Só não será se não quiser


Sérgio de Almeida Correia,

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Se António Guterres era até ontem o homem que o PS esperava que ainda pudesse vir a ser o seu candidato presidencial, agora que estão desfeitas as dúvidas sobre as intenções e o caminho que o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados pretende tomar, só lhe resta uma opção que de algum modo se aproxima do perfil do desistente que não chegou a partir. Refiro-me a Guilherme de Oliveira Martins.

Católico como uma grande parte dos portugueses, homem de saber e cultura, com experiência da vida e visão do mundo, possuidor de um percurso académico, político e profissional de que poucos dos actuais políticos podem dar mostras, ministro três vezes – Finanças, Educação e Presidência -, com carreira académica numa escola de prestígio – a Faculdade de Direito de Lisboa -, saiu em ruptura do PSD, esteve na ASDI, foi apoiante de Mário Soares, porta-voz do MASP, deputado, enfim, tem um currículo que fala por si e que não precisa de recorrer a falsificações académicas e profissionais para poder brilhar. Para além disso, nunca dependeu de ajudas de custo, de favores, de autarquias ou das empresas de amigos e conhecidos para poder subir na vida. É um homem sereno, discreto, civilizado, capaz de dialogar à direita e à esquerda, sem ideias feitas e radicalismos bacocos, com a noção do caminho que Portugal precisa de fazer para se reabilitar e sair da crise de valores, entre outras crises igualmente graves, em que se vai afundando. A seu favor tem também o facto de saber falar, ler e escrever com correcção, e não apenas em português, coisa que muitos outros putativos, aspirantes e já declarados candidatos presidenciais não sabem.

A tudo isto junta-se a sua independência, reafirmada exemplarmente na forma como sem tibiezas nem meias-palavras tem exercido o mandato de Presidente do Tribunal de Contas, fazendo-o de forma pedagógica e malhando quando é preciso, respeitosamente, na canalha, o que fez tanto no tempo de José Sócrates como nos dias que correm com Passos Coelho.

Neste momento vejo-o como o único homem que pode preencher o espaço deixado vago por António Guterres e aquele que está em melhores condições para com o apoio do PS, e mesmo sem o apoio do PSD, poder vencer folgadamente as presidenciais logo à 1.ª volta. A entrevista que ainda muito recentemente deu ao Público/Renascença, e à qual não terá sido dada a importância que merecia, constituiu um sinal da sua vitalidade, capacidade e preparação para o exercício de um cargo que necessita urgentemente de ser valorizado e dignificado. 

Guilherme de Oliveira Martins sabe qual o valor da liberdade, é um homem tolerante e um democrata, possui indiscutível sentido de Estado, e é uma pessoa de uma seriedade à prova de bala, sem telhados de vidro (é minha convicção). Ele só não será o próximo Presidente da República se não quiser. Por tudo isso, e independentemente do facto de ter sido, com gosto, seu aluno, por duas vezes, o que para o caso é irrelevante mas entendo que deve ser levado ao meu registo de interesses para que os leitores o saibam com toda a transparência, gostaria de o ver chegar-se à frente. Resolvia um problema ao PS, resolvia um problema ao País e aos portugueses, e estes não correriam o risco de ver em Belém um qualquer boneco de plasticina ignorante.

Presidenciáveis (34)


Pedro Correia,

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Belmiro de Azevedo

 

Um grande empresário, com uma riqueza descomunal, pode chegar a Presidente da República? Pode tentar, como aconteceu com Ross Perot nos EUA em 1992. E pode até conseguir, como sucedeu no Chile com Sebastián Piñera. Ambos têm como possíveis equivalentes o histórico patrão da Sonae, Belmiro de Azevedo. Ambição não lhe falta (costuma dizer que o “homem Sonae” deve ser ambicioso). E pretensões de regenerar a vida política portuguesa também não.

Tem 77 anos, é do signo Aquário.

 

Prós – Filho de uma costureira e de um carpinteiro, é o mais velho de oito irmãos. Tornou-se  o segundo homem mais rico de Portugal depois de ter subido na vida a pulso, ao contrário dos ricaços já nascidos em berço de ouro – um self made man, como se diz em português tecnocrático. E é proprietário de um jornal, o que dá sempre jeito a quem quer fazer campanhas.

