O parlamento anunciou hoje um corte grande nas suas despesas. Mesmo descontando o facto de o próximo ano ser mais barato por não ter eleições (é o parlamento que paga as subvenções), o corte parece ser a eito, reconhecendo uma série de gastos exagerados que podiam ser evitados: gasolina, prendas, limpezas, etc.
Há uma rubrica que me interessa particularmente, a chamada “estudos, pareceres, projectos e consultadoria”. Segundo o Diário Económico, “em “estudos, pareceres, projectos e consultadoria” serão gastos 335 mil euros, contra os 754 mil euros dispendidos em 2011 (menos 55,5%).” Ora, esta rubrica podia – e devia – ainda ser mais reduzida. E há uma rubrica que devia ser aumentada: a dos funcionários parlamentares. Explico-me: aquela rubrica significa que o parlamento (os deputados, portanto) encomendam estudos a entidades exteriores, para fundamentar a sua actividade de legislação e fiscalização do poder executivo. Isto leva a problemas graves de incompatibilidades, de que já falei antes: se eu encomendo um estudo sobre uma determinada iniciativa legislativa a uma sociedade de advogados, essa sociedade estará, desde logo, em vantagem em questões futuras relacionadas com essa mesma lei. A imparcialidade da própria lei pode não estar garantida. Quem diz advogados, pode dizer outras incompatibilidades com diferentes áreas de negócios em que são pedidas análises. Aliás, este é um ponto fundamental em qualquer discussão sobre corrupção e falta de transparência em Portugal.
A solução é relativamente simples: investir em funcionários parlamentares. O parlamento deveria ter um corpo sólido e bem formado de funcionários independentes, que respondem às requisições dos deputados em tempo útil, participando dos trabalhos das diversas comissões. É o caso, por exemplo, da Islândia, onde o parlamento conta com economistas, juristas e cientistas políticos para auxiliar os deputados nas suas funções. Se isto custa dinheiro? Claro que sim, implica mais salários. Mas acham mesmo que os salários deste corpo independente seria mais alto que os valores pagos por pareceres e consultas externas?