A aliança mais rápida de sempre


cadernoelastico,

Aquela espécie de Bloco Central informal desfez-se umas 24 horas depois. As notícias sobre o entendimento das gravatas lisas foram manifestamente exageradas.

Agora fora de brincadeiras: acho muito bem que Passos Coelho mande José Sócrates dar uma volta ao bilhar grande. O entendimento do PSD, enquanto partido de centro-direita, não pode passar por mais socialismo. Foi isso, em parte, que nos meteu nesta embrulhada, e o PSD não pode, nem deve, pactuar com uma solução que, afinal, é parte do problema. Quanto a mais negociações, é como o povo diz: à primeira todos caem, à segunda só quem quer. Qualquer futuro entendimento tem de ter um caderno de encargos e linhas vermelhas bem explícitas por parte do PSD.

Um dia de notícias graves


cadernoelastico,

 

Para quem ainda não o fez, se calhar já era tempo de cortar aos pedacinhos aqueles cartões que tanto jeito dão a evitar pensar no presente. É que o futuro está negro, e, se o Estado passa relativamente bem sem comida nem tecto, nós os privados ainda temos necessidades básicas. Tão importante quanto um PEC e OE rectificativo é a nossa atitude, nas nossas economias privadas: cortar e poupar.

Pensamentos rápidos


cadernoelastico,

Não sou jurista, nem li o acórdão. Ouvi, como todos, a versão jornalística sobre a absolvição de Domingos Névoa. E, naturalmente, fiquei chocada. A ser exactamente verdade aquilo que foi dito, confirma-se que em Portugal a corrupção não é crime. Ou antes, é um crime impossível de condenar, porque por mais boa vontade que a classe política até possa ter na sua função legislativa, esbarra contra juízes pouco interessados na verdade dos factos. O que mais me choca é a incapacidade deste juiz de perceber o alcance desta decisão: a partir daquela absolvição, qualquer eventual corruptor ganhou um jail-free card. E qualquer comissão anti-corrupção viu os seus esforços cair por terra.

Já dizia o outro


cadernoelastico,

A propósito da não-jurisprudência que o caso de Maria* Inês de Medeiros faz, só me ocorre pensar que os deputados são todos iguais, mas há uns bem mais iguais do que os outros.

 

*Corrigido por simpático aviso, o lapso deve ser por já estar a antecipar os Capitães de Abril no fim-de-semana.

 

A falta de hospitalidade


cadernoelastico,

Vaclav Klaus comportou-se pessimamente, naquela cerimónia com Cavaco Silva. Imaginem que tenho uma amiga endividada até ao pescoço. Sei perfeitamente que ela estoirou o cartão de crédito, e é uma perfeita irresponsável. Eu sei disso, mas, felizmente, a vida em sociedade não é regida pela sinceridade impulsiva. Se a convido para minha casa, trato-a bem. Em minha casa, tenho o dever da hospitalidade. Caso contrário, não valia a pena convidar. Simples, certo? Pelos vistos, o presidente da República Checa pode ter imensas virtudes, que as tem, mas a educação não é uma delas. A sinceridade, caros leitores, não é sempre uma virtude. E então a vergonha não está do lado de quem ouve as supostas “verdades” (não é isso que está em causa), mas de quem as profere.

O tempo


cadernoelastico,

 

Parece que este filme de 2007 (Frank Oz) já vai ter um remake, com Chris Rock e Martin Lawrence como estrelas. O cinema adere ao tempo em versão Twitter. Like, that was soooo 5 minutes ago!

É matá-los, é matá-los


cadernoelastico,

Sou uma rapariga pacífica. Pego nas aranhas com cuidado, para as pousar do lado de fora da porta. Salto por cima de caracóis e afugento moscas pelo método janela aberta, e não insecticida. Os meus piores terrores, as formigas, são escorraçados sem piedade com recurso a cabeças de cravinho, cujo cheiro parecem não suportar. Mas não sou santa: odeio pombos cinzentos, daqueles escuros que infestam as nossas cidades. Em dias bons, trato-os por ratazanas com asas. Em dias maus, defendo o extermínio da espécie. Aparentemente, há uma cidade onde seria muito, muito feliz:

 

Barcelona: Concurso público para matar pombos


A Câmara da cidade de Barcelona, em Espanha, está a promover um concurso público no valor de 118 mil euros, para acabar com 25 por cento dos pombos que habitam naquela cidade.