 

Contras – Muita gente embirra com a Sonae e os hipermercados de Belmiro de Azevedo, preferindo a concorrência que pratica preços mais em conta. A suposta arrogância do empresário não o favorece sequer junto dos seus pares – lá diz o povo: dinheiro compra pão, não compra gratidão. E não falta quem entenda, com argumentos ponderáveis, que é pouco prudente dar poder político aos titulares do poder económico.

Os motores já aquecem


Pedro Correia,

2 de Fevereiro: Carvalho da Silva presidenciável

9 de Abril: Carvalho da Silva já prepara candidatura às presidenciais

 

23 de Fevereiro: Sampaio da Nóvoa presidenciável

3 de Abril: Sampaio da Nóvoa a Presidente com apoio de Mário Soares

 

25 de Março: Paulo Morais presidenciável

9 de Abril: Paulo Morais é candidato a Belém

 

ADENDA: a série Presidenciáveis vai prosseguir no DELITO

Presidenciáveis (33)


Pedro Correia,

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Assunção Esteves

 

O léxico político português, já a caminho de uma provecta idade após 40 anos de regime constitucional, precisa de ser renovado. E que melhor protagonista para essa renovação do que a presidente da Assembleia da República, fértil em criativos contributos para uma mudança radical dos hábitos políticos – pelo menos ao nível do vocabulário?

“O meu medo é o do inconseguimento de eu estar num centro de decisão fundamental a que possa corresponder uma espécie de nível social frustracional derivado da crise.” Esta foi uma das declarações de Assunção Esteves que produziram mais eco no País. Nem todos a compreenderam devido à profunda iliteracia política ainda vigente neste cantinho ocidental da Europa.

Nunca uma mulher foi inquilina titular do Palácio de Belém – atavismo que seria combatido pela social-democrata Assunção Esteves, transmontana de 58 anos e signo Balança. Eleita deputada em 1987, com apenas 31 anos, passou uma legislatura no Parlamento Europeu (2004-09). Em 2011 ascendeu a segunda figura do Estado, como presidente do Parlamento. Outra originalidade: jamais tão distinta função havia sido antes desempenhada por alguém pertencente ao género feminino, o que deve ter aumentado o nível frustracional do marialvismo português.

 

Prós – É uma pessoa versada em letras, como ficou bem patente em 2013, ao citar Simone de Beauvoir no plenário da Assembleia da República, quando nas galerias reservadas ao público se escutaram sonoros protestos: “Não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus costumes.” Tem independência financeira, pois obteve aos 41 anos a pensão de reforma por inteiro após uma década como juíza no Tribunal Constitucional (7255 euros), o que lhe permitiu prescindir do salário de presidente da Assembleia da República (5219 euros), dada a impossibilidade de acumulação entre os dois vencimentos definida na legislação em vigor.

 

Contras – O orçamento da Presidência da República agravar-se-ia com a contratação de um contigente reforçado de tradutores-intérpretes destinados a clarificar as mensagens emanadas do Palácio de Belém. As crónicas sociais seriam inundadas de especulações em torno de candidatos a candidatos a Primeiro Cavalheiro desta dama que persiste em manter-se solitária.

Presidenciais (32)


Pedro Correia,

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Manuela Ferreira Leite

 

Num certo aspecto, reúne as condições ideais para suceder ao actual inquilino de Belém. Esta sagitariana de 74 anos é aquilo a que no cinema se chama um perfeito duplo de Cavaco Silva: alta, magra, angulosa, séria, espartana e com apetite incontrolado por operações de aritmética. O ideal em tempos de crise, certamente na opinião de alguns. Além disso, durante a campanha, podia piscar ambos os olhos. À direita: “Eu não vos avisei a tempo que os grandes projectos de obras públicas socráticos deviam ser suspensos?” E à esquerda: “A vitória do Syriza é uma grande vitória da democracia.”

 

Prós – Contaria com o apoio de diversas personalidades da esquerda – de António Capucho a Francisco Louçã. Resolveria um problema ao Bloco de Esquerda, que ainda não tem candidato presidencial. Varoufakis poderia vir de Atenas abrilhantar os seus comícios, com acompanhamento fotográfico da revista Paris-Match.

