Regressos


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I. Estive de férias por meio país. Comprovei mais uma vez o país de sonho que ainda temos, o gosto que algumas pessoas têm em fazer de Portugal uma experiência memorável. Praias, campo, montanha, aldeias, acolhimento – não é só a geografia a falar, é a gente que nela habita, que orgulha os 900 anos de história.

 

II. Mas Portugal deve sofrer de uma qualquer bipolaridade agravada. O mesmo país que oferece o melhor consegue irritar e envergonhar o mais plácido dos veraneantes. Fico sempre incomodada com o pouco amor de quem atira lixo para o chão, apesar dos caixotes, dos autarcas que permitem a construção aberrante, a chico-espertice de quem não está nem aí para os traços contínuos.

O problema constitucional


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Thus he (Immanuel Kant) kept away from all moralizing and understood that the problem was how to force man “to be a good citizen even if he is not a morally good person” and that “a good constitution is not to be expected from morality, but, conversely, a good moral condition of a people is to be expected under a good constitution”.

 

Hannah Arendt, Kant Lectures, página 17. Em grande medida, este é o nosso problema constitucional. Com e sem preâmbulos, simbólicos ou não.

Liberdades II


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Excerto de um diálogo entre o “libertador” Thomas Jefferson e o “traidor” Aaron Burr, no livro Burr, de Gore Vidal:

 

“I am convinced that what we need now are a few prosecutions of the most prominent and offensive editors. Such prosecutions would have a wholesome effect upon the rest.” (Jefferson)

“But surely the First Amendment protects their freedom…” (Burr)

“Is licentiousness freedom?”

“What is licentious to you may be truth to another.”

Liberdades


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I. A liberdade não é um valor acarinhado em Portugal. Muito pelo contrário. O respeitinho, o bom nome, a suave modorra são valores bem mais apreciados por quem não gosta de fazer escolhas. Um exemplo? A irracional felicidade que se viu um pouco por toda a parte com o fecho do 24 Horas. Ai aquilo não era jornalismo, ai aquilo era um pasquim, ai eu nunca olhei sequer para tal coisa. Regozijam-se por viver numa sociedade anémica, onde o pluralismo não tem espaço, e a liberdade para escolher o que ler também não. Às tantas, até era preferível um só jornal, sério, rigoroso, que tivesse manchetes de trânsito, e onde os nossos podres nunca teriam lugar. O jornal que revelou o caso Casa Pia não merece existir, os seus jornalistas deviam ter vergonha do seu quotidiano. E por aí fora. Todos contentinhos, num mundo cinzento sem espaço para poucas-vergonhas.

 

II. O fecho da Playboy por causa de uma produção fotográfica é mais um exemplo. Mau gosto? Talvez, mas o juízo estético deve caber a cada um. Sou eu que escolho não comprar a revista por, eventualmente, não gostar de a ler, ou considerar produções daquele género como provocações tontas. Mais uma vez, o valor predominante é o do respeitinho, em vez da responsabilidade do consumidor. Aplicando o mesmo critério, milhares de livros deveriam desaparecer. Eu não quereria viver num mundo desses, e faz-me confusão que tanta gente o pareça preferir.

Líderes


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Pedro, há uma coisa engraçada sobre a importância dos líderes, e que estudos de ciência política confirmam para seis democracias com diferentes sistemas eleitorais (Dinamarca, Alemanha, Reino Unido, Holanda, Noruega e Suécia). É que os líderes – isto é, as personalidades – são mais importantes para pessoas que previamente se identificam com um partido, do que propriamente para pessoas mais desinteressadas da política partidária. Num livrinho recente, Lauri Karvonen afirma que, ao contrário do que se pensa, os líderes não são mais importantes hoje do que no passado. Os líderes são sempre associados ao partido (Sócrates não é independente do PS, nem Passos Coelho do PSD). No entanto, para os eleitores desse partido, sim, são importantes, para o bem e para o mal. Eu só amo ou odeio o líder do meu partido.

Uma recomendação


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A ler, este artigo do Washington Post. Sobre ser pai e mãe, ser mulher nos dias de hoje. Que crianças estamos a criar, e que vida andamos a viver?

