Sugestões


Ana Vidal,


Sábado cultural: visita à exposição da Clarice Lispector, na Gulbenkian. Magnífica e imaginativa forma de expor tantas palavras essenciais. O mistério de Clarice intacto, apresentado em gavetas que ora escondem ora revelam. Como ela própria. Um aplauso a quem teve a ideia.
A seguir, visita à exposição da Joana Vasconcelos, na Ajuda. Depois de Versailles já não é arrojo, já não é coragem. Coragem teria sido começar aqui a “profanação” de um palácio real, assim é apenas a repetição de uma receita de sucesso. Uma batota que infelizmente repete a fórmula do costume e revela a sempiterna saloice nacional: primeiro a segurança da aprovação dos outros, depois o reconhecimento fácil e garantido.
Finalmente, à noite, o filme Night train to Lisbon. De novo o jogo de espelhos entre nós e os outros. Um Jeremy Irons sem surpresas, sempre superlativo. E a estranheza de uma história nossa, caseira, vista por olhos estrangeiros. Aí, sim, a surpresa da intensidade com que de repente nos vemos a nu: trágicos, labirínticos, incumpridos e infinitamente nostálgicos.

9 comentários em “Sugestões”

  1. Verdade quanto à Joana Vasconcelos. Sempre achei graça e também sempre tive pena de só ver peças soltas, aqui e ali. Tenho pena que Ajuda se siga a Versalhes e não o oposto, este país não muda, mas lá irei apreciar e dar-lhe o meu apoio.

    1. Eu já conhecia muitas das peças da exposição, lembro-me delas de uma exposição anterior no CCB. E, apesar de não gostar de todas por igual (a ideia dos bichos de cerâmica Bordalo Pinheiro forrados a crochet acaba por cansar e perder a novidade, de tão repetida) a verdade é que houve o cuidado de escolhê-las de acordo com a temática das salas do palácio da Ajuda, o que hes dá novas leituras. Enfim, vale a pena ir lá, Marta.

  2. Aninha, primeiramente, cumpre-me agradecer-lhe o cumprimento que acaba de dirigir-me: saloio. Nem sempre a encontro, em seus textos, com tanta disposição para agradar um leitor.
    Obrigado pela sugestão que publicou: Clarice, Joana and so on.
    Espero que, quando puder efectuar tal visita, possa trazer da Ajuda como recordação um tampão, ou tampinha, ou tampax, da obra de Joana. Presumo que a isto, à obra, se chame arte na intimidade; não?

    1. Ó Anoniminho, eu chamo saloios aos portugueses porque aqui raramente se arrisca, raramente se reconhece e se dá carta branca a um valor nacional sem que ele venha primeiro com um aval qualquer do estrangeiro. Infelizmente é assim, sempre foi. Se não tivesse havido primeiro Versailles, imagino as críticas que por aí haveria pelo sacrilégio de misturar as peças da JV com as imponentes salas da Ajuda.
      Mas não lhe aconselho o roubo de um tampax, pode fazer ruir todo o lustre e lá se vai a intimidade… 🙂

  3. Sim, porque os franceses foram arrojadíssimos e muito sofisticados com Versailles. Noiva à parte, claro…

    Eu por mim, que nunca tive oportunidade de ver nada daquilo ao perto (embora tenha ouvido dizer muito bem da exposição no CCB) fico muito contente por esta oportunidade. Como diz, e bem, a minha mulher a dias, ao menos é uma arte que se percebe.

    1. Isabel, essa é outra questão. É verdade que Versailles rejeitou uma peça por razões que só posso entender como censura, e cá para mim a Joana Vasconcelos devia ter cancelado a exposição por causa disso ou então ficado calada quanto a reclamações.
      Mas o que digo é outra coisa: depois de Versailles, convidar a Joana Vasconcelos para expor na Ajuda não só não é novidade como não é arrojo ou risco. A receita funcionou, copia-se. Isto não é apostar num artista com provas dadas, é apenas garantir bilheteiras. E garanto-lhe que vai valer a pena: mesmo com bilhetes a 10€ tive de esperar na fila para entrar.

      1. Nada do que diz é mentira, claro. Mas acho que reagi automaticamente à expressão “saloice nacional” (só se pode ser saloio em relação a não saloios, não é?) porque eu acho que não somos assim tão diferentes dos “outros”, ao contrário do que dizemos o tempo todo. O que a Ana apelida de censura, eu apelido de falta de arrojo e aversão ao risco… 🙂

        Já quanto à falta de novidade e à bilheteira garantida, não discuto. Exceto que, nos tempos que correm, se os cofres do IGESPAR, ou lá quem é que cobra os bilhetes, se encherem à pala dos mirones, não sou eu quem atira a primeira pedra!

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