Humanidades pessoais


Ana Vidal,


Recuso-me a contribuir para alimentar mais esta polémica insana sobre a história do cão que matou o bebé. Este fenómeno de esquizofrenia nacional, que levou milhares de pessoas a assinar petições, cerrar fileiras e destilar ódios em debates com os argumentos mais descabelados, pode ser facilmente explicado pelo estado de frustração e desespero em que andamos. De vez em quando é preciso libertar tensões, e antes esta catarse colectiva em volta de uma notícia de jornal do que sairmos de casa desembestados para matar os vizinhos a rajadas de metralhadora. O que me traz de volta ao tema é uma questão a latere: a malfadada expressão “a pessoa humana”, dita e escrita por todo o lado – em bocas e penas insuspeitadas, até – que me encanita como poucas. Alguém me explica (sem recurso a sentidos figurados ou mitologias, por favor) onde é que habita no planeta essa misteriosa espécie que dá pelo nome de “pessoa não humana”?


27 comentários em “Humanidades pessoais”

  1. A expressão é altamente encanitante, sobretudo quando usada fora de contexto.Não tendo os cartapácios aqui à mão dar-me-ás alguma margem de erro no que vou dizer. Na raiz, “pessoa” e “humano” não são idênticos, sendo “humano” uma espécie animal e “pessoa” aquele que tem “persona” que é um atributo da “anima”. Nas culturas e civilizações pré-cristãs os termos eram (são) distintos. Por isso os romanos podiam atirar humanos aos leões, sem trauma ético nem má-fé jurídica, porque na verdade não entendiam os bárbaros como pessoas, ou seja, como seres tocados pela alma, logo involáveis.
    Fora deste contexto a expressão é abusiva e esteticamente horrenda.

    1. Ah, querido patrício, nada como a tua erudição e o teu rigor para me explicarem o que eu não entendo! Mas o problema é que os que usam agora a expressão não são do tempo dos romanos, embora sejam muitas vezes verdadeiros bárbaros da língua. Por mim atirava-os aos leões, sem trauma ético nem má-fé jurídica… 🙂

  2. Declaração de interesses: Fui um dos esquizofrénicos que assinou a petição. Vou tentar dizer-lhe, não onde habita a “pessoa não humana” mas alguns exemplos dessa espécie, Hitler, Andrei Chikatilo, Mao, Estaline, Henrique VIII, Jeffrey Dahmer, Mussolini, Pinochet, Gilles de Rais, Idi Amin, Saddam Hussein, Kim Jong-Il, Alexander Pichushkin, Bin Laden, isto só para mencionar alguns dos mais mediáticos.

  3. Pessoas humanas é um sinónimo para pessoas físicas ou singulares em contraposição às denominadas pessoas colectivas (que também possuem outras denominações).

    Pessoalmente não gosto muito da expressão mas é perfeitamente válida (embora possivelmente demasiado especifíca do saber jurídico para ser adequadamente empregue em outros contextos).

    1. Confesso a minha ignorância, não sabia que a expressão é um termo jurídico. Seja como for, e a avaliar pelos contextos em que a vejo citada, quem a usa sabe tanto disso como eu.

  4. Ó Aninha, tão não vê que a pessoa não humana habita na pessoa humana? Tão não vê que a pessoa humana é aquela que se indigna com o abate de um cachorro e não verte lágrimas por uma criança trucidada pelos dentes de uma besta?
    Bem, creio que estamos perante um problema de educação. A onda educacional que tem varrido o mundo, através dos novos paradigmas, protótipos, tem esquecido efectivamente o lado da “coisa”. Estou convencido que a pessoa não humana tem de ser educada no sentido de fazer soltar a pessoa humana.

    Por falar em educação, deixo aqui algo que penso ser muito útil aos professores, políticos, pais e mães, à sociedade em geral. É necessário acabar com a viciação do pensamento. Para quem esteja interessado em matéria de evolução, por favor, veja com atenção estes vídeos:

    http://www.youtube.com/watch?v=s8AdyYMkxgI

    E de uma forma mais breve, aqui:

    http://www.youtube.com/watch?v=YoMzsaRTW5U

    Nota: O orador foi ministro da educação na Finlândia.

    1. Bons temas de debate, Anoniminho. Obrigada pelos videos. Tem razão, há que repensar muita coisa na educação actual, já que a evolução nos tornou prisioneiros das nossas próprias conquistas. São as duas faces de todas as moedas, suponho.

    1. Não é nada maçador e tenho pena de não poder ajudá-lo, mas não sei o que me pergunta. Encontrei-a na net e guardei-a por ter gostado muito desta cabeça de medusa alada (ou será outra figura mitológica qualquer?), mas não sei onde fica.