 

Contras – Algum espírito maldoso poderia desenterrar aquela sua célebre frase dos tempos já remotos em que personificava entre nós uma certa direita monetarista pró-alemã: “Quem manda é quem paga.” Outro espírito, porventura mais maldoso ainda, talvez fosse ao ponto de lembrar que, enquanto ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite inaugurou a chamada  “contabilidade criativa” destinada a camuflar o défice real das contas públicas.

Presidenciáveis (31)


Pedro Correia,

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Carlos César

 

Andam os socialistas em crise de orfandade presidencial, transformando as redes sociais num insólito processo de primárias para a corrida a Belém, e poucos parecem ter reparado ainda num homem talhado para enfrentar o desafio. Carlos César, o socialista que em 1996 pôs fim a duas décadas de consulado social-democrata na Região Autónoma dos Açores, ancorou há quase três anos no continente sonhando certamente com voos mais altos.

Ostenta um currículo político sedimentado por sucessivas vitórias com maioria absoluta nos escrutínios regionais, não lhe falta tempo disponível, parece ter a idade adequada (58 anos) e até já é presidente. Não do País, mas do PS.

Existem algumas diferenças entre os dois cargos, claro. Mas a política é mesmo assim: feita de pequenos passos.

 

Prós – Ninguém como ele terá tão sólidas perspectivas de vitória nos Açores, onde deixou boa reputação como governante (1996-2012). Pertence ao mesmo signo astrológico de Álvaro Cunhal e Francisco Louçã (escorpião), o que talvez facilite uma futura “unidade de esquerda”. Tem apelido de imperador, o que dá sempre jeito quando se pretende conquistar o poder.

 

Contras – Não faltará quem jure que lhe falta verdadeira dimensão nacional para se tornar inquilino do Palácio de Belém. Os nossos dois primeiros presidentes, Manuel de Arriaga e Teófilo Braga, também eram açorianos mas nenhum deles foi bem sucedido nas funções. Precisa de se acautelar com algum Bruto socialista que ambicione anavalhá-lo pelas costas.

Presidenciáveis (30)


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Mário Nogueira

 

Consta que o PCP anda à procura de um candidato presidencial. Talvez não encontre melhor, no capítulo da notoriedade, do que Mário Nogueira: sozinho, o secretário-geral da Fenprof parece um habitué mais regular nas televisões do que qualquer dirigente da oposição parlamentar.

Ex-mandatário nacional da candidatura presidencial de Jerónimo de Sousa em 2006, este militante comunista de signo Capricórnio e fervoroso adepto do Sporting chegou a ser conotado com a ala renovadora do PCP. Passou-lhe depressa o vírus “fraccionário”: hoje exibe impecáveis credenciais de ortodoxia.

Tem 57 anos, mas parece mais novo: pelos vistos, o sindicalismo à moda antiga rejuvenesce. Sobretudo quando é exercido em regime de dedicação exclusiva há 24 anos, como é o caso.

 

Prós – Contará com o voto de muitos docentes. Ninguém da sua área política lhe contesta as credenciais de esquerda. E tem tempo de antena garantido: adora as televisões e esta paixão parece ser recíproca.

 

Contras – Não deverá contar com votos de ex-alunos, até por quase ninguém já se lembrar dele numa sala de aulas: deixou de leccionar em 1991, quando ainda existia União Soviética. Usa bigode, adereço definitivamente fora de moda para um inquilino do Palácio de Belém. O último a usá-lo foi o marechal Óscar Carmona (1926-1951).

Presidenciáveis (29)


Pedro Correia,

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Carlos Monjardino

 

Foi um dos mais jovens banqueiros portugueses. Fez parte do núcleo de organizadores da campanha presidencial de Mário Soares, em 1985-86, como director financeiro. Assumiu a pasta da Economia e Finanças do Executivo de Macau, onde serviu largos meses como encarregado do Governo. Da relação de amizade que forjou com Stanley Ho nasceu a milionária Fundação Oriente.

Carlos Monjardino está habituado a lidar com milhões, mas sempre foi um homem de esquerda. É um socialista sem partido, como costuma dizer de si próprio este capricorniano de 72 anos. Uma espécie de Manuel Alegre sem poesia. Com a vantagem de poder contar com o apoio aberto e entusiástico de Soares, ao contrário do que sucedeu com Alegre em 2006.

