Até sempre


Ana Vidal,

 

Passei hoje horas a reler a delirante troca de mails que mantive, durante anos, com um Amigo que acabo de perder. E voltei a rir até às lágrimas com os disparates que escrevemos a propósito de tudo e de nada, a comover-me com os assuntos mais sérios, a espantar-me com a tendência comum para acabar tudo em verso, fosse farsa ou tragédia. O que nos divertimos! Concluo que poderíamos ter escrito juntos uma opera buffa, se nos tivéssemos aplicado e nos conseguíssemos concentrar num único tema. Guardo com o maior carinho o registo dessas conversas privadas, longas ou brevíssimas, mas sempre temperadas de humor e de ternura. Não conheço bem mais precioso do que uma amizade cultivada.

A porta de mim é tua,
A tua, de quem será?
O vento que aponta à lua,
Aponta, não chega lá.

A porta de mim foi e será sempre tua também, querido M. Agora que o vento chegou à lua, queres contar-me como é a vista aí de cima?

 

4 comentários em “Até sempre”

  1. Foi precisamente esta Lua, que eu vi nascer ontem, na minha planicie, de uma beleza indiscritivel. Eram 22 h e 45 m.
    Não há luar como o de Janeiro e Agosto, isto aprendido na minha 3.ª classe.
    A dureza e responsabilidade do meu trabalho quase me impedem de poder deslumbrar-me com tanta beleza. Mas consegui “passar por cima”, parar por momentos o carro e extasiar-me com tanta beleza. Ali, no meio do nada.

    1. Lembro-me bem do luar no Alentejo, Singularis! Tem uma beleza especial, é verdade, com toda aquela calma e espaço. E são esses momentos, quase sempre, os grandes privilégios. O que é preciso é dar por eles e saber valorizá-los, mas vejo que é o seu caso.

  2. Sim.

    “(…) Somos as sementes da teimosa planta,
    e é na nossa madurez e plenitude de coração
    que somos entregues e dispersos ao vento.

    Foram breves os dias que passei convosco,
    e mais breves ainda as palavras que pronunciei.

    Mas se a minha voz se extinguir em vossos ouvidos
    e o meu amor se desvanecer na vossa memória,
    então voltarei de novo.

    E falarei, com o coração mais rico
    e lábios mais submissos ao espírito.

    Sim. Voltarei com a maré.

    E embora a morte possa ocultar-me
    e rodear-me o maior silêncio,
    buscarei, de novo, a vossa compreensão.

    E não buscarei em vão.

    Se é verdade aquilo que disse,
    esta verdade se manifestará numa voz mais clara
    e em palavras
    mais perto de vossos pensamentos.

    Parto com o vento, mas não me precipito no vácuo. (…).
    O dia chegou ao fim.

    Fecha-se sobre nós como o nenúfar
    sobre o seu próprio amanhã
    Conservaremos quanto aqui nos foi dado.

    E, se isto não bastar,
    então deveremos reunir-nos de novo
    e juntos estender a mão para o doador.
    (…)

    Apenas um instante,
    um momento de repouso sobre o vento,
    e outra mulher me dará à luz.”

    Khalil Gibran, – O Adeus Final – in O Profeta

    http://www.youtube.com/watch?v=P430kv096Fs

    P.S. Peço desculpa se não era isto que eu devia fazer. Nestas situações, no que respeita aos outros, nunca sei se devo cruzar os braços, ou colocar as mãos nos bolsos, ou rir, ou chorar, ou calar… Simplesmente não sei. Se não fui conveniente, uma vez mais, peço desculpa.

    http://www.youtube.com/watch?v=la3KZcOocYA

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *