1. Uma das principais características das instituições políticas democráticas é a previsibilidade. A confiança no rumo corrente da actividade política é o cimento que mantém a ordem, estruturada por regras. Essas regras resultam de negociações, de impasses resolvidos por soluções mínimas comuns. O que o primeiro ministro grego fez foi, pura e simplesmente, violar essa previsibilidade e confiança. Depois de negociar com os restantes chefes de governo e organizações, optou por uma via completamente diferente sem avisar. Escolheu-a unilateralmente, depois de um complicado processo multilateral que tinha culminado num acordo. As consequências financeiras disto são o que se vê; mas as consequências políticas são ainda mais sérias. Destruída a confiança, dificilmente se volta a uma negociação verdadeira.
2. Há várias formas de democracia. Todas têm vantagens e desvantagens, nenhuma é mais ou menos democrática. Eu, pessoalmente, prefiro a forma representativa, em que delegamos o poder soberano nos nossos representantes, eleitos directamente. Há quem prefira a via mais directa, dos referendos e plebiscitos. Agora, resta assumir as consequências dessa busca da vontade popular permanente.

Cara Ana Margarida,
Certíssima a sua análise, apenas peca por um “pequeno” erro relativamente ao ponto de partida: “confiança” é coisa que já não existe há muito tempo entre as partes negociais no processo grego. Nem os alemães, ou franceses, se quiser, olham para os gregos como iguais, nem os gregos confiam na bondade da “ajuda” multilateral.
O que o Primeiro Ministro grego fez, foi apenas política, elevando a parada, depois das humilhações públicas e reiteradas a que tem sido sujeito em todas as cimeiras internacionais.
Vejo a coisa de outra forma. A previsibilidade, enquanto indicador da qualidade de uma democracia, aplica-se especialmente aos seus cidadaos, muito antes de qualquer instância internacional. Os cidadãos, tendo votado num determinado partido com um determinado programa, têm o direito de esperar que esse partido governe efetivamente nessa direção (os portugueses teriam portanto o direito de esperar que políticos que foram eleitos prometendo não aumentar os impostos, não aumentassem os impostos, por exemplo). No caso da Grécia, Papandreou assinou sucessivamente acordos que mudaram a totalidade da vida política e económica grega sem que os gregos tivessem oportunidade de fazer parte dessas escolhas. Do ponto de vista único da previsibilade como a entendemos ao defini-la como indicador, ele só tinha duas hipóteses: demitir-se ou fazer um referendo.