 

Prós – É um cidadão do mundo, que jamais falaria “inglês técnico” ao ser recebido na Casa Branca ou “francês técnico” nas visitas ao Eliseu. Sabe ler um Plano de Estabilidade e Crescimento do princípio ao fim. E não teria dificuldade em conseguir financimento para uma campanha eleitoral. Soares votaria nele.

 

Contras – A ligação a Stanley Ho torná-lo-ia num alvo permanente do sarcasmo de Ana Gomes e dos decibéis de Catarina Martins. Alguma esquerda mais radical não tardaria a acusá-lo de advogar a “economia de casino” no País. Alegre talvez produzisse dois sonetos contra a plutocracia. Soares votaria nele.

Presidenciáveis (28)


Pedro Correia,

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Paulo de Morais

 

Há quem sonhe com um justiceiro em Belém. E ninguém merece mais este rótulo do que o vice-presidente da associação cívica Transparência e Integridade, Paulo de Morais, que em 2001 Rui Rio arrancou a uma pacata existência como docente de Estatística e Matemática ao torná-lo seu efémero braço direito na Câmara Municipal do Porto, com os pelouros da habitação e urbanismo.

Este minhoto de 51 anos, signo Capricórnio, não tardou a trocar a Avenida dos Aliados pelos ecrãs televisivos e pelas colunas dos jornais, onde vai expressando o seu imenso nojo por quase tudo quanto mexe na política. 

É um discurso muito sintonizado com o ar do tempo. Ajuda a captar audiências e agrada a muita gente disposta a “pôr fim a esta bandalheira” – seja lá o que isso for.

 

Prós – Tem a pose grave e o gesto solene de quem se dispõe a qualquer sacrifício para regenerar o País. Mantém lugar cativo no Correio da Manhã, tanto na versão televisiva como na edição em papel.

 

Contra – A sua retórica cruza por vezes em excesso o discurso do taxista com a prédica do tele-evangelista. Em certos momentos abusa do odor a santidade: chega a ser cansativo ver tanta virtude concentrada numa pessoa só.

Presidenciáveis (27)


Pedro Correia,

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Henrique Neto

 

Enquanto alguns candidatos a candidatos fingem que não querem embora querendo, outros não se importam de assumir o que verdadeiramente pensam. É o caso de Henrique Neto, que se prepara para anunciar a participação na corrida a Belém. Indiferente às críticas logo emanadas do próprio partido em que milita e ao desdém do secretário-geral – o que não surpreende, para quem se lembra do modo como tantos barões do PP se comportaram em relação a Manuel Alegre em 2006 – este ex-deputado socialista de 78 anos, antigo militante do PCP, correrá em pista própria. Com a independência de espírito que costuma caracterizar os nativos de signo Touro.

 

Prós – Nunca dependeu da política para ganhar a vida. Tem um notável percurso pessoal: oriundo de uma família operária na Marinha Grande, começou a vida profissional aos 14 anos como aprendiz na indústria da embalagem de madeira e chegou a empresário de sucesso na indústria de moldes. Medina Carreira vai apoiá-lo.

 

Contra – É um desalinhado, o que o coloca à margem dos circuitos dominantes na comunicação social. Mesmo muitos anos depois, o PCP não costuma perdoar a quem abandonou o partido. Não deixará de contar com a hostilidade de vários socialistas, que apregoam a pluralidade de opiniões mas cultivam a unanimidade de posições.

Presidenciáveis (26)


Pedro Correia,

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João Lobo Antunes

 

Não faltam eleitores que estão fartos de políticos profissionais no topo do Estado e consideram – justamente – que a Presidência da República deve abrir-se a outras proveniências.

Vários desses eleitores, em número crescente, acolheriam certamente com bons olhos a candidatura de João Lobo Antunes, conselheiro de Estado e um dos mais prestigiados médicos portugueses.

Galardoado com o Prémio Pessoa, este neurocirurgião de 70 anos, signo Gémeos, poderia avançar com a promessa de curar muitas feridas abertas na sociedade portuguesa, de saúde tão precária.

 

Prós – Para slogan pode adoptar o título de um romance do irmão António sem pagar direitos de autor: “O Meu Nome é Legião”. A sua filha, a actriz Paula Lobo Antunes, daria certamente um brilho especial à campanha. 