Segundo a Agência de Saúde Pública, as empresas deverão capturar os pombos através de redes, asfixiando-as e gaseando-as num lugar ‘que não favoreça o stress dos animais’ e posteriormente, eliminar os corpos, através de métodos indolores, rápidos e irreversíveis, de acordo com o jornal espanhol ‘ABC’.

As gaivotas, ninhos e ovos também deverão ser eliminados.

 

Este país começa a fazer sentido.


cadernoelastico,

Para melhor se perceber o terror arquitectónico que é este país, recomendo este vídeo do Público, a complementar o artigo de José Cerejo. Nem eu teria imaginado que a destrutiva mão de Sócrates chegasse tão longe. Não estou a falar de ilegalidades em regimes exclusivos e questões afins. Estou a pensar num país feio, descaracterizado, nas mãos de patos bravos sem qualquer tipo de regulação. Na Inglaterra rural, encontramos casas normais dos séculos XIV ou XV. São habitadas, ainda hoje, e em perfeitas condições. Para os proprietários poderem fazer obras, requerem licença a três entidades diferentes, que visam manter o património arquitectónico do país. Em França, existe um regime muito semelhante, e é por isso que encontramos, por exemplo no Poitou-Charentes, aldeias belíssimas, transplantadas de outro tempo mas com todos os confortos modernos.

Dir-se-á que este cuidado com a habitação requer dinheiro. Sim, é verdade. Mas, e sobretudo, requer duas coisas muito diferentes: uma sensibilidade estética, manifestamente ausente no engenheiro técnico Pinto de Sousa, e uma luta acérrima à corrupção, que permite estes licenciamentos de terror.

Ai, a santa ignorância


cadernoelastico,

Ouvir notícias sobre a Páscoa é quase de chorar a rir, se não fosse uma celebração da ignorância sobre a história das religiões. À hora de almoço, meio distraída, dou por mim a ouvir o que a jornalista insistentemente dizia na sua peça: os cristãos celebram este fim-de-semana a Páscoa com os protestantes, os ortodoxos, e por aí fora. A Páscoa torna-se assim uma espécie de reduto privado do catolicismo, provavelmente inventada quando este último nasceu, ao qual as restantes religiões (não cristãs, evidentemente) se podem associar. Enfim.

A todos, cristãos e não-cristãos, desejo uma Santa Páscoa. Que seja uma oportunidade para nascermos também de novo, um bocadinho melhores.

Ignorâncias


cadernoelastico,

Vasco Pulido Valente é um excelente cronista. Num dia bom, é mesmo muito bom. O que é pena são todos os dias maus, em que acumula tontices e faltas de bom-senso. Hoje deu-lhe para criticar quem critica as prendas a altas figuras do Estado. Chama-lhe ele um excesso de virtude, ou semelhante expressão jocosa. Aliás, cita o valor das prendas atribuídas por Manuel Godinho, o famoso sucateiro, mostrando com isso que o montante é risível. Só posso concluir que Vasco Pulido Valente não vive na mesma realidade que nós. Não vive num país minado pela corrupção e tráfico de influências, onde todos os gatos são pardos. Se vivesse, saberia que há regulamentos contra as prendas a altos cargos da administração pública e sector empresarial do Estado, e por um bom motivo. Se não fosse assim, como poderíamos garantir que a empresa X ganhou um concurso exclusivamente por mérito, e não porque houve uma prenda num qualquer Natal passado que pesou a seu favor? Para Vasco Pulido Valente, uma prenda de uns mil euros não conta como factor de corrupção. No mundo dele, os gestores devem ser corruptíveis só por umas dezenas ou centenas largas de milhares. Uns virtuosos, que cedem quando o valor se torna irresistível. Lamentavelmente para o cronista, ainda estamos em Portugal.