Continuidade


escafandro,

Quando vejo bancos recorrerem a financiamento público, como é actualmente o caso do Banif e antes foi o do BCP, do BPI e da Caixa, muito embora sabendo que em parte as suas dificuldades advêm de exigências recentes de reforço de capitais, não consigo deixar de pensar nos bonitos planos que, há cerca de meia dúzia de anos, instigados pela moda (que CEO gosta de – para usar as palavras da guru Heidi Klum – estar out?) e por consultores bastante satisfatoriamente remunerados (consultoria: um sector de bens não transaccionáveis que cresceu imenso nas últimas décadas e de que raramente se fala), eles andaram a elaborar. Chamavam-se «planos de continuidade do negócio» e incluíam todos os riscos que podiam afectar a actividade e o lucro (incêndios, terramotos, invasão das instalações, ataques com explosivos, anthrax ou vírus informáticos, subida do nível das águas do mar por acção do efeito de estufa, avaria do autoclismo nas casas de banho dos elementos das comissões executivas), excepto os decorrentes do próprio negócio bancário. Ainda por cima, teria bastado acrescentar uma alínea extremamente curta – mas que, bem vistas as coisas, se provou ser desnecessária: «recorrer ao Estado». Que o negócio continue, então.

11 comentários em “Continuidade”

  1. consultoria: um sector de bens não transaccionáveis

    A consultadoria é um serviço transacionável. Um consultor português pode fornecer os seus serviços a uma empresa estrangeira. Mais frequentemente, consultores estrangeiros são contratados por empresas portuguesas.

    1. Hmm , até certo ponto. Levando essa lógica ao limite quase todas as actividades poderiam ser enquadradas no sector de bens transaccionáveis: muitas empresas de construção civil trabalham fora de Portugal, nada impede uma pastelaria ou uma loja de roupa de vender para o exterior através da Internet e uma imobiliária venderá de bom grado casas a estrangeiros (como muitas terão feito no Algarve, por exemplo).
      No caso da consultoria, tendo havido certamente prestação de serviços para o estrangeiro (os próprios bancos terão feito alguma), a maior parte foi realizada para entidades internas. E, se no caso da maioria das empresas privadas (que têm que se desenrascar sem apoios do Estado) o problema foi (é) delas, no caso dos bancos, agora que são semipúblicos, seria interessante perceber quais os resultados dos milhões (não exagero) gastos em consultoria. Como o seria em muitas entidades do sector público, uma vez que, especialmente nas empresas públicas (mas provavelmente também nos hospitais e nas câmaras e na formação e sei lá mais onde), gastou-se muito dinheiro não por real necessidade mas por haver ilusões sobre o efeito de projectos pomposos com nomes bonitos ou, mais frequentemente, interesses particulares em jogo (conheço uma empresa pública que, há quatro ou cinco anos, pagava formação – inútil, para mais – a 300 euros à hora quando tinha à disposição entidades que a davam por um terço disso). Aliás, embora menos, na verdade ainda gasta.

  2. Entendendo, julgo eu, o que quis dizer, lembro-lhe que os Bancos, que “beneficiarem” desses financiamentos públicos, vão pagar juros a taxas superiores a 8% (oito por cento).
    Concordará que taxas desta natureza mostram bem as condições em que esses Bancos estão a negociar, que não é uma condição de favor, pelo contrário.

    1. Tiro ao Alvo: apesar de existirem argumentos válidos a favor do apoio do Estado aos bancos, que as condições são de favor parece-me inegável: que outras empresas privadas conseguem financiamento do Estado quando necessitam de capital, ainda que a taxas de oito por cento? Para mais, quando o Estado se encontra ele mesmo incapaz de honrar os seus compromissos sem recorrer a ajuda externa?
      E depois, não obstante as propaladas exigências feitas pelo Estado quanto a apoios dos bancos intervencionados às pequenas e médias empresas, ainda há que ver de que modo é que essas taxas de 8% se vão reflectir nas condições do crédito concedido.

      1. Claro, jaa, que esses Bancos têm que aplicar nos seus empréstimos a taxas muito superiores a 10% ao ano, o que, em muitas circunstâncias, é um exagero.
        Pela minha parte não entendo esta actuação do Estado para com os Bancos em dificuldade, uma actuação de favor, antes pelo contrário, entendo que é uma actuação de especulador. Além disso, se os Bancos “ajudados” não conseguirem pagar o empréstimo no prazo contratado (três anos se não erro), esses financiamentos serão transformados em capital, ou seja em acções que adquirirá à razão de 85% do valor da cotação que então correr no mercado, ou seja, o Estado vai apoderar-se, eventualmente, de Bancos incumpridores, com evidente prejuízo dos respectivos actuais accionistas, e eu não acho isso correcto por que entendo que o Estado deve ser uma “pessoa” de bem. Mas não é e há sempre gente que acha isso muito bem. É assim e como dizem os brasileiros: pimenta no…
        Declaração de interesses: não sou accionista de Bancos, nem de quaisquer outras empresas.

        1. Necessariamente, para além da componente de favor (que eu mantenho existir), a actuação do(s) Estado(s) teria de ter uma componente punitiva, de forma a tentar que os bancos (especialmente nos casos em que claramente exageraram no tipo de operações feitas – e, por cá, se não foi tão grave como noutros países, basta pensar na displicência com que aceitavam avaliações de imóveis por valores exagerados e concediam crédito representando taxas de esforço pouco sensatas ou a prazos absurdamente longos) sejam mais prudentes no futuro. Ainda assim, é pouco provável que resulte. A economia – e em especial o sector financeiro – caiu há muito numa obsessão de resultados a curto prazo, o que gera riscos tremendos a médio/longo prazo. Como a política, de resto.

          1. Acompanho-o na sua crítica à forma como a Banca, na generalidade, operava no segmento do crédito à habitação, mas uma coisa não justifica a outra.
            Como deve saber, os maiores “buracos” não resultaram desse tipo de crédito, mas, sim, da intromissão indevida do Estado nessas instituições, como aconteceu na CGD e no BCP. Por isso mesmo, não aceito que quem “fez” o mal apareça agora a querer emendar o erro praticando taxas de juro exorbitantes – veja-se a taxa a que o Estado português se está a financiar.
            Além disso, o Estado, ao financiar esses Bancos a taxas superiores a 9% está implicitamente a obrigá-los a esmifrar os seus clientes e eu acho isso muito mal.
            E também não concordo nada com aquela sua opinião da componente punitiva. Punitiva para quem? Para os Bancos? Para os seus gestores? Para os governantes de então? Ou para os clientes actuais e futuros?
            No meu entender a punição é para todos nós, esmagadoramente inocentes, logo injusta.

          2. Creio que, no essencial, estamos de acordo. A diferença está em que eu entendo que o Estado não poderia ajudar os bancos sem lhes impor condições severas – ou então teríamos de admitir a possibilidade de se tornar uma espécie de lender of last resort para qualquer empresa em dificuldades (e todos sabemos como, por cá, a tendência para clamar por auxílio estatal é gigantesca). Sendo que, no balanço entre aquilo que o Estado exige aos bancos e aquilo que lhes dá – dívida pública a taxas simpáticas servindo como colateral de empréstimos a taxas próximas do zero no BCE – não sei se eles não ficam a ganhar.

            Nota: apaguei um comentário seu por me parecer duplicado.

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