ARGO


Ana Vidal,

 

Não fora a garantia de ser uma história verídica e eu diria que ARGO era mais uma dessas xaropadas inventadas pelos EUA para enaltecer a pátria e manter os níveis do orgulho nacional, tal é a concentração dos clichés habituais: a supremacia americana a vencer em todas as frentes, da heroicidade à inteligência, da abnegação ao humor, da moral à razão. Mas, por incrível que pareça o happy ending, os factos aconteceram mesmo e os protagonistas estão bem vivos para contá-los. Comprovam-no também as imagens do genérico final, comparando fotografias retiradas do filme com outras, reais, das mesmas situações (a propósito, esta sequência faz-nos tirar o chapéu à excelência do casting). ARGO dá-nos conta de uma curiosa história de espionagem, ocorrida com um grupo de diplomatas americanos encurralados em Teerão, logo após a revolução de 1979 que depôs o último Xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlevi, e instalou no Irão a “democracia” do Ayatollah Khomeini. É também um tributo à cooperação diplomática entre países, e esse foi um dos motivos para que o presidente Clinton tornasse público, muitos anos depois, um incidente até aí mantido secreto e guardado a sete chaves pela CIA. A história – mais uma prova de como a realidade ultrapassa tantas vezes a ficção em matéria de improbabilidade – é mirabolante e deliciosa. Não quero estragar-vos a surpresa, não a contarei aqui. Dir-vos-ei apenas que vale a pena ver o filme: a reconstituição da época é rigorosa e funde-se muito bem com os vários excertos de documentários reais, usados para reforçar a ideia de autenticidade. 

 

Registei um pormenor, entre tantos outros, porque me incomodou: ajudado pelos parceiros ocidentais de quem fora aliado durante todo o seu reinado, o Xá foge do Irão in extremis, como é sabido, trocando pelo exílio a prisão ou uma execução sumária. Parte num avião privado,” de tal maneira carregado de ouro que mal conseguiu levantar do chão”. Não consigo deixar de pensar que é nestes momentos, exactamente nestes momentos, que se revela um carácter. Quantos dos seus apoiantes mais fiéis, deixados para trás e entregues à fúria dos revoltosos para uma justiça apressada e mais do que duvidosa, teriam cabido naquele avião em vez do ouro, em igual peso? E quantas vezes, durante os parcos meses que decorreram entre esse episódio e a sua morte no exílio, rodeado de um luxo tão exagerado como inútil perante um cancro, terá pensado o Xá nesse seu gesto? 

Exercício de… português?


Ana Vidal,

Acabo de ter acesso, através de uma mãe desesperada, a este exercício de português para o 10º ano:

 

«Funcionamento da língua:


1. A coesão* referencial do texto assenta, sobretudo, na co-referência anafórica pronominal que assegura os segmentos do discurso.

1.1. Considerando o referente «eu» (v.3), apresenta:

a) uma catáfora

b) os co-referentes anafóricos pronominais da segunda volta

c) duas elipses.»

 

(*A “coesão” é definida desta forma, para quem tiver dúvidas: «o termo que designa os mecanismos linguísticos de sequencialização que instituem continuidade semântica entre diferentes elementos da superfície textual». Logo, «”coesão referencial” é a interdependência de fragmentos textuais assinalada por co-referentes, dando origem a uma cadeia referencial». Esta açorda linguística vem acompanhada de outros mimos igualmente perceptíveis, tais como: coesão interfásica, temporo-aspectual, co-referência anafórica, coesão lexical, etc. Tudo muito coeso e facílimo, como se vê.)

 

Ainda vou na primeira volta e já estou em estado catafórico. Dou graças aos céus por já não ter filhos (e ainda não ter netos) em idade de precisarem de ajuda com os trabalhos de casa, porque me sentiria pouco mais do que atrasada mental. O drama é, afinal, muito mais extenso do que a imposição de um estúpido e inútil acordo ortográfico. O problema de fundo é que o funcionamento da língua não funciona.

 


 

Adenda: Não resisto a trazer a esta discussão o contributo da grande Natália Correia. É preciso chamar os bois pelos nomes, e poucos o fizeram como ela. Neste caso, as vacas (sagradas?).

