Estive ontem na apresentação desta colecção de ensaios, uma iniciativa a louvar da Fundação Francisco Manuel dos Santos, presidida por António Barreto. O objectivo é dar a conhecer a realidade portuguesa, de maneira objectiva e rigorosa, mas também de maneira clara e legível. Ou seja: levar a sociedade a pensar, depois de tantas desistências, com livros a preços acessíveis (3,5 euros).
Na apresentação do terceiro ensaio, Portugal: os números, houve uma ideia que me fez pensar. Já aqui falei dela, porque é um tema que me é caro: a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. Neste pequeno livro, os autores resolveram realçar a evolução do estatuto das mulheres. Primeiro, que estudam mais (ensino secundário e superior); segundo, que trabalham mais (grandes taxas de inserção no mercado de trabalho); terceiro, que mantêm o papel tradicional de mães (mesmo em famílias monoparentais).
Confesso que tenho uma leitura diferente destes dados. Talvez por ter nascido já na década de 80, portanto tendo uma série de direitos básicos garantidos, não vejo tanto optimismo nem no segundo nem no terceiro facto apontados. O facto de quase toda a população activa feminina trabalhar quer dizer uma coisa não tão simpática: significa que somos uma sociedade tão pobre que poucas ou nenhumas mulheres podem escolher não trabalhar. Um salário não chega, é preciso que seja o casal a trabalhar a tempo inteiro. Contrariamente a outros países, símbolos da igualdade e emancipação, em Portugal poucos podem optar pela maternidade ou paternidade, tirar uma licença prolongada para estudar, etc. Não existe liberdade de escolha, determinada pelos fracos rendimentos.
O terceiro fala por si: ser mulher em Portugal ainda quer dizer que se trabalham por dia oito horas pagas, a que se somam outras tantas por pagar. A manutenção do que os autores chamaram de “papel tradicional” representa uma sociedade que anda a várias velocidades: a mulher autónoma que sai de casa de manhã no seu carro, para trabalhar e ganhar o seu dinheiro, é a mesma que ao fim do dia tem de fazer em poucas horas o que a sua mãe ou avó fazia ao longo de um dia inteiro. Sem poder tirar folga, sem poder falhar. Uma sociedade mais igualitária é uma sociedade em que esse tal papel tradicional foi partilhado, ou passou para o pai, se a mãe não quiser fazer essa escolha.

É uma reflexão que vem sempre a propósito, Ana. O país “moderno”, da propaganda, coexiste com o país antigo, como acentuas, no pior sentido do termo. Não admira, também por isso, que a natalidade esteja em regressão acelerada em Portugal. O que, como alguns só agora começam a perceber, ameaça arrasar a prazo o estado social tal como o concebemos.
Completamente de acordo. Acumular funções não por opção mas por necessidade e muitas vezes sem qualquer apoio doméstico não é a minha ideia de emancipação feminina.