Ignorâncias


cadernoelastico,

Vasco Pulido Valente é um excelente cronista. Num dia bom, é mesmo muito bom. O que é pena são todos os dias maus, em que acumula tontices e faltas de bom-senso. Hoje deu-lhe para criticar quem critica as prendas a altas figuras do Estado. Chama-lhe ele um excesso de virtude, ou semelhante expressão jocosa. Aliás, cita o valor das prendas atribuídas por Manuel Godinho, o famoso sucateiro, mostrando com isso que o montante é risível. Só posso concluir que Vasco Pulido Valente não vive na mesma realidade que nós. Não vive num país minado pela corrupção e tráfico de influências, onde todos os gatos são pardos. Se vivesse, saberia que há regulamentos contra as prendas a altos cargos da administração pública e sector empresarial do Estado, e por um bom motivo. Se não fosse assim, como poderíamos garantir que a empresa X ganhou um concurso exclusivamente por mérito, e não porque houve uma prenda num qualquer Natal passado que pesou a seu favor? Para Vasco Pulido Valente, uma prenda de uns mil euros não conta como factor de corrupção. No mundo dele, os gestores devem ser corruptíveis só por umas dezenas ou centenas largas de milhares. Uns virtuosos, que cedem quando o valor se torna irresistível. Lamentavelmente para o cronista, ainda estamos em Portugal.

7 comentários em “Ignorâncias”

  1. “Se não fosse assim, como poderíamos garantir que a empresa X ganhou um concurso exclusivamente por mérito, e não porque houve uma prenda num qualquer Natal passado que pesou a seu favor”
    … portanto é com a esta inteligentíssima justificação que se classifica Vasco Pulido Valente como tonto e falta de bom senso. Bravo.

    1. ariel, é essa “inteligentíssima justificação”, como a descreve, que sustenta a lei. uma lei que é um esforço de transparência, e que merecia respeito. para vasco pulido valente, é uma tontice, porque uma caneta de milhares de euros é uma “prendinha”, sem consequências. concorda com o autor?

      1. claro que concordo com Vasco Pulido Valente. raramente estou em desacordo e aprendo muito com ele. é que ele não se limita a olhar para a árvore, escreve a olhar para a floresta. e eu parto sempre desse principio quando leio alguma coisa dele.

  2. Já nem vale a pena falar do tema da corrupção. É um caso perdido. 80%, ou mais, dos Portugueses já são corruptos por natureza e só não são mais porque não têm acesso a lugares de chefia. Os poucos honestos, que ainda há, são agora os subversivos do regime.

  3. A inefácia da justiça é o problema nº 1 em Portugal, e do qual muitos outros derivam. Em matéria de combate à corrupção, infelizmente, estamos pior hoje do que estávamos há cinco, dez ou quinze anos. Os alertas de personalidades como João Cravinho, lamentavelmente, foram ignorados.
    Já agora, apetece-me perguntar: onde está o código de boa conduta que Sócrates prometeu para o Governo na campanha eleitoral de 2009?

  4. Instituições do Estado em falta com Planos de Combate à Corrupção.

    A Presidência da República, Parlamento, Banco de Portugal e Supremo Tribunal de Justiça ainda não entregaram os Planos de Combate à Corrupção. O prazo acabou. Veja no link em baixo e tire as suas conclusões.

    http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=1525237

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