 

Língua Mater Dolorosa

 

Tu que foste do Lácio a flor do pinho

dos trovadores a leda a bem-talhada

de oito séculos a cal o pão e o vinho

de Luís Vaz a chama joalhada

 

tu o casulo o vaso o ventre o ninho

e que sôbolos rios pendurada

foste a harpa lunar do peregrino

tu que depois de ti não há mais nada,

 

eis-te bobo da corja coribântica:

a canalha apedreja-te a semântica

e os teus verbos feridos vão de maca.

 

Já na glote és cascalho és malho és míngua,

de brisa barco e bronze foste a língua;

língua serás ainda… mas de vaca.

 

Pérolas futebolísticas


Ana Vidal,

“O Benfica atacou em grandes golfadas de velocidade” e “O jogador contribuíu muito para as golfadas de futebol atacante”

 

(Joaquim Rita, comentando o jogo Benfica-Braga na SIC N)

 

“O Joãozinho até tem nome de jogador de futebol. Se fosse João Silva era muito pior”

 

(Jesualdo Ferreira, em entrevista na SIC N)

Uma boa notícia


Ana Vidal,

 

Quase um ano depois do suicídio de uma adolescente que tinha sido forçada a casar com o homem que a violou, o Governo marroquino anunciou que vai alterar o Código Penal para proibir uma prática tradicional que continua a ser aceite pelos tribunais.

 

Perturbada com a história dramática de Amina Filali, sobre esta lei aberrante escrevi isto no Delito, há quase um ano. Graças à intervenção incansável dos activistas dos direitos humanos em Marrocos e às inúmeras manifestações internacionais de indignação perante esta prática legal, a lei vai, finalmente, ser revista. É pouco, dir-me-ão. Claro que é pouco: os abusos sobre mulheres nos países árabes não se limitam a esta situação, há um mundo de direitos fundamentais que ainda lhes são negados. Mas é um princípio, e saúdo o rastilho que há-de atear o fogo. O mundo está em mudança, e acredito que não terá sido por acaso que o ministério para o Desenvolvimento Social de Marrocos foi entregue a uma mulher.

Das lamentações


Ana Vidal,

“Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto, ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por definição, o voluptuso encontro de dois espíritos. Para quê, então? Não para obter favores, porque o único favor que um espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza.
Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada.
Basta, portanto.”

Cesare Pavese, in O Ofício de Viver

Blogue da semana


Ana Vidal,

Desta vez a sugestão que vos deixo vai para um blogue “da casa”. Nesta invernia cinzenta que atravessamos – literalmente e não só – o melhor remédio é encontrar alguma coisa que nos conforte. E que melhor consolo existe para um português do que a cozinha, esse território alquímico que nos redime e identifica como nenhum outro? Ora espreitem aqui este blogue da nossa Leonor, onde não faltam recursos para consolo do estômago e da alma.

Humanidades pessoais


Ana Vidal,


Recuso-me a contribuir para alimentar mais esta polémica insana sobre a história do cão que matou o bebé. Este fenómeno de esquizofrenia nacional, que levou milhares de pessoas a assinar petições, cerrar fileiras e destilar ódios em debates com os argumentos mais descabelados, pode ser facilmente explicado pelo estado de frustração e desespero em que andamos. De vez em quando é preciso libertar tensões, e antes esta catarse colectiva em volta de uma notícia de jornal do que sairmos de casa desembestados para matar os vizinhos a rajadas de metralhadora. O que me traz de volta ao tema é uma questão a latere: a malfadada expressão “a pessoa humana”, dita e escrita por todo o lado – em bocas e penas insuspeitadas, até – que me encanita como poucas. Alguém me explica (sem recurso a sentidos figurados ou mitologias, por favor) onde é que habita no planeta essa misteriosa espécie que dá pelo nome de “pessoa não humana”?


