neste post, serviu só de exemplo da gordura estúpida deste Estado podre. Podia ter sido qualquer outro instituto público, câmara municipal, empresa municipal. Neste site, basta escrever a palavra “jantar”, por exemplo, e descobrimos em que é gasto o dinheiro dos contribuintes. Estupidamente gasto.

A propósito de repúblicas


cadernoelastico,

 

A única república que eu de bom grado aceitaria está em vigor em países como o Reino Unido, Suécia e Holanda. Ou nos EUA. Um Estado de Direito baseado na liberdade, na igualdade e na auto-suficiência, como definidas por Immanuel Kant. Não reconheço qualquer republicanismo a este regime, excepto a espuma vaga de não ter um rei, e como tal não vejo nada passível de festejos.

A desparasitação necessária


cadernoelastico,

O parasita-mor é bem capaz de ser o Presidente da CML, depois destas extraordinárias declarações:

“Deixou de ser política da Câmara de Lisboa proteger senhorios parasitas que querem impedir os inquilinos de fazer a reabilitação que é essencial para a cidade, em particular, em zonas tão nobres como o Rossio.”

 

Em causa estava a legalização por parte da Câmara de umas obras realizadas ilegalmente, sem autorização dos legítimos proprietários, num hotel do Rossio. Hotel que, refira-se, paga 611 euros de renda mensal, por quatro andares, num total de quase 1500 metros quadrados. Para estes verdadeiros parasitas, o direito à propriedade não interessa.

Eu renuncio


cadernoelastico,

– Renuncio a ter um sector empresarial público com a dimensão própria de uma grande potência, dispensando-me dos benefícios sociais e económicos correspondentes;

– Renuncio ao bem que me faz ver o meu semelhante deslocar-se no máximo conforto de um automóvel de topo de gama pago com as minhas contribuições para o Orçamento do Estado, e nessa medida estou disposto a que se decrete que administradores das empresas públicas, directores e dirigentes dos mais variados níveis de administração, passem a utilizar os meios de transporte que o seu vencimento lhes permite adquirir;

 

Mais, aqui. Renuncie também.

Programa de governo


cadernoelastico,

 

A culpa é da crise, a culpa é do PSD, não aumentamos impostos, o investimento público é necessário, afinal não aumentamos impostos excepto x, y e z, afinal não há TGV agora, daqui a seis meses há TGV, o mundo mudou outra vez. E a culpa é do Medina Carreira e do João Duque.

Assinar de cruz, pois


cadernoelastico,

Já é a segunda vez em 6 meses que se diz que o país atravessa um período de emergência nacional. Sob esse pretexto pede-se ao líder da oposição que assine de cruz tudo o que o governo quiser. Sendo assim, não seria mais simples suspender a democracia por 6 meses? Afinal qual é a diferença?

João Miranda, no Blasfémias

 

E recordar uma frase de Luís Amado em Novembro de 2009: em minoria, programa de Governo é ponto de partida, não necessariamente de chegada.

Um país de gente doida


cadernoelastico,

Gente doida, mentirosa e perigosa. Não, Sócrates não fez quaisquer cortes na saúde e educação. Sim, os portugueses aguentam mais uma subida de impostos – assim como assim, têm salários bem generosos, que permitem fazer ajustes rápidos. Sim, as empresas conseguem perfeitamente pagar mais impostos sem continuar a despedir funcionários. Sim, o Estado tem o tamanho certo: concentrado nas actividades fundamentais, eficiente, sem desperdícios. E finalmente sim, a culpa deste descalabro é toda, todinha, do PSD, esse partido de irresponsáveis que resolveu nos últimos anos gastar o dinheiro que não temos.

Picuinhices


cadernoelastico,

Que o primeiro-ministro não me é propriamente simpático, já toda a gente sabe. Mas confesso que a nossa relação piora quando o oiço dirigir-se a jornalistas. No jornal da hora de almoço de hoje, na SIC, Bernardo Ferrão não lhe fez a vida fácil: as perguntas complicadas sucederam-se, como se espera de um jornalismo que vigia o poder. Em resposta, José Sócrates soltou um dos seus habituais “você queria era isto, você veio com a perguntinha, mas você queria era perguntar”, etc. Foi toda uma sucessão de você para aqui, você para ali, numa sucessão de más-criações em ritmo acelerado. Sempre fui ensinada de que não se tratam as pessoas por você, muito menos quem não tem qualquer intimidade connosco. O senhor, a senhora, com o devido respeito. Claro que José Sócrates não está propriamente sozinho neste (des)tratamento; o que é triste é que parece ser uma tendência em crescimento.

