Margaret McCollum levantava-se cedo. Muito cedo. Lawrence morrera há quatro anos. E, desde então, as alvoradas tinham-se tornado penosas. A sua ausência ocupava-lhe os dias. Com o passar do tempo, a outras horas, já era capaz de acomodar as memórias com uma certa doçura. As lágrimas já não vinham sem um sorriso terno. A saudade chegava em vagas plácidas que pareciam procurá-la mais para a reconfortar do que para lhe provocar dor. Mas não fora ainda capaz de transformar o tormento das madrugadas em ternura. Estremunhada, procurava o respirar sereno de Lawrence, a seu lado. O silêncio tornava-se insuportável. Um silêncio físico, rugoso. Que lhe tomava a boca e a garganta. Sufocada, levantava-se em urgência, como fizera tantas vezes para socorrer os seus doentes. Agora, tinha de acorrer ao seu próprio sofrimento. Por vezes, abrir a janela e receber o bafo húmido das manhãs anunciadas de Londres era suficiente para aplacar os sintomas. Como se Oswald estivesse ali a sussurrar-lhe a sua presença. A desatar-lhe os nós da angústia. Noutros momentos, em que a humidade a engasgava e as suas lágrimas ficavam ainda mais ácidas, Margaret sabia exactamente o que fazer. Vestia-se entre soluços, tomava da rua a réstia de luz que já se adivinhava e, aos tropeções, dirigia-se para a estação de Embankment. Ao longo do percurso, o calor regressava lentamente às suas mãos. A certeza de reencontrar a voz de Lawrence reconfortava-a. Já serena, sentava-se no banco junto à plataforma. O mesmo banco onde já se sentava, consumida pela saudade, quando Lawrence se ausentava de Londres, por motivos profissionais, durante alguns dias. Esperava então a chegada da próxima composição. A que lhe traria de novo a voz de Lawrence. Primeiro, a luz ao fundo do túnel. A crescer para ela. A chiadeira da travagem. A mensagem. A mensagem para todos. A voz só para ela. Mind the gap. A distância da composição à plataforma. A distância entre ela e Lawrence preenchida pela recordação da sua voz.
* Lawrence Oswald foi a voz da primeira mensagem “mind the gap“ gravada, na década de 60 do século passado, para advertir os passageiros do metro de Londres para a distância entre as composições e a plataforma. Oswald morreu em 2007. Margaret McCollum, a viúva, tinha por hábito dirigir-se à estação de Embankment para ouvir a mensagem e recordar a voz do marido. Em determinada altura, a empresa do metro de Londres decidiu substituir a mensagem de Lawrence por outras. Margaret escreveu à Administração a contar a sua história. A empresa do metro de Londres decidiu repor a mensagem gravada por Lawrence na estação de Embankment. Margaret continua a aparecer por lá para recordar o marido. A notícia pode ser lida aqui.

Que maravilha! Afinal o amor existe 🙂
Que bonita história, Rui.
Absolutamente comovente!