  5. Pois aí é que está o busílis da coisa. É que para alguns, o conceito de pessoa devia alargar-se a outras espécies não humanas. Daí a expressão. Logo a sua pergunta arrisca a ter muitas respostas afirmativas.

  6. Em algumas terras do Alentejo costumam dizer: “cadelas que se avezam a pintos, só mortas!”
    Quanto mais um cão que matou uma criança de 18 meses.
    Haja decoro! Também há limites prá cretinice.
    Os que têm muita pena do cão, levem-no para casa deles, para o pé dos filhos deles, se os tiverem.

    1. O cão matou por puro instinto, e ao que parece porque foi treinado para o ataque. Mas não deixa de ser um perigo público, é mais do que provável que volte a matar se tiver oportunidade disso. Mas não é disso que trata este post, Alexandre. Como já disse, não quero contribuir para reacender a polémica. Já basta o que vai por aí.

  7. Repare-se na argumentação de um tal CAMPUS:
    “Fui um dos esquizofrénicos que assinou a petição. Vou tentar dizer-lhe, não onde habita a “pessoa não humana” mas alguns exemplos dessa espécie, Hitler, Andrei Chikatilo, Mao, Estaline, (…)”.
    Este CAMPUS conteve-se, porque o que ele gostaria mesmo escrever era que é no cão onde “habita” a “pessoa não humana”, mesmo que esse cão se chame Zico e tenha morto, instintivamente – logo sem culpa própria, entenda-se -, um simples bébé, a merecer, portanto, outra oportunidade, mesmo que para matar outro, claro.
    Desculpe de repisar nesta polémica insana, como lhe chamou, mas com gente desta dificilmente me contenho.

    1. Tiro ao Alvo, parece que este caso do cão, continua a agitar muitas consciências, de tal maneira que continua na ordem do dia. Ainda bem, pois as mais de 70 mil pessoas que assinaram até agora a petição, apesar de serem tratadas como assassinos de bebés e malucos e acusados de porem os animais à frente dos homens, continuam em defesa da responsabilização dos donos dos animais e de quem tem a obrigação de fiscalizar os animais de raças perigosas, fazendo cumprir a lei. Bom será que esses que partem facilmente para o insulto, contribuam para o verdadeiramente importante.

  8. Caríssima Ana,
    Em Teologia, por exemplo, há mais do que uma palavra grega traduzida como “pessoa”. Deixo aqui os linques para 2 artigos ad Wikipedia que, embora contenham algumas incorrecções, são bastante esclarecedores para alguém que queira começar a estudar a utilização e a origem da palavra.
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Pessoa_%28religi%C3%A3o%29
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%B3stase_%28religi%C3%A3o%29#Teologia_crist.C3.A3

  9. Veja lá bem, veja como somos, ou quiçá como nos vemos -.como cães? Ou serão os cães como nós?
    No final o que se vê é um “monte” de gente interessada num linchamento de um animal irracional que viveu e vive (ainda) por e para capricho de um qualquer idiota humano. Quanta hipocrisia há nisto?

  10. É de facto “chover no molhado”. Porque não há humanos que não sejam pessoas nem pessoas que não sejam humanas. Ainda que muitas – demais – nem sequer o pareçam.
    Mas um pleonasmo, por estúpido que possa ser, mesmo a pretender evidenciar sabedoria, nunca chega a ser tão mau quanto certas contradições… que até nem o parecem.
    Sabia, por exemplo, que na União Soviética se internavam pessoas (humanas, claro) em hospitais psiquiátricos diagnosticadas de “mania de marxismo”? É que lá, oficialmente, não podia haver presos políticos.
    E que há mesmo pessoas que, quando a opinião alheia não está de acordo com o que consideram a opinião certa, impedem a expressão? E que o fazem com tanta segurança que ainda se orgulham de não praticar censura?
    Os meus cumprimentos

  11. Vexa tem toda a razão. É uma patetice que dura há uns 30 anos, pelo menos…
    Para mim, além da Pessoa (humana) só há a Pessoa Divina, mas isto é sentir, é Fé, é Religião.
    Também há a pessoa desumana mas isto é um adjectivo para uma pessoa que é uma besta.
    Para mim, um homem é um homem e um bicho é um bicho.
    Humanizar os animais é o mesmo que animalizar os humanos, o que tem sido feito com notável esmero pelos que, numa época que se afirma como lógica e científica, propõem os hábitos animalescos como conquistas desta civilização.
    Raios os partam!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *