Começámos mal: pegámo-nos, num blogue onde eu me estreava e ele era comentador habitual com o nick J.C. (ver os comentários ao post). Mas logo aí se percebeu que as nossas divergências seriam civilizadas e saudáveis, coisa de gente que se respeita. Depois, com o tempo e muitas trocas de ideias em caixas de comentários, veio a amizade virtual. Implacável na defesa das suas teses (era muito mais conservador do que eu), o João era sempre de uma elegância irrepreensível e tinha uma ironia fina, subtil, que me divertia e me vergava. Era mestre no trocadilho. Tivemos despiques memoráveis, de que ficará o registo aqui no Delito e a saudade na minha memória. Um dia, a amizade passou de virtual a real, carne e osso a confirmar a empatia e a confiança. Foi um anfitrião insuperável nas suas ilhas de adopção, territórios mágicos a que me rendi sem retorno desde o primeiro olhar, e a que voltei e voltarei sempre que a vida mo permitir. A última vez que o vi foi no Porto, já em tratamento e consciente do seu estado grave. Tomámos um café, conversámos e rimos como se tudo estivesse bem, e não pude deixar de reparar no estoicismo de quem tudo fazia para manter o prumo e não dar o flanco à doença. Quando me despedi, apesar dos meus protestos fez questão de me acompanhar ao carro e abrir-me a porta, galante como sempre. Sorridente, espicaçou-me com o seu tema preferido pela última vez: “O que é que pensas, que eu sou um desses mouros que não sabem comportar-se com uma senhora? Aqui no Porto ainda há cavalheiros, ora essa!”.
Era um homem de coragem e provou-o até ao fim. Vai fazer falta, tanto ao DO – onde será insubstituível – como aos amigos. A vida continua, como sempre. Mas continua mais pobre.

Muito bem, Ana. O João era mesmo assim como o retratas – tão bem captado em tão poucas linhas.
É assim que vou lembrar-me sempre dele, Pedro.
Gostei muito do teu texto, que tão bem descreve o João e do bónus que lhe acrescentaste. Refiro-me à troca de comentários ao teu antigo post onde se percebe tão bem a elegância, a delicadeza e o sentido de humor que faziam dele uma pessoa tão querida por todos nós.
É verdade, Teresa.
Em meu nome, no da minha mãe e irmã, agradeço o
bonito texto, que tão bem retrata o meu irmão.
Um abraço sentido às três, Dai. A amizade do João foi um gosto e uma honra para mim.
Fui um grande amigo do João Manuel, desde a infância.
Foi pena ter partido mas a vida é mesmo isto. Paz à sua alma.
Bem sabemos, caro Jorge, como ele era seu amigo. Partilhava consigo a paixão dos comboios e várias vezes o citou aqui no Delito.
Que boa recordação esta que aqui trouxeste, Ana.
Lembrei-me deste episódio e fui à procura deste post. Ainda lá está, com comentários e tudo, apesar de o blogue ter desaparecido e depois ter sido completamente remodelado. Ainda bem. 🙂
Condolências à família e amigos. Gostava bastante de o ler aqui, sobretudo nas pequenas conversas que por vezes acontecem na caixa de comentários.
E o que ele gostava dessas conversas, Vasco.
Lindo, Ana. Como tu tiveste a sorte de conhecer um pouco de um homem raro.
É verdade, João. Foi só um pouco, de facto, mas guardo dele uma óptima memória.