Para melhor se perceber o terror arquitectónico que é este país, recomendo este vídeo do Público, a complementar o artigo de José Cerejo. Nem eu teria imaginado que a destrutiva mão de Sócrates chegasse tão longe. Não estou a falar de ilegalidades em regimes exclusivos e questões afins. Estou a pensar num país feio, descaracterizado, nas mãos de patos bravos sem qualquer tipo de regulação. Na Inglaterra rural, encontramos casas normais dos séculos XIV ou XV. São habitadas, ainda hoje, e em perfeitas condições. Para os proprietários poderem fazer obras, requerem licença a três entidades diferentes, que visam manter o património arquitectónico do país. Em França, existe um regime muito semelhante, e é por isso que encontramos, por exemplo no Poitou-Charentes, aldeias belíssimas, transplantadas de outro tempo mas com todos os confortos modernos.
Dir-se-á que este cuidado com a habitação requer dinheiro. Sim, é verdade. Mas, e sobretudo, requer duas coisas muito diferentes: uma sensibilidade estética, manifestamente ausente no engenheiro técnico Pinto de Sousa, e uma luta acérrima à corrupção, que permite estes licenciamentos de terror.

Embora as humanidades não humanizem, como dizia o Steiner , a ética e a estética são territórios tangentes. As casinhas do Sócrates é, de tudo aquilo que se fala quando se fala do primeiro-ministro, o que mais me repugna. Estarei em minoria, mas estou absolutamente convencida que quem assina coisas daquelas e, sem passar por nenhuma via sacra, aterra passados uns anos pugnando histericamente pela modernidade, vestindo armani ou similar e comprando um envidraçado da Braamcamp armado ao pingarelho só pode ser um aldrabão. Um aldrabão piroso. Combinação explosiva. E que não se venha com a conversa do snobismo estético que o povo não percebe, etc , etc . Porque quem se der ao trabalho de procurar, perceberá facilmente que as casinhas do Sócrates não são arquitectura popular nem aqui nem na China. São fruto do assalto ao poder de construtores civis endinheirados que usaram e abusaram do facto de em Portugal, por falta de cultura, por nunca termos tido uma guerra que nos destruísse as casas para lhes darmos valor e por 40 anos de casinhas pobrezinhas com certeza, como no fado da Amália, tiveram campo aberto para destruir tudo à sua frente, arrasar lugares, paisagens naturais e tudo num vez que te avias. Sócrates é essa gente + a “novidade” do Magalhães. Pindéricos, foleiros, ignorantes, primários. Chicos espertos. Uma tristeza.
precisamente isso, ana cristina.
Esclareces muito bem o epígono de pato-bravo.
Não nos esqueçamos ainda que este senhor foi Ministro do Ambiente.
A guerra não era precisa, bastaria que Salazar tivesse tratado do assunto em vez de fazer de Portugal um Portugal dos Pequeninos.
Concordo com quase tudo o que é dito neste post.
O único ponto em que discordo é das responsabilidades totalmente atribuidas ao Eng técnico Pinto de Sousa. A culpa não é exclusiva dele porque na altura em que o mesmo exercia Engenharia Civil, esta carecia de regulamentação. Os próprios cursos (inclusive na FEUP) tinham falhas nesse capítulo. Aliás Ordenamento e Planeamento de Território é algo para o qual o país só acordou na década de 90, mas, aí o Eng. Pinto de Sousa já estava mais ocupado com outras “lutas”.
claro. mencionei-o porque foi o pretexto para isto. como ele, tantos outros. e a culpa é também, evidentemente, do legislador, a quem isto parece interessar, dada a inércia e a continuidade do terror. não estou tão optimista como o Renato em relação às mudanças.
Ana Margarida,
Plenamente de acordo com o último parágrafo.
O problema é que o mau gosto e a falta de sensibilidade estética já são uma marca identificadora da maioria do poder autárquico deste país. Mas aí os arquitectos também têm muita culpa. E alguns depois de projectarem os “mamarrachos” até acabaram como autarcas. Exemplos não faltam.
exacto. o poder autárquico que fecha os olhos, ou os abre debaixo da mesa.
Lamentável, realmente…
Continuo a achar que o problema do nosso país é não ter a mínima visão de médio/longo prazo.
Não se pensa para o futuro, não se pensa para o “depois”. Porque já se sabe que quem vier “depois” que feche a porta… É lamentável, mas é a triste realidade. Basta ver o “empurrar” de responsabilidades e o “bota-abaixo” que se vê sempre que há mudança de partido no governo ou nas autarquias. Regra geral, tudo o que o antecessor fez está mal feito e é para “abater”, ou todos os problemas que surgem são culpa do “gajo que cá esteve antes”.
É muito triste ver a política ganhar uma visão quase “futebolistica”: quem não é do meu “clube”, é um “alvo a abater”, em vez de, em conjunto e em continuidade, se tentarem avaliar os prós e os contras das actuações das diversas entidades responsáveis…
Em França, existe um regime muito semelhante, e é por isso que encontramos, por exemplo no Poitou-Charentes, aldeias belíssimas, transplantadas de outro tempo mas com todos os confortos modernos.
Ana, tão irritada estava eu com as casinhas que me esqueci de perguntar-lhe: andou por Poitou-Charentes? É que eu, há muitos anos, vivi lá cerca de 2 anos, precisamente numa dessas aldeias belíssimas, perto de Aunac, também ela uma vila belíssima.
Há uns anos, passei uns dias na região. Lindíssima, tudo limpo e arranjado. Fiquei em casa de uma família em Poitiers. De cada vez que passo por aldeias portuguesas, arrepio-me.
A tristeza do costume mas não resisti desatar à gargalhada com a do metro atrás, cinco metros adiante!! LLOOLLL!
Então a Ana Margarida, tão liberal, quer proibir as pessoas de construir as suas casas com o gosto que lhes apeteça…
Oh Ana Margarida, o que é você afinal? Uma liberal ou uma conservadora? Quer conservar a tradição, ou dar liberdade às pessoas?
Então as pessoas pagam a construção das suas casas, mas são obrigadas a fazê-las de acordo com o gosto tradicional, e não de acordo com o seu gosto?
Se Sócrates fez as casas assim, foi porque os donos das casas as queriam assim.