Em plena época de casamentos, dou por mim a pensar no absurdo de tudo isto. Não há-de existir muita igrejinha por esse país fora que escape aos casamentos de Verão. Noiva que é noiva tem de desfilar pela igreja fora, com uma grande cauda, e o povo todo a assistir. Noiva que é noiva tem de ter fotografias à porta da igreja, com arroz e tudo o mais. Tudo muito lindo, perfeitamente abençoado pelo Senhor. Agora vamos raspar esta superfície, e ver o que está por trás do quadro, e em muitos dos casos (sou testemunha de alguns), temos a situação mais confrangedora de todas, que é o silêncio absoluto na parte em que a assembleia deve participar, o padre a dizer – aos noivos também, claro está – quando é suposto levantar ou sentar, e a imensa multidão cá fora a fumar e tagarelar.
Há dias, uma amiga protestante escrevia no blogue dela que, nos dias de hoje, ser coerente é ser, aos olhos dos outros, fundamentalista. Ela concluía com um assertivo seja. A Igreja católica há muito que gosta de massas. É bom ter igrejas cheias, e números confortáveis de crentes (mais baptizados que crentes, mas são as estatísticas que temos). No tempo de João Paulo II, o que interessava era chegar a todo o lado, ser simpático (no sentido de criar empatia) com todos. E lentamente foi escorregando nas concessões, aceitando tudo e todos. Muito honestamente, já pensei que era esse o caminho. Aliás, tenho sobretudo dúvidas a este respeito, mas parece-me que a lógica subjacente à questão pode ser comparada à dos partidos: um catch-all (um partido centrão, estilo PS e PSD) abrange todo o centro, e ainda mais uma franja à esquerda e outra à direita. Mas, na verdade, são poucos os que militam nesse partido, e por vezes até tendem a abster-se e a ser voláteis no voto (perdoem a comparação, são defeitos de oficio). Suponho, pelo que leio, que Bento XVI tem outra abordagem: poucos, mas bons. Ou seja: podemos não ter igrejas repletas, nem casamentos a cada fim-de-semana do estio, mas o que temos é convicto, e está consciente do passo que está a dar. De novo, o que tenho mais dúvidas: alguém quereria uma igreja tipo PC?

Tenho apenas a dizer que há a opção de casamento civil sem cauda e sem igreja.
Se o objectivo é casar em Igreja, não interessa se a Igreja segue um princípio do poucos mas bons, e sim o que está dentro de cada um dos que vai casar em Igreja.
Papas, cardeais, bispos mudam. Ideias sobre casamentos também. O que interessa é saber que rumo dar e se esse rumo passa pelo casamento em Comunidade Cristã ou no papel para o estado.
Mas é essa a questão. O que leva as pessoas a casar pela igreja?
Há alturas em que o casamento pela Igreja Católica tem sentido mas pode deixar de o ter. Quanto ao resto, é reflexo dos tempos, o que importa é ostentar, quanto mais melhor e, claro, que o casamento católico tem geralmente outro impacto junto dos participantes. Não partilho contigo essa visão de que a Igreja Católica quer acolher todos. Pode ser uma visão muito redutora, falo da realidade que conheço aqui. É uma verdadeira prova de fogo ter de ultrapassar os entraves e só uma dose de paciência inacreditável é que consegue suportar a pobreza dos discursos dos responsáveis pelos CPMs e afins.
Eu poderia explicar, de uma forma muito simples.
É a união sacramental entre um homem e uma mulher, que por amor e com muita fé, querem ver o seu sentimento abençoado por Deus.
Não separe o homem o que Deus uniu, ainda tem muitos seguidores e pessoas profundamente crentes neste sacramento.
Concordemos ou não, a fé não se explica. Aliás, muitas vezes ela não existe a não ser quando nos sentimos desesperados no leito da morte ou quando nada mais nos resta para nos agarrar. Tem explicação?
Se há quem o faça por ostentação, há com certeza. Mas não generalizem, porque há quem o faça somente com fé e amor.
Já vi casamentos lindíssimos, que contrariam tudo o que li por aqui: a cerimónia na igreja foi, variadíssimas vezes, fantástica. O resto, foi o resto, igual a todos.
Mas a união dos noivos e dos presentes na igreja, a comunhão e a participação que se viveu, sentia-se e essa não se esbate facilmente.
Muitos, para não dizer a maioria, dos casamentos pela Igreja não são para selar um acto/compromisso perante Deus, mas para ‘ser bonito’, ter muita pompa e sobretudo para fazer a vontade dos pais, padrinhos e etc.etc.
Quanto aos convidados o que conta é o ‘comes e bebes’ e umas danças já com ‘uns grãos nas asas’.
É a vida!
A comparação com a politiquice está excelente.
Também tenho essa ideia, do “fazer a vontade”. E acho grave.
E para muitos outros é Amor e Fé. E como deves saber, o Amor e a Fé não se explicam.
E voltei para dar mais uma achega na ostentação que acho absolutamente deplorável. O que vejo é que as pessoas se preocupam mais com a indumentária dos convidados do que propriamente com a sua presença. Não entendo. A indicação da indumentária nos convites é sinal disso. Afinal, se se tem de vestir o que os noivos exigem está a valorizar-se mais uma vez a impressão que se causa e não o fundamental, que as pessoas que nos são importantes estejam presentes num passo importante das nossas vidas.