Nada disto é muito importante, mas é também por aqui que nos perdemos. Nos vocês cuspidos sobre quem nos interpela.

O descontrolo


cadernoelastico,

Pôr cobro a isto já é uma questão de higiene.

Depois do dinheiro que é do Estado, que é do PS, temos a versão crianças que estão na escola pública, crianças que são do PS e devem ser devidamente doutrinadas. A escola pública agora também serve para isto: ensinar às criancinhas que o PS tem senhores muitos bonzinhos que só pensam no bem das criancinhas, e que o PSD é um papão muito mau e feio.

Comentadores de bancada


cadernoelastico,

O Marcelo Rebelo de Sousa é um fenómeno fantástico. É o verdadeiro treinador de bancada, profissional do comentário sobre a acção dos outros. Não se chega à frente, não consta que tenha ganho eleições, mas está sempre muito activo. Eu faria isto, eu diria aquilo; o outro esteve mal, o outro não sabe o que faz. Ai, eu seria completamente diferente. Faz-me lembrar aquele anúncio da Sagres: eu ganhava ao PS com a minha avó e o cão às costas, ao pé coxinho, se possível até de olhos fechados. Mas nunca vou tentar, e assim ninguém me pode desmentir. Ah, aquela liderança não me ouve e dá-se mal. Pois.

Surpreendente


cadernoelastico,

“The Jews have lived an existence that is much harder than ours. There is nothing that compares to the Holocaust.”

 

Se me pedissem para identificar o autor da frase acima, eu nunca teria acertado. Jeffrey Goldberg, da The Atlantic, foi convidado para ir a Cuba conversar com Fidel Castro (sim, o verdadeiro) sobre um artigo que escreveu na revista sobre o Irão e Israel. A frase que cito é de Fidel, e o objectivo é pedagógico: explicar a Ahmadinejad a difícil história do anti-semitismo, o seu carácter excepcional face a todos os outros povos, e de como é preciso compreender os judeus para obter a paz. A entrevista é mesmo surpreendente, e acreditem que este é só um dos aspectos mais fascinantes. Castro está preocupado com o rumo dos acontecimentos no Médio Oriente, particularmente com a escalada para um eventual conflito aberto. O mais interessante é que, pesem embora as culpas do grande Satã americano e do seu aliado regional, Israel, Castro aponta baterias ao Irão, denunciando a ignorância destes em relação ao problema judaico de insegurança. E claro, reconhece o direito inequívoco de existência de Israel. É a reinvenção do mito, aos 84 anos.

Romenos


cadernoelastico,

Sobre cidadãos romenos, um dado interessante, que pode explicar alguma coisa (em particular, a inacção do governo romeno face à significativa diáspora romena):

 

“The emigration of 2-3 million Romanians to other EU states mainly since 2000 has provided an important safety-valve preventing frustrations with a disorderly political system spilling over into unrest. Other emigration opportunities and membership of a stabilising entity like the EU are likely to reduce the likelihood of serious instability.”

Tom Gallagher & Viorel Andrievici, “Semi-presidentialism in Romania”. In Elgie and Moestrup, 2008.

A guerra civil


cadernoelastico,

Até 21 de Agosto, já havia 460 mortos nas estradas portuguesas, desde 1 de Janeiro (vejam os dados da sinistralidade aqui – e lembrem-se da polémica sobre os feridos que morrem no hospital e já não contam para as estatísticas). No final do ano, o MAI vai com certeza dizer que os números são positivos, há menos mortos e feridos graves que em anos anteriores. E é aí que me apetece bater-lhes: é evidente que os números iam baixar, tendo em conta a proporção de auto-estradas, com piso em condições, com menos curvas. Mas caramba! Num país literalmente revestido a estradas de luxo, é anormal ter esta quantidade de mortos e feridos. É anormal termos gente que não abranda quando chove ou há nevoeiro; é anormal termos gente que acha que só pode conduzir se conseguir ver o branco dos olhos do condutor da frente; é anormal termos gente que não sabe andar dentro das velocidades máximas. E é anormal que um qualquer ministério se dê por contente com esta guerra civil. Perdemos, em média, duas pessoas por dia na estrada. E continuamos num qualquer “bom caminho”. Sem qualquer política de prevenção (as estradas estão feitas; falta arranjar portugueses a saber as regras de condução em segurança), sem qualquer endurecimento da repressão policial sobre quem põe em risco a vida de outros. Como se esta mortandade não fosse nada.

