I. A liberdade não é um valor acarinhado em Portugal. Muito pelo contrário. O respeitinho, o bom nome, a suave modorra são valores bem mais apreciados por quem não gosta de fazer escolhas. Um exemplo? A irracional felicidade que se viu um pouco por toda a parte com o fecho do 24 Horas. Ai aquilo não era jornalismo, ai aquilo era um pasquim, ai eu nunca olhei sequer para tal coisa. Regozijam-se por viver numa sociedade anémica, onde o pluralismo não tem espaço, e a liberdade para escolher o que ler também não. Às tantas, até era preferível um só jornal, sério, rigoroso, que tivesse manchetes de trânsito, e onde os nossos podres nunca teriam lugar. O jornal que revelou o caso Casa Pia não merece existir, os seus jornalistas deviam ter vergonha do seu quotidiano. E por aí fora. Todos contentinhos, num mundo cinzento sem espaço para poucas-vergonhas.
II. O fecho da Playboy por causa de uma produção fotográfica é mais um exemplo. Mau gosto? Talvez, mas o juízo estético deve caber a cada um. Sou eu que escolho não comprar a revista por, eventualmente, não gostar de a ler, ou considerar produções daquele género como provocações tontas. Mais uma vez, o valor predominante é o do respeitinho, em vez da responsabilidade do consumidor. Aplicando o mesmo critério, milhares de livros deveriam desaparecer. Eu não quereria viver num mundo desses, e faz-me confusão que tanta gente o pareça preferir.

Portugal deve ser o único país do mundo onde a ‘Playboy’ fecha por causa de uma capa. As tradições vão-se perdendo, também neste domínio.
Será o único dos que a abriram, dos que a podem ler/ver sem ser lapidado.
Cara Ana Margarida,
Subscrevendo no essencial aquilo que dizes, e bem, quanto à liberdade, não estou no entanto de acordo quanto aos exemplos que dás, já que esses não foram problemas de liberdade.
Quanto ao 24 Horas cultivou um estilo que ditou o seu fim e isso não tem rigorosamente nada que ver com a liberdade.
Quanto à Playboy também não foi um problema de liberdade. De mau gosto evidentemente, mas também de natureza comercial e contratual já que a revista portuguesa (muito fraquinha nalguns textos, ao contrário das congéneres, e com demasiadas parolas sem graça) é produzida sob licença. E quando as regras não são cumpridas ou a entidade licenciadora não gosta do que vê está no seu legítimo direito de resolver o contrato. A revista poderá continuar a ser produzida sob outro título.
Sérgio, a questão não é tanto a decisão comercial que levou ao encerramento das duas publicações (uma por não vender, outra por violação de regras). A minha questão é a reacção a esses fechos, que nada tem a ver com as razões “oficiais”. São os comentários paralelos que me enervam, e demonstram a pouca tolerância para com quem pensa diferente.
Com as reacções, concordo – aliás, discuti isso mesmo com alguns amigos, que se manifestaram bastante contentes com o desaparecimento do 24 Horas. Talvez alguém os obrigasse a ler o jornal, não sei.
Quanto ao caso da Playboy, acho que o Sérgio tem razão no essencial.
Eu não pertenço ao grupo dos que preferem viver num “mundo desses”. Mas também não gosto de viver num mundo onde qualquer imbecil desinformado, desonesto, invejoso, vingativo, jornalista, comentador, analista ou seja lá o que for, tenha acesso a púlpitos privilegiados como os jornais e, especialmente, a televisão. Desinformam, desestabilizam, “euforizam”, desanimam, atemorizam, mentem, ofendem, caluniam… tudo impunemente, à pala da liberdade.