Sugestões


Ana Vidal,


Sábado cultural: visita à exposição da Clarice Lispector, na Gulbenkian. Magnífica e imaginativa forma de expor tantas palavras essenciais. O mistério de Clarice intacto, apresentado em gavetas que ora escondem ora revelam. Como ela própria. Um aplauso a quem teve a ideia.
A seguir, visita à exposição da Joana Vasconcelos, na Ajuda. Depois de Versailles já não é arrojo, já não é coragem. Coragem teria sido começar aqui a “profanação” de um palácio real, assim é apenas a repetição de uma receita de sucesso. Uma batota que infelizmente repete a fórmula do costume e revela a sempiterna saloice nacional: primeiro a segurança da aprovação dos outros, depois o reconhecimento fácil e garantido.
Finalmente, à noite, o filme Night train to Lisbon. De novo o jogo de espelhos entre nós e os outros. Um Jeremy Irons sem surpresas, sempre superlativo. E a estranheza de uma história nossa, caseira, vista por olhos estrangeiros. Aí, sim, a surpresa da intensidade com que de repente nos vemos a nu: trágicos, labirínticos, incumpridos e infinitamente nostálgicos.

Balada breve


Ana Vidal,

Batem forte, fortemente,
Nesta invernia sem fim.
É mais chuva, certamente,

E mais vento, e frio silente,

Que gente não bate assim.


Quem bate assim, cegamente,
Com tão estranha malvadeza,
Que bem se ouve, bem se sente?
Além do tempo inclemente,
É o Gaspar, com certeza.


Que quem é mais gastador
Sofra tormentos, enfim.
Mas aos portugueses, Senhor,
Porque lhes dais tanta dor?
Porque padecem assim?



(Augusto Gil revisitado, versão 2013)

In english, please


Ana Vidal,


Não vale a pena procurar razões sociológicas, antropológicas e afins para a total supremacia do inglês como língua universal. A explicação é óbvia e cabe inteirinha num simples aviso em voz-off, ouvido em qualquer carruagem de Metro.


Em inglês: “Mind the gap”.
Em português: “Atenção ao intervalo entre o combóio e a plataforma”.


Um dia de cada vez (1)


Ana Vidal,

É estranho como o amor e o ódio se equivalem. Ambos são poderosos filtros que definem as cores com que vemos o mundo. Ambos alimentam, ambos podem ser objectivos de vida ou puros instrumentos de sobrevivência. Igualmente demolidores, por ambos se mata, por ambos se morre.  Nem sempre a opção é simples, nem sempre é possível. Se nunca odiei verdadeiramente ninguém, o mérito não é meu: sempre tive a sorte de poder escolher.

What if?


Ana Vidal,

Por estes dias, a Capela Sistina é uma espécie de Clube do Bolinha: “Minina não entra”. Talvez para compensar, os purpurados usam saias de rendinhas, chapéus engraçados e sapatos de cetim encarnado.

Enfim, faites vos jeux, senhores cardeais. Para vos iluminar, aqui fica este conclave… de sol. What if God was one of us, hein?


O comentário da semana


Ana Vidal,

«Que se tenha salvo um ninho de cucos não é, por si, um bom sinal. São os cucos promíscuos, acasalando machos e fêmeas com vários parceiros e parasitam os ninhos dos outros deixando que outros lhes alimentem as crias, clamando pelo estado social. Podem assim, livres de preocupações, serem os primeiros a anunciar a primavera, coisa que neste ano terão de rivalizar com a chaminé da Capela Sistina.
Desta história podemos, não tirar uma lição, mas confirmar o adágio: Lixam-se os pobres que ficam sempre por baixo. Houvera de cair um Clio em cima de um Passat e ouviríamos o beija-flor, que é ave operária, anunciar a primavera.
Quanto ao burro, venerável transporte da sagrada família, não é certo a isenção de acidentes, mas a ocupação do estábulo de uma vaquinha pachorrenta que teve assim de partilhar quer a mesa quer a cama com asno metido a limousine, é certeza firmada em notário.»


Do nosso leitor Xico, a propósito deste texto do Rui Rocha.