 

Contras – Há o risco de alguns eleitores, iletrados ou talvez não, confundirem João com António, que em tempos foi candidato da CDU. Os mais ferrenhos adeptos de Saramago não veriam com bons olhos um Lobo Antunes em Belém.

Presidenciáveis (25)


Pedro Correia,

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Maria José Morgado

 

Não falta quem diga: é mais que tempo de termos finalmente uma senhora na suprema magistratura da república. E porque não a procuradora-geral adjunta mais célebre do País? Maria José Morgado levou para o Ministério Público o espírito combativo que já demonstrara nos idos de setenta, quando era uma aguerrida militante do MRPP. Trocou a cartilha maoísta pelo Código Penal, começou a usar maquilhagem e demonstrou que neste país de brandos costumes há quem saiba falar sem papas na língua.

Alguns colegas dirigem-lhe remoques mal disfarçados, alguns políticos detestam que ela lhes roube protagonismo mediático, alguns autarcas têm pesadelos em que ela lhes surge de lança justiceira na mão arvorada em Padeira de Aljubarrota do século XXI.

Tem 63 anos mas não perdeu uma certa aura adolescente. O que só lhe fica bem.

 

Prós – Diz aquilo que pensa sem pedir licença a ninguém. Certos barões do futebol não vão à bola com ela, o que lhe basta para render votos em vários estádios.

 

Contras – Não terá a personalidade mais adequada para “cooperações estratégicas” de qualquer espécie. As brigadas da correcção política podem persegui-la com memórias incómodas do seu maoísmo juvenil.

Presidenciáveis (24)


Pedro Correia,

 

Vital Moreira

 

Se o Presidente da República é o “garante supremo” da Constituição, porque não ter no Palácio de Belém um dos próprios autores da lei fundamental? Vital Moreira, que se gaba de nunca virar costas a desafios, certamente não desdenharia tal cenário. O professor universitário coimbrão que foi jovem estrela da Assembleia Constituinte e se distinguiu como parlamentar comunista antes de ter rompido com o PCP e passar a integrar a bancada do PS em São Bento tem mais currículo do que outros proto-candidatos que vão animando as manchetes. Desde que António José Seguro decidiu riscá-lo da lista de candidatos ao Parlamento Europeu, em 2014, tempo não lhe falta. E disponibilidade ainda menos.

Tem 70 anos. Signo: Escorpião.

 

Prós – A sua inabalável fidelidade ao socialismo, embora em várias versões (“real”, numa fase, “democrático” noutra). É co-autor (com Ana Gomes) de um dos mais lidos blogues políticos portugueses, Causa Nossa. E é manifesta a sua capacidade de gerar incidentes capazes de abrir telejornais, como ficou patente no 1º de Maio de 2009, quando se atravessou no caminho da ala mais dura da CGTP a troco de empurrões e cuspidelas.

 

Contras – À esquerda do PS, dificilmente recolheria votos – apesar de ter sido militante do PCP ou por causa disso mesmo. Tem no seu percurso político uma derrota categórica contra Paulo Rangel na corrida ao Parlamento Europeu. Não suporta críticas, o que indiciaria muitos “vetos de bolso” e pouca ou nenhuma cooperação institucional com qualquer primeiro-ministro.

Presidenciáveis (23)


Pedro Correia,

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João Bosco Mota Amaral

 

É o político há mais tempo continuamente em funções em Portugal. Desde que entrou na Assembleia Nacional caetanista, em 1969, nunca mais parou: liderou a autonomia açoriana, como primeiro presidente do Governo Regional; foi segunda figura do Estado, como presidente da Assembleia da República; mantém-se como deputado social-democrata.

Não falta quem diga, eventualmente com muita razão, que Mota Amaral, fundador do PPD/PSD tem ambições presidenciais. Depois de vários presidentes da Maçonaria, chegará a hora de haver um do Opus Dei?

Açoriano de Ponta Delgada, tem 71 anos. Signo Carneiro.

 

Prós – Seria o mais forte candidato a vencer as presidenciais nos Açores, onde até muitos socialistas votariam nele. Habilitava-se a ser o primeiro Presidente de direita a usar cravo vermelho nas sessões solenes do 25 de Abril: durante anos, foi o único deputado do PSD que o fez. É um firme opositor do aborto ortográfico.