 

Helicopter parenting is, to put it mildly, more time-consuming and more emotionally demanding than other parenting styles. And much of its work falls (as the work of parenting always has) on women. Since 1965, the amount of time mothers spend on all child-care activities has risen, even though the majority of mothers are now in the labor force; the increase has been particularly sharp among highly educated mothers.

 

So it’s not just that today’s professional mothers are holding down what would, in the 1960s, have been two separate jobs — one inside the home, the other outside it. It’s that the first of those jobs is a lot more taxing than it used to be. Mothers who try to live up to the new parenting standards of the professional middle class seem to have few options: They can overwork themselves, or they can leave the workforce.

Contas simples


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Gosto muito da discussão sobre os maus da fita, que nos enfiaram no meio da crise. Vamos supor que eu ganho 1000 euros por mês (não chega a isso, mas ficamos com esta hipótese). Todos os meses, gasto 1100. Ao final do ano, a culpa das minhas dívidas é, evidentemente, da Comissão Europeia. Ou de Wall Street. Ou dos chineses. Minha é que não. Nunca.

Isto chateia-me


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Às vezes ouvimos coisas e nem ligamos. A informação entra, e não gera qualquer reacção. Até uns dias depois, em que do nada surge essa mesma informação a outra luz. Foi o que me aconteceu em relação a um aspecto do Mundial, e incomodou-me bastante. A selecção portuguesa está acompanhada de GNR, lá na África do Sul. Eu quero acreditar que a Federação Portuguesa de Futebol está a pagar o aluguer das forças de segurança, tal como os bancos costumam, bem ou mal, fazer. É que, assim de repente, nem a selecção representa o Estado português, nem a GNR tem assim tantos efectivos a não serem precisos noutro lado qualquer (por exemplo, em determinadas zonas do país em dia de distribuição de pensões). Por isso, vou acreditar com muita força, com muito pensamento positivo, como o primeiro-ministro recomenda, a ver se não tenho de ficar mais uma vez enojada.

Igualdades


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Estive ontem na apresentação desta colecção de ensaios, uma iniciativa a louvar da Fundação Francisco Manuel dos Santos, presidida por António Barreto. O objectivo é dar a conhecer a realidade portuguesa, de maneira objectiva e rigorosa, mas também de maneira clara e legível. Ou seja: levar a sociedade a pensar, depois de tantas desistências, com livros a preços acessíveis (3,5 euros).

Na apresentação do terceiro ensaio, Portugal: os números, houve uma ideia que me fez pensar. Já aqui falei dela, porque é um tema que me é caro: a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Neste pequeno livro, os autores resolveram realçar a evolução do estatuto das mulheres. Primeiro, que estudam mais (ensino secundário e superior); segundo, que trabalham mais (grandes taxas de inserção no mercado de trabalho); terceiro, que mantêm o papel tradicional de mães (mesmo em famílias monoparentais).

Confesso que tenho uma leitura diferente destes dados. Talvez por ter nascido já na década de 80, portanto tendo uma série de direitos básicos garantidos, não vejo tanto optimismo nem no segundo nem no terceiro facto apontados. O facto de quase toda a população activa feminina trabalhar quer dizer uma coisa não tão simpática: significa que somos uma sociedade tão pobre que poucas ou nenhumas mulheres podem escolher não trabalhar. Um salário não chega, é preciso que seja o casal a trabalhar a tempo inteiro. Contrariamente a outros países, símbolos da igualdade e emancipação, em Portugal poucos podem optar pela maternidade ou paternidade, tirar uma licença prolongada para estudar, etc. Não existe liberdade de escolha, determinada pelos fracos rendimentos.

O terceiro fala por si: ser mulher em Portugal ainda quer dizer que se trabalham por dia oito horas pagas, a que se somam outras tantas por pagar. A manutenção do que os autores chamaram de “papel tradicional” representa uma sociedade que anda a várias velocidades: a mulher autónoma que sai de casa de manhã no seu carro, para trabalhar e ganhar o seu dinheiro, é a mesma que ao fim do dia tem de fazer em poucas horas o que a sua mãe ou avó fazia ao longo de um dia inteiro. Sem poder tirar folga, sem poder falhar. Uma sociedade mais igualitária é uma sociedade em que esse tal papel tradicional foi partilhado, ou passou para o pai, se a mãe não quiser fazer essa escolha.