A soma dos dias


Ana Vidal,


Percebo a utilidade da existência de um “Dia da Mulher” pelo muito, muitíssimo, que há ainda para conquistar até chegarmos todas (países árabes, áfrica profunda e oriente incluídos) a um patamar justo de igualdade de direitos, num mundo quase exclusivamente patriarcal. Mas não posso deixar de pensar que enquanto não houver também um “Dia do Homem”, a contabilidade é desastrosa: em cada ano há 1 dia da mulher para 364 do homem.


Rui Pedro, uma espera interminável


Ana Vidal,

 

Quinze anos depois do desaparecimento de Rui Pedro, o Tribunal da Relação do Porto condenou ontem Afonso Dias, o único arguido do caso, a três anos e seis meses de prisão efectiva. Este é o mais recente episódio de uma longa e penosa batalha a que temos assistido de forma intermitente: a de uma mãe inconformada, impotente mas nunca vencida, que quer saber o que aconteceu ao filho. Sem recursos próprios, sem divulgação mediática internacional (mesmo a nacional foi quase inexistente durante anos, ao contrário do que aconteceu com a menina inglesa), a mãe do Rui Pedro não permite – sempre que lho permitem a ela – que nos esqueçamos do seu filho desaparecido.

 

Talvez nunca se venha a saber se Afonso Dias teve um papel activo no destino de Rui Pedro, igualmente sinistro quer este esteja vivo ou não. Continuam a faltar as provas que o garantam sem margem para dúvidas. Mas esta decisão do Tribunal da Relação vem repor alguma justiça em toda esta sordidez. Três anos e meio de cadeia é muito ou é pouco? É muito pouco, digo eu, mesmo que a “única culpa” deste homem seja a de ter dado uma imperdoável machadada final na infância de uma criança, ao obrigá-la a enfrentar uma prostituta aos 11 anos. E isso ficou claramente provado no depoimento dessa mulher, quando disse que o rapazinho “estava muito nervoso e começou a chorar quando saiu do carro”. A própria amizade deste homem com crianças dez anos mais novas do que ele, é mais do que suspeita. Qual o objectivo de introduzir crianças à força no mundo dos adultos, a não ser por interesse próprio? O testemunho do primo de Rui Pedro, a outra criança envolvida nesta história macabra, confirma que “Afonso Dias, cuja amizade era muito apreciada por Rui Pedro, prometera aos dois irem atirar foguetes e depois irem de automóvel até às prostitutas.” Não é difícil imaginar a expectativa, feita de um misto de euforia, curiosidade e terror, que levou Rui Pedro a largar a bicicleta e a seguir o seu “amigo”. Difícil, pelo menos para mim, é conseguir entender o que tinha este homem em mente ao pagar a uma prostituta para iniciar crianças, sem lhe atribuir intenções mais do que duvidosas. E só por isso, repito, uma pena de três anos e meio de prisão é muito pouco.

 

Sei que este não é o único caso de crianças portuguesas desaparecidas, muito longe disso. Mas a imagem desta mãe que definhou aos nossos olhos, devastada pelo desgosto e pela espera interminável, atira-me à cara a sorte que tive em ter acompanhado o crescimento dos meus filhos e tê-los tido sempre por perto. A mãe do Rui Pedro apenas pode imaginar, auxiliada por um retrato robot feito por um computador, como será (ou seria?) o seu filho agora. E esse simples pensamento já é insuportável.

 

Até sempre, Eduardo


Ana Vidal,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acabo de ser apanhada de surpresa pela notícia da morte do pintor Eduardo Nery, estou chocada e triste. Era um amigo. Ainda na passada semana passei uma tarde com ele no seu atelier de Campo de Ourique, e estava tão entusiasmado a preparar a exposição da sua maravilhosa colecção de arte africana que nem parecia estar doente. Mostrou-me os belíssimos protótipos de um novo serviço que desenhou para a Vista Alegre, já em fase de ajustamentos finais. Conversámos sobre um prefácio que ele ia fazer para um livro meu sobre Magritte, um pintor que ambos admirávamos. Não haverá prefácio, não haverá mais conversas sobre arte, viagens estéticas, poesia. Felizmente que ainda viu oficialmente reconhecida a sua vasta obra com uma medalha presidencial. Até sempre, Eduardo.