 

Contras – Muitos eleitores de esquerda não gostariam de ter como Chefe do Estado alguém que foi deputado antes do 25 de Abril, embora na chamada “ala liberal”. O sotaque cerrado de Mota Amaral daria algumas dores de cabeça aos tradutores-intérpretes. Apreciariam os portugueses um Presidente sem primeira dama?

Presidenciáveis (22)


Pedro Correia,

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Vasco Lourenço

 

O presidente da Associação 25 de Abril tem feito sucessivas declarações sobre a necessidade de o futuro inquilino de Belém ser uma personalidade fora do espectro partidário.

Estará a pensar nele próprio? É bem capaz.

Antigo capitão de Abril, graduado em general durante a revolução e reformado com a patente de coronel, Vasco Lourenço já enfrentou desafios mais complicados durante uma longa carreira que incluiu comissões militares na guerra em África.

Sportinguista militante e beirão dos quatro costados, este geminiano de 72 anos tem o mérito de falar claro, segundo alguns. E, segundo outros, tem o demérito de nem sempre pensar bem naquilo que diz.

 

Prós – No 25 de Abril de 1974 esteve do lado certo da barricada, levantando-se contra a decrépita ditadura da direita. No 25 de Novembro de 1975 voltou a estar do lado certo ao travar o passo aos golpistas da esquerda totalitária.

 

Contras – De Sidónio Pais (1917-18) a Ramalho Eanes (1976-86), os militares já ocuparam o palácio de Belém durante 61 dos 115 anos da república. Chamar “nazi” ao ministro alemão das Finanças e “mentiroso contumaz” a Passos Coelho é transportar para a política a linguagem de caserna.

Presidenciáveis (21)


Pedro Correia,

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Rui Moreira

 

E porque não um candidato do Norte? Um candidato com imagem de empreendedor, bem falante, habituado a emitir opiniões sem papas na língua, conhecedor das técnicas mediáticas e capaz de agregar apoios dos mais diversos quadrantes. Rui Moreira, 58 anos, não teria certamente dificuldades de lançar uma candidatura a Belém. E atenção: ele sabe bem o que são vitórias. Por ter triunfado na corrida autárquica do Porto, em Setembro de 2013. E por ter sido campeão de vela.

 

Prós – Um Presidente da República deve ser fluente em vários idiomas: Rui Moreira, que estudou no Colégio Alemão do Porto e licenciou-se em Gestão pela Universidade de Greenwich, em Londres, passaria certamente este teste. Notabilizou-se, durante o mandato de José Sócrates, por ter sido um dos maiores opositores à construção de um aeroporto na Ota: o tempo deu-lhe razão, como hoje bem sabemos.

 

Contras – É Leão só de signo: no desporto, sempre foi um fervoroso adepto do FC Porto. Se alguém quer vê-lo feliz é em dia de vitórias dos “dragões” num estádio qualquer – uma característica que o torna pouco ou nada popular junto de benfiquistas e sportinguistas. O seu discurso pró-regionalização também se arriscaria a afugentar alguns eleitores, designadamente em Lisboa. O centralismo é tramado.

Presidenciáveis (20)


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João Cravinho

 

Se existem senadores no PS – no que esta expressão conjuga de experiência, sensatez e capacidade de expressar opiniões com substância e uma voz inconfundível – um deles é seguramente João Cravinho. Este socialista habituou os militantes – e o País – a falar com desassombro, tendo por vezes razão antes de tempo, como quando invocou a necessidade de se combater com eficácia a corrupção ainda antes de os casos mediáticos actuais terem rumado às primeiras páginas. É sem dúvida presidenciável. Mas uma corrida a Belém, para ele, jamais seria numa auto-estrada sem custos para o utilizador. Até porque as SCUTs – de que ele foi o inspirador – passaram de moda.

Tem 78 anos. Signo: Virgem.

 

Prós – Costuma dizer o que pensa, o que é caso raro na classe política portuguesa. Tem um currículo apreciável como governante: foi ministro da Economia, Planeamento e Administração do Território.

 

Contras – O facto de dizer o que pensa criou-lhe anti-corpos no PS de Sócrates. O seu percurso no período imediatamente posterior ao 25 de Abril, quando foi dirigente do Movimento de Esquerda Socialista, pode ainda hoje afugentar alguns eleitores do centro.