De tentação em tentação


cadernoelastico,

Aparentemente, o Estado português acha que conhece melhor as crianças portuguesas do que os seus próprios pais. Arroga-se a responsabilidade de lhes “ensinar” educação sexual, segunda a visão monopolista da Associação para o Planeamento da Família (aos olhos do ministério da Educação, a APF oferece uma visão “neutra”). São os materiais desta que vingam, e são as suas acções de formação que educam os professores, que depois instruem as crianças. Ou seja, o Estado impõe-se à visão das famílias, às escolhas que os pais fazem para as suas próprias crianças. De uma maneira absolutista, define que todas as crianças, dos 6 aos 16, devem ter educação sexual, disciplina obrigatória, com os conteúdos que a referida associação acha por bem veicular. Para nada interessam os ritmos naturais de crescimento, as perguntas que as crianças fazem em alturas diferentes, conforme o seu próprio crescimento. Para nada interessa que a neutralidade objectiva seja de facto um disparate, porque a educação pouco tem de objectivo, particularmente neste género de matérias. Não falamos só de biologia: falamos da proposta de juízos morais e visões sobre costumes a crianças que respeitam  o professor de matemática, português, etc., e que pouca capacidade tem para destrinçar o objectivo do subjectivo. É normal que os pais passem aos filhos os seus valores, os seus juízos morais; mais tarde, desenvolvidas as capacidades críticas, os adolescentes são livres de os questionar, aceitando ou rejeitando o que lhes foi proposto em casa. Mas o Estado não deve ter nada a ver com esse processo. Quando um Estado se imiscui na decisão da moralidade privada, começa o totalitarismo. Quando um Estado tenta formatar as respostas de bom/mau, há qualquer coisa de muito errado com a sociedade: “A minha vulva/o meu pénis está bem quentinha/o no centro do meu corpo, muito perto da barriga.”

Planeamento


cadernoelastico,

 

Confesso que me sobe o sangue a cabeça quando oiço falar em fechos de cuidados médicos e de escolas no interior. Percebo inteiramente os argumentos económicos, de racionalização de recursos num tempo em que estes estão particularmente escassos, mas discordo da maioria das medidas. Há pouco, a SIC noticiava que agora serão as escolas com menos de 20 alunos a fechar. Na complicada linguagem do Ministério da Educação, trata-se de mais um passo para a requalificação, modernização e reorganização (tenho a certeza de que ainda arranjavam mais um re-quaisquer).

Do ponto de vista pedagógico, é evidente que a diversidade e pluralidade são factores a valorizar. Do ponto de vista económico, ter menos escolas a funcionar, mas mais eficientes (menos funcionários/professores por aluno), também parece desejável. Falta, no entanto, um ponto de vista fundamental: o do país que queremos ter. E este, ao contrário do que nos querem impingir, é uma escolha. Assim, nós podemos escolher fechar todas essas escolas, a bem de um ensino mais barato. No entanto, temos de assumir as consequências dessa escolha: o êxodo rural passa a ser inevitável, para grande parte do interior, e a taxa de fertilidade pura e simplesmente desaparece em algumas zonas. Porquê? Simples: por que raio haveria um pai ou mãe de querer ter filhos num sítio onde a escola mais próxima fica a hora e meia de transportes públicos, por estradas velhas e com gelo? É que estamos a falar de fechar escolas em zonas onde as moderníssimas auto-estradas não chegam, nem sequer aparece o alcatrão necessário para remendar estradas com mais de 60 anos, zonas onde o progressista TGV e o novo aeroporto não entram nas conversas. Esse país, esse Portugal ainda tão parecido com 1950, ainda existe. E o governo – qualquer governo – tem a obrigação de governar também para esses portugueses. Fechar-lhes as poucas manifestações de administração central que têm não é a melhor maneira de manter o país habitado – agora já tão escassamente. Empurrar ainda mais esta gente para os subúrbios de Lisboa é a nossa escolha? Então que seja admitida; como já escrevi uma vez, construímos uma cerca à volta do interior e das zonas rurais e preocupamo-nos só com as Belavistas. É uma escolha.