24 de Maio
“XXII.
Lélio: — “Falas admiravelmente, e já adivinho o objecto que se propõe teu discurso.”
Cipião: — “Vês, pois, que, onde tudo está sob o poder de uma facção, não se pode dizer que existe República.”
Lélio: — “Assim o julgo, francamente.”
Cipião: — “E julgas bem. Que foi de Atenas quando, depois daquela grande guerra do Peloponeso, se lhe impuseram tantos chefes pela força? A vetusta glória da cidade, o pomposo aspecto dos seus edifícios, o seu teatro, os seus ginásios, os seus pórticos, os mosaicos célebres dos seus pavimentos, a sua cidadela, as obras de Fídias, o magnífico porto do Pireu, bastavam para fazer de Atenas uma República?”
Lélio: — “Não, certamente, porque nada, ali, era do povo.”
Cipião: — “E quando os decênviros em Roma, mandando sem apelação, chegaram a ferir a liberdade de morte?”
Lélio: — “A coisa do povo já não existia, e breve este lutou para recuperá-la.”
Cícero, Da República, Livro III
Gosto sempre de regressar a Cícero. Como de outras vezes faço com Aristóteles ou Alberoni. Nem que seja só por apenas alguns instantes. Os tempos que atravessamos isso mesmo me exigem. Sanidade o impõe. Sei que esta é uma outra época, mas salvaguardadas as distâncias não há nada que não tenha acontecido já.
Da República é uma obra notável. Pela forma como flui a exposição de Cipião e vamos acompanhando as perguntas colocadas pelos seus interlocutores. Pelo modo como são passadas em revista as diversas formas de governo e Cícero, pela voz de Cipião, vai discorrendo sobre elas, construindo a narrativa com recurso aos exemplos que lhe chegaram, comentando Platão e Aristóteles, analisando a fundação de Roma e o génio de Rómulo. Enfim, transportando-nos até uma outra dimensão da filosofia e da ciência política (enquanto leio Cícero não oiço o Miguel Relvas nem vejo o Paulo Campos).
O Livro Quinto começa com uma citação de um frase notável de Énio – “Se Roma existe é por seus homens e seus hábitos” –, que é depois utilizada para demonstrar a razão pela qual, entretanto, se perdeu uma República que tendo sido recebida dos seus antepassados “como uma pintura insigne, em que o tempo começara a apagar as cores”, em vez de ser devidamente restaurada pelos seus contemporâneos, foi por estes remetida para a penúria pela ruína dos costumes. E esse, como ele escreveu, é “um mal que foge ao alcance da nossa inteligência, mas pelo qual somos responsáveis como por um crime capital”, visto que foram os nossos vícios, e não outros, que permitiram que conservássemos o nome da República mesmo depois de a termos perdido por completo.
E, um pouco mais adiante, ele explica por que razão há cidades que florescem e outras não. É que naquelas, nas que florescem, “os melhores fogem da ignomínia e do menosprezo, procurando a estima e o elogio de seus concidadãos”, razão que leva a que o político hábil procure fortificar esse instinto com “a opinião, com as instituições, com os costumes, para que a consciência do dever seja, antes que o temor, um poderoso freio”.
O facto de termos chegado até aqui nas circunstâncias em que o fizemos, amparados pelo FMI, a União Europeia e o Banco Central Europeu são motivo de preocupação para todos. Preocupação que será tanto maior quanto em cada dia que passa se torna mais nítido que o nosso destino está nas mãos, não dos homens, não dos candidatos, mas das empresas de sondagens. Na nossa democracia, nesta nossa República, o voto arrisca-se a ser uma mera extensão das empresas de sondagens.
Não sei qual foi o caso do dia. Ou os casos, já que eles florescem como papoilas. Aqui escondo-me do sol e do calor e não me chegam os megafones estridentes nem as lengalengas enjoativas dos carros da propaganda. Só o ar condicionado corta a modorra.
Às vezes penso que no estado em que estamos só faz sentido votar no homem do bombo. Ou no do turbante amarelo. Quer um quer o outro são genuínos. Um é feito de tripa. O outro de algodão. Naturais, portanto.
Trocam-se acusações. Num vídeo fazem uma dobragem e transportam Alberto João Jardim para o III Reich. Põem-no a discursar em Berlim. Noutro, um grupo de anormais pontapeia e insulta uma rapariga enquanto outros filmam e riem-se alarvemente. Um dos candidatos às eleições de 5 de Junho é comparado por um ex-ministro a Saddam Hussein e num jornal sai uma foto desse candidato numa pose hitleriana. Enquanto isso todos aguardamos pelos nomes e cargos dos que foram promovidos pelo governo de gestão.
“Não há paz, não há felicidade possível, sem uma sábia e bem organizada República”.
Se se lesse Cícero nas escolas, na escola pública, não estaríamos assim.
O Presidente desta República nunca deve ter lido Cícero. Ele é mais de investimentos, acções, taxas de inflação e estatísticas. Parece que também percebe alguma coisa de agricultura. Tem umas laranjas e até já recebeu um título dos jovens agricultores. Quanto aos outros, a avaliar pelos assessores que os passeiam e empurram por esse país fora e pela maioria dos cabeças de lista que escolheram, duvido que ao menos saibam quem foi Cícero. Também não será preciso. Já não iriam a tempo. Nesta altura, como dizia Cipião, temos cada vez mais a certeza de que já nem o povo pertence ao povo.

Excelente momento de deleite, com uma fantástica combinação entre o mais clássico dos clássicos e as agruras da nossa realidade actual.
O meu obrigado por esta agradável viagem intemporal.