Idolatrado ditador


Pedro Correia,

 

Comandante. Ex-presidente. “Rebelde” desde criança. “Ditador”, com aspas. Em grande actividade pública. Com energia impensável. Coroada com a sua presença no Parlamento. Obcecado em alertar contra o risco de uma guerra nuclear. Derrotou Batista, ditador sem aspas.

Fidel Castro continua a ser retratado desta forma por olhares só na aparência isentos. Fazem-me lembrar uma fabulosa frase de Millôr Fernandes: “Jamais diga uma mentira que não possa provar.”

Nestas coisas há que ter um mínimo de memória para evitar escrever disparates em excesso. O “comandante” que agora surge tão preocupado com a “guerra nuclear” foi o mesmo que em plena crise dos mísseis em Outubro de 1962 – que pôs o mundo à beira da III Guerra Mundial – escreveu ao então líder soviético, Nikita Kruchtchov, dizendo-lhe que se os americanos invadissem Cuba Moscovo deveria retaliar lançando mísseis sobre os Estados Unidos, “ainda que a ilha desaparecesse do mapa”.

Sabe-se hoje qual foi a resposta lapidar de Kruchtchov: “Nós lutamos contra o imperialismo não para morrer mas para conseguir a vitória do comunismo.” Uma mensagem que enfureceu Castro, déspota sem aspas. Ao ponto de autorizar manifestações de rua em Havana onde se gritou: “Nikita, mariquita, lo que se da no se quita.”

São assim alguns auto-intitulados “libertadores do povo”, ainda tão venerados em certa escrita idolátrica dos nossos dias. O mínimo que lhes devemos chamar é ditadores. Sem aspas. A primeira linha de combate a qualquer tirania ocorre no vocabulário que escolhemos. E não há palavras inocentes neste combate.

15 comentários em “Idolatrado ditador”

    1. Que importa que Fidel fosse ditador (com ou sem aspas)? Quando os EUA entraram em guerra com o Iraque forjando relatórios, que importou o facto de Bush ser eleito democraticamente (o que poderia também ser contestado dado os incidentes da Flórida).

      Este post é sintomático do vocabulário vazio empregue diariamente neste blog. Recorda-me que recentemente um dos seus autores escreveu que “democracia” é premissa de “crescimento económico”. Hoje têm aí as notícias sobre a China a prová-lo; China essa que recolhe bem mais simpatia que a irmã de partido único Cuba.

        1. Devo compor o que escrevi: não importa que seja ditador, no que toca à beligerância. Daí o exemplo dos democráticos EUA. De resto, não sei em que se apoia o Pedro Correia para dizer que apoio a ditadura cubana.

          1. Estou a condenar a beligerância, que é o que provoca o meu comentário. Condenar a beligerância é diferente de condenar a forma de governo dos estados. Pela sua lógica, devo condenar a democracia por causa das atitudes erradas dos EUA?

          2. A sua pergunta tem resposta: deve condenar o que achar errado. É fácil. Mas tem de lembrar-se do seguinte: em democracia, quem estiver errado pode ser destituído pacificamente. Ainda é mais fácil.

          3. Em democracia, quem estiver errado pode ser destituído pacificamente, sim, mas a posteriori, logo a beligerância é independente de haver ou não eleições (é isso que me estou a esforçar por demonstrar há alguns comentários). De resto, a vossa fé desmesurada no modelo democrático ocidental traduz-se em guerras criadas por uma máquina privada quer de indústria de armamento quer de segurança: vejam o caso da guerra do Iraque. E ela continua, apesar de a grande maioria da população (e a maioria dos que votaram em Obama) estar contra. Estou a perder qualquer coisa no meu raciocínio, ou é mesmo da traição da democracia que estou a falar?

  1. É sempre oportuno trazermos factos da história pois há muita gente com falta de memória ou, como diz o bom povo, “comem muito queijo”.
    O problema é que o bom queijo português, com uma fatia de pão centeio e 1 ou 2 copos do bom tinto, não faz mal a ninguém. Pelo contrário.
    Por isso, é sempre oportuno lembrar a resposta de Kruchtchov a “El Comandante” pois, além de ter batido com sapato na ONU, Nikita soube puxar as orelhas a Fidel.
    Pedro, vai lembrando estes e outros factos.
    Aquele abraço

  2. E que foi que disse que “a maior diferença entre a realidade e a ficção, é que a ficção deve fazer algum sentido”, Pedro?
    Também se aplica bem a este caso e ao de outros ídolos de pés de barro que se espalham pelo mundo.
    Só na América Latina há alguns óptimos exemplares.

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