Até sempre, João


Ana Vidal,

Começámos mal: pegámo-nos, num blogue onde eu me estreava e ele era comentador habitual com o nick J.C. (ver os comentários ao post). Mas logo aí se percebeu que as nossas divergências seriam civilizadas e saudáveis, coisa de gente que se respeita. Depois, com o tempo e muitas trocas de ideias em caixas de comentários, veio a amizade virtual. Implacável na defesa das suas teses (era muito mais conservador do que eu), o João era sempre de uma elegância irrepreensível e tinha uma ironia fina, subtil, que me divertia e me vergava. Era mestre no trocadilho. Tivemos despiques memoráveis, de que ficará o registo aqui no Delito e a saudade na minha memória. Um dia, a amizade passou de virtual a real, carne e osso a confirmar a empatia e a confiança. Foi um anfitrião insuperável nas suas ilhas de adopção, territórios mágicos a que me rendi sem retorno desde o primeiro olhar, e a que voltei e voltarei sempre que a vida mo permitir. A última vez que o vi foi no Porto, já em tratamento e consciente do seu estado grave. Tomámos um café, conversámos e rimos como se tudo estivesse bem, e não pude deixar de reparar no estoicismo de quem tudo fazia para manter o prumo e não dar o flanco à doença. Quando me despedi, apesar dos meus protestos fez questão de me acompanhar ao carro e abrir-me a porta, galante como sempre. Sorridente, espicaçou-me com o seu tema preferido pela última vez: “O que é que pensas, que eu sou um desses mouros que não sabem comportar-se com uma senhora? Aqui no Porto ainda há cavalheiros, ora essa!”.

 

Era um homem de coragem e provou-o até ao fim. Vai fazer falta, tanto ao DO – onde será insubstituível – como aos amigos. A vida continua, como sempre. Mas continua mais pobre.

Um genocídio mental


Ana Vidal,


Uma destas manhãs fui “obrigada” a ver parte do programa da manhã da TVI. No espaço de pouco mais de meia hora registei as seguintes pérolas:
1. Uma florista de bouquets para noivas que se inspira em Confúcio para as suas criações artísticas, explicando: “é um senhor chinês antigo que está agora a vir à tona”. Muitas palmas do público.
2. Uma blogger fashionist (ainda estou para perceber o fenómeno, mas o defeito deve ser meu) que se refere às “tendências 2013” em shorts e mini-saias com a gravidade e a reverência com que Vítor Gaspar anuncia outras reduções, bem menos apetitosas. Muitas palmas do público.
3. Um anunciante de produtos naturais de emagrecimento e saúde que oferece como brinde, para compras acima de x euros, “a Bíblia Sagrada, um livro de auto-ajuda”. Muitas palmas do público.

Acabar com o serviço público de televisão, por muito insuficiente e criticável que ele seja, é reduzir a esta estupidificação colectiva a oferta televisiva nacional. Ainda tenho esperança – mas eu sou uma optimista, já se vê – de que os responsáveis pelos destinos da RTP2 percebam isto.

Elisabete Matos


Ana Vidal,

 

Ora aqui está um convite que vale a pena aceitar. A grande Elisabete Matos tem tido uma carreira brilhante e merece do seu país todas as homenagens. Para quem não gosta de ópera, esta é uma boa oportunidade para conhecer por dentro (sem pagar um cêntimo) o belo Teatro Nacional de São Carlos. Para quem gosta, o programa do concerto do dia seguinte promete muitas emoções. Obrigada, Paulo. E muitos parabéns pela honra, que é bem merecida.

Até sempre


Ana Vidal,

 

Passei hoje horas a reler a delirante troca de mails que mantive, durante anos, com um Amigo que acabo de perder. E voltei a rir até às lágrimas com os disparates que escrevemos a propósito de tudo e de nada, a comover-me com os assuntos mais sérios, a espantar-me com a tendência comum para acabar tudo em verso, fosse farsa ou tragédia. O que nos divertimos! Concluo que poderíamos ter escrito juntos uma opera buffa, se nos tivéssemos aplicado e nos conseguíssemos concentrar num único tema. Guardo com o maior carinho o registo dessas conversas privadas, longas ou brevíssimas, mas sempre temperadas de humor e de ternura. Não conheço bem mais precioso do que uma amizade cultivada.

A porta de mim é tua,
A tua, de quem será?
O vento que aponta à lua,
Aponta, não chega lá.

A porta de mim foi e será sempre tua também, querido M. Agora que o vento chegou à lua, queres contar-me como é a vista aí de cima?

 

Novo ano, vida nova?


Ana Vidal,



RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)