A douta ignorância


Ana Vidal,

Quem me conhece sabe como sou crítica em relação à igreja católica. Sou cristã por opção, mas isso não significa que aprove aquilo que os católicos fizeram ao longo dos tempos com a mensagem original de Cristo, admirável e verdadeiramente revolucionária. Tudo foi deturpado por razões bem humanas (mas indesculpáveis), trocando a liberdade e a responsabilidade individual que era proposta aos homens pela disciplina do medo, instaurada através da terrível mas eficaz fórmula “pecado-culpa-castigo”. E assim tudo regressou de novo a terrenos mais seguros para quem gosta de exercer poder sobre os outros, aqueles outros que, por sua vez, preferem uma cartilha de pecados e virtudes por onde possam guiar os passos sem risco de excomunhão. Enfim, esta é uma pacífica mas insanável divergência que discuto habitualmente com amigos católicos desde que penso pela minha cabeça. Sou lúcida, curiosa e rebelde demais para não questionar dogmas impostos, para não querer saber o que esteve na sua génese, para não rejeitá-los se me parecem absurdos, desactualizados ou injustos.


Mas, se condeno a manipulação, condeno-a em todas as frentes. Tanto quanto as imposições irritam-me as críticas acéfalas, baseadas numa ignorância desonesta ou preguiçosa que tem como única intenção armar escândalo e alimentar ódios fáceis. Já não bastava sermos todos especialistas em macro-economia, agora também somos todos teólogos e doutorados em latim.

Este vídeo – que se refere a um hino Pascal supostamente demoníaco – foi posto a circular na net e tornou-se viral num ápice, exactamente como se pretendia. O título já diz tudo, para quem nem sequer o trabalho de o ouvir quiser ter. Mas, goste-se ou não da igreja católica, goste-se ou não de Bento XVI e da atitude que tomou, é de uma pobreza confrangedora perorar sobre aquilo de que não se percebe patavina só para fazer coro com a maioria. Para o que também a mim pareceu estranho à primeira impressão, procurei e encontrei explicações de quem entende alguma coisa do assunto. E descobri que Lucifer, em latim, significa apenas “portador de luz”. A palavra está assim presente em varias orações da Igreja, em latim, e não se aplica evidentemente ao Diabo. Lucifer era o maior de todos os Anjos e não perdeu o nome apesar de abandonar Deus, de tal maneira que esse nome foi dado a muitos cristãos dos primeiros tempos e até existe um S. Lucifer. Em suma, descobri que a tradução apressada (se não propositadamente deturpada) que aparece no video, está longe de ser a mais correcta.


Gosto de argumentos, não de batotas.

 

Um telemóvel histórico


Ana Vidal,

“Foi através do meu telemóvel. É um momento histórico, que eu conservarei para sempre na minha vida.”

 

(António José Seguro, sobre a reconciliação de Mário Soares e Manuel Alegre)

 

Quem dá o que tem, a mais não é obrigado. À falta de obra que fique para a história, Seguro deixará ao partido e ao país… um telemóvel.

Parabéns!


Ana Vidal,

Ao nosso António Manuel Venda. Duplamente: porque faz hoje anos e porque foi pai há pouco tempo. Pela quarta vez, ainda por cima.

 

 

(Se juntarmos a este os preciosos contributos, também recentes, da Ana Margarida e do Zé André, ninguém pode dizer que o Delito de Opinião não tem um papel de peso nos índices de natalidade do país.)

O triunfo dos porcos


Ana Vidal,

 

– Sr. porco, por favor, importa-se de chegar-se para lá?

– Nem penses nisso, bófia. Estou aqui muito bem.

– Mas é que… está a atrapalhar o trânsito, assim os carros não podem passar. Estamos numa auto-estrada, sabe?

– Quero lá saber. Daqui não saio. E nem te passe pela cabeça usar essa bota, que faço um xinfrim mediático e ainda arriscas quatro meses de salário. O facebook está comigo, ouviste? Quem te avisa, teu amigo é…

– Pronto, nesse caso… vou-me embora, então, desculpe tê-lo perturbado. Boa tarde.

– Vai pela sombra, ó bófia.

 

 – (entredentes) Não perdes pela demora. Havemos de nos encontrar um dia destes na tasca da tia Alice, que à quinta-feira o cozido à portuguesa é um mimo.