Planeamento


cadernoelastico,

 

Confesso que me sobe o sangue a cabeça quando oiço falar em fechos de cuidados médicos e de escolas no interior. Percebo inteiramente os argumentos económicos, de racionalização de recursos num tempo em que estes estão particularmente escassos, mas discordo da maioria das medidas. Há pouco, a SIC noticiava que agora serão as escolas com menos de 20 alunos a fechar. Na complicada linguagem do Ministério da Educação, trata-se de mais um passo para a requalificação, modernização e reorganização (tenho a certeza de que ainda arranjavam mais um re-quaisquer).

Do ponto de vista pedagógico, é evidente que a diversidade e pluralidade são factores a valorizar. Do ponto de vista económico, ter menos escolas a funcionar, mas mais eficientes (menos funcionários/professores por aluno), também parece desejável. Falta, no entanto, um ponto de vista fundamental: o do país que queremos ter. E este, ao contrário do que nos querem impingir, é uma escolha. Assim, nós podemos escolher fechar todas essas escolas, a bem de um ensino mais barato. No entanto, temos de assumir as consequências dessa escolha: o êxodo rural passa a ser inevitável, para grande parte do interior, e a taxa de fertilidade pura e simplesmente desaparece em algumas zonas. Porquê? Simples: por que raio haveria um pai ou mãe de querer ter filhos num sítio onde a escola mais próxima fica a hora e meia de transportes públicos, por estradas velhas e com gelo? É que estamos a falar de fechar escolas em zonas onde as moderníssimas auto-estradas não chegam, nem sequer aparece o alcatrão necessário para remendar estradas com mais de 60 anos, zonas onde o progressista TGV e o novo aeroporto não entram nas conversas. Esse país, esse Portugal ainda tão parecido com 1950, ainda existe. E o governo – qualquer governo – tem a obrigação de governar também para esses portugueses. Fechar-lhes as poucas manifestações de administração central que têm não é a melhor maneira de manter o país habitado – agora já tão escassamente. Empurrar ainda mais esta gente para os subúrbios de Lisboa é a nossa escolha? Então que seja admitida; como já escrevi uma vez, construímos uma cerca à volta do interior e das zonas rurais e preocupamo-nos só com as Belavistas. É uma escolha.

19 comentários em “Planeamento”

  1. A isto, chama-se centralismo. Eu sou do distrito da Guarda, onde há aldeias com 6 habitantes. Escolas? Já houve, estão agora fechadas…

    Quanto menos condições derem às pessoas do interior, mais elas vão fugir. Para onde? Para as áreas metropolitanas. E o que acontece? Pioram as condições destas.

    É por isto que eu concordo com a regionalização. Iria solucionar os problemas no interior? Provavelmente não, mas ia pelo menos abrandar a centralização que hoje se verifica. É a nossa (do interior) melhor esperança…

    1. A regionalização não me parece de todo a melhor das soluções. Penso que contribuiria ainda mais para o incentivar de interesses instalados, desta vez, regionais e locais, num país que vive de compadrios. Mais adequado seria porventura desenvolver esforços sérios e coerentes de descentralização (contrariando as políticas do nosso governo).

  2. Considero o seu post bastante pertinente e oportuno. Há uns dias pensando acerca deste assunto cheguei à evidente conclusão, e porventura disparatada aos olhos de muitos, de que o exercício de funções como político, deputado, governante deveria estar dependente da prévia frequência e subsequente aprovação em estágio profissional cujo conteúdo seria constituído tão-só pelo descer ao Portugal rural e por lá passar uns longos meses; e isto com o único objectivo de sensibilização superficial para os problemas, limitações e dificuldades vividas em muitas dessas zonas (ausência de água potável, de eletricidade, de internet, telemóveis que deixam de funcionar a cada movimento ou simplesmente não funcionam, estradas poeirentas desgastadas pelo tempo, serviços de saúde que obrigam a heróicas deslocações – para 15m de consulta – que se prolongam por um dia, escolas que deixam de funcionar, hospitais fechados – em locais onde são construídos hospitais privados…). O fosso entre o Portugal urbano e o Portugal rural é imenso.
    Não sei…mas de repente pareceu-me que poderia ser uma experiência proveitosa…

  3. Eu sou de Elvas.
    A cidade perde população há mais de 30 anos; nos anos 60 tinha cerca de 30 mil habitantes, hoje restam pouco mais de 20 mil. Da minha turma de 12º ano, éramos 22 ou 23, só meia dúzia por cá ficaram (eu também fui dos que partiu). É fácil perceber porquê, basta ver a lista de instituições que encerram nos últimos anos: Maternidade, Regimento de Infantaria, Centro de Reinserção Social, Gabinete de Apoio Técnico, Tribunal Militar, Portugal Telecom, EDP, etc. E claro as escolas mais pequenas…

  4. Portanto a Ana Margarida considera que o Estado deve financiar escolas de má qualidade, maternidades inseguras e serviços médicos de urgência que são um logro, para que as pessoas, enganadas com tudo isso, decidam permanecer no país rural e ter muitos filhos.

    A Ana Margarida acha que as pessoas, estúpidas, acreditando que têm uma boa escola à sua disposição, quando na verdade têm uma professora sozinha para dar aulas simultâneamente a meninos de quatro classes, se vão pôr a produzir filhos, coisa que jamais fariam se tivessem uma escola boa a 15 km de autocarro.

    E a Ana Margarida acha que todos nós devemos pagar esse logro para estúpidos.

    1. O estado, se pudesse, “fechava” todo o país do interior e deixava só a faixa litoral. Era mais fácil governar assim e obtinha até o aplauso de “liberais sociais” como o Lavoura. Seja lá o que isso for.

      1. Nem mais Pedro.
        Sabe é que nós aqui no Alentejo somos uns preguiçosos do catano, gostamos é de dormir sestas, portanto só servimos para pagar impostos. Menos mal que lá fora já trabalhamos. Deve ser da mudança de ares.

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