Ainda a propósito de DSK


cadernoelastico,

Por causa deste texto da Carla, pensei mais um bocado no assunto. A questão do silêncio dos media durante este tempo todo, havendo relatos em primeira mão de abusos de DSK, incomoda-me bastante.

 

No Reino Unido, um futebolista teve um affair extra-conjugal com uma modelo. Um jornal ia publicar o “caso”, com nomes, mas não chegou a fazê-lo, porque o futebolista interpôs uma providência cautelar. O jornal pode publicar a notícia sobre um affair, mas sem mencionar o nome do futebolista em causa. Como os homens nunca se comportam como santos, o nome rapidamente se espalhou pela internet, estando agora o tribunal numa posição dúbia: toda a gente sabe quem é o futebolista em causa, mas ninguém o pode escrever num jornal, apesar de um deputado ter nomeado esse futebolista em plena sessão parlamentar.

 

Em França, um político poderoso tinha por hábito fazer comentários lascivos às mulheres com quem privava, colaboradoras ou jornalistas. Falava-se que o referido político até teria ido mais longe que isso, com abusos físicos de cariz sexual, raiando a tentativa de violação, mas o caso poucas vezes transpareceu nos jornais. A perspectiva da comunicação social reflectia a cultura política francesa: abusos ou não (de poder, físicos ou psicológicos), são questões do foro privado. Aliás, as histórias contadas sem grandes pormenores até aumentavam a fama do político: um mulherengo, um sedutor, alguém a invejar.

 

São duas perspectivas radicalmente opostas de comunicação social. Numa, a liberdade de informação é um valor quase absoluto, independentemente da relevância do conteúdo, independentemente das consequências que esse porventura irrelevante conteúdo possa ter. Noutra, a falta de transparência impera, a comunicação social serve o poder e as vontades dos seus políticos, independentemente de estar a encobrir crimes e das consequências que esse encobrimento possa ter para futuras vítimas. A nenhuma ocorre que no meio talvez resida alguma virtude esquecida, a do bom senso. 

 

*By the way, não quero nem vou entrar na discussão da presunção de inocência. Por norma, confio nas instituições (é, sou uma tola), mas não é sobre isso o meu texto.

Um comentário em “Ainda a propósito de DSK”

  1. Texto límpido e esclarecedor.
    Nas reservas, para bom entendedor meia palavra basta.
    De facto a “comunicação social” deixa muito a desejar. A cumplicidade entre poderes é sobejamente conhecida, com a gravidade de quantitativamente ser quase infinita.

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