República das Bananas


cadernoelastico,

O Ministro da Defesa português está apostado em rebentar com toda e qualquer missão que o Estado português tenha no estrangeiro. Parece-me mesmo que esta entrevista devia ser completada com a lista completa dos espiões referidos, junto com os respectivos currículos e fotografias. É que avisar meses antes de uma operação secreta não é suficiente. É melhor dar mais uma ajudinha, a ver se o Estado perde mais uns assalariados. E é sempre bom quando é o próprio ministro quem põe em risco as vidas de portugueses em missão.

Só para confirmar


cadernoelastico,

Aqueles juízes que deixam os pirómanos ir em liberdade (ou dias livres, ou lá como se chama) fazem parte dos 97% avaliados com muito bom pelo Conselho Superior da Magistratura? Ah, as delícias da avaliação pelos pares. Nos meus tempos de escola, chamava-se a isso a hetero-avaliação. O processo era curioso: na última aula do período, o professor perguntava ao menino X que nota achava que merecia. Conforme a modéstia ou imodéstia, ele lá respondia. De seguida, todos os colegas defendiam o direito do menino X a um ou dois valores acima, numa escala de 1 a 5, ou uns 5 a 10, na escala de vinte. Refira-se que este singular processo era considerado um instrumento muito importante na avaliação.

Casamentos em flor


cadernoelastico,

Em plena época de casamentos, dou por mim a pensar no absurdo de tudo isto. Não há-de existir muita igrejinha por esse país fora que escape aos casamentos de Verão. Noiva que é noiva tem de desfilar pela igreja fora, com uma grande cauda, e o povo todo a assistir. Noiva que é noiva tem de ter fotografias à porta da igreja, com arroz e tudo o mais. Tudo muito lindo, perfeitamente abençoado pelo Senhor. Agora vamos raspar esta superfície, e ver o que está por trás do quadro, e em muitos dos casos (sou testemunha de alguns), temos a situação mais confrangedora de todas, que é o silêncio absoluto na parte em que a assembleia deve participar, o padre a dizer – aos noivos também, claro está – quando é suposto levantar ou sentar, e a imensa multidão cá fora a fumar e tagarelar.

Há dias, uma amiga protestante escrevia no blogue dela que, nos dias de hoje, ser coerente é ser, aos olhos dos outros, fundamentalista. Ela concluía com um assertivo seja. A Igreja católica há muito que gosta de massas. É bom ter igrejas cheias, e números confortáveis de crentes (mais baptizados que crentes, mas são as estatísticas que temos). No tempo de João Paulo II, o que interessava era chegar a todo o lado, ser simpático (no sentido de criar empatia) com todos. E lentamente foi escorregando nas concessões, aceitando tudo e todos. Muito honestamente, já pensei que era esse o caminho. Aliás, tenho sobretudo dúvidas a este respeito, mas parece-me que a lógica subjacente à questão pode ser comparada à dos partidos: um catch-all (um partido centrão, estilo PS e PSD) abrange todo o centro, e ainda mais uma franja à esquerda e outra à direita. Mas, na verdade, são poucos os que militam nesse partido, e por vezes até tendem a abster-se e a ser voláteis no voto (perdoem a comparação, são defeitos de oficio). Suponho, pelo que leio, que Bento XVI tem outra abordagem: poucos, mas bons. Ou seja: podemos não ter igrejas repletas, nem casamentos a cada fim-de-semana do estio, mas o que temos é convicto, e está consciente do passo que está a dar. De novo, o que tenho mais dúvidas: alguém quereria uma igreja tipo PC?