Presidenciais (19)


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António Sampaio da Nóvoa

 

De vez em quando alguém se lembra de tirar sugerir um ilustre catedrático para candidato presidencial. Nada que não tenha já ocorrido num passado próximo ou distante, nada que não venha a ocorrer algures no futuro.

António Sampaio da Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa, é o académico mais em voga nesta saison pré-presidencial. Por cortesia de Mário Soares, que adora descobrir candidatos desde que deixou Belém (há cinco anos foi ele quem desafiou Fernando Nobre a avançar).

Nascido em 1954, Sampaio da Nóvoa distinguiu-se fora do perímetro universitário como orador oficial do 10 de Junho de 2012, tendo empolgado uns quantos espíritos com a sua peça oratória. “Foi o melhor discurso que ouvi na vida”, confessaram alguns dos que o escutaram.

É de esquerda, sem ortodoxias, mas assume-se como compagnon de route do PS desde que participou no congresso socialista de Novembro. Ostenta um currículo académico irrepreensível, com doutoramentos em Ciências da Educação (Genebra) e História (Sorbonne). Além disso já garantiu aos indígenas ter “uma relação forte com o País” – algo que soa sempre bem mesmo quando não percebemos ao certo o que significa.

 

Prós – Praticamente sem anti-corpos, ao contrário de quase todos os outros candidatos a candidatos. Tem o dom da palavra e apresenta-se bem (de cravo na lapela, a 25 de Abril).

 

Contras – Poucos sabem quem ele é fora dos círculos universitários. O apelido Nóvoa presta-se a trocadilhos demasiado fáceis, podendo confundir-se com névoa.

Presidenciáveis (18)


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António Bagão Félix

 

Um dos benfiquistas mais conhecidos do País, fervoroso crente em Jesus, não teria dificuldade em obter sucesso na campanha presidencial à boleia do futebol. O democrata-cristão Bagão Félix, especialista em finanças públicas e “pai” de um polémico Código do Trabalho agora lembrado com saudade pela mesma esquerda que o contestou, tem motivos para sorrir: faz figura de Keynes em comparação com Maria Luís Albuquerque e quase parece um dirigente da CGTP no confronto com o ministro Mota Soares, de quem deveria estar mais próximo por afinidade partidária.

Sorri tanto que talvez até sonhe com Belém, onde poderia distribuir pastelinhos conservadores polvilhados com canela socialista.

 

Prós – A experiência adquirida como vice-governador do Banco de Portugal levaria este nativo de signo Carneiro, de 66 anos, a falar de cifrões tu-cá-tu-lá com Angel Merkel, que controla as nossas contas públicas. Numa nação com seis milhões de benfiquistas, andar de águia ao peito é um trunfo que não pode ser menosprezado. O cineasta João Botelho, seu amigo, realizaria os vídeos da campanha. Francisco Louçã, também seu amigo, talvez integrasse a Comissão de Honra da candidatura.

 

Contras – Muitos benfiquistas preferiam vê-lo na presidência do clube, não do País. Alguns eleitores ainda não esqueceram o atribulado e brevíssimo governo de Santana Lopes, em que Bagão foi ministro das Finanças. Os vídeos de João Botelho poderiam levá-lo a perder os votos de benfiquistas com veia cinéfila, como António-Pedro Vasconcelos. O apoio de Louçã talvez causasse ciúmes em presidenciáveis próximos do BE, como Pacheco Pereira e Manuela Ferreira Leite.

Presidenciáveis (17)


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Carlos Carvalhas

 

O PCP, o mais conservador dos partidos portugueses, mantém-se fiel à tradição: terá um candidato próprio ao Palácio de Belém. A “convergência das forças de esquerda”, uma das frases mais pronunciadas na língua de pau da Soeiro Pereira Gomes, jamais contará com o Partido Comunista, que vê “direita” em tudo quanto mexe e mantém uma rivalidade implacável com o Bloco, não só nas legislativas mas também nas presidenciais. Repare-se: desde que existe o BE, os candidatos presidenciais comunistas nunca mais desistiram à boca das urnas.

Mas quem poderá ser o candidato comunista? O melhor é dar crédito à matemática. Nunca o PCP conseguiu tão bom resultado num escrutínio presidencial como no ano em que apresentou Carlos Carvalhas. Foi em 1991: Carvalhas obteve 635 mil votos, correspondentes a 12,5% do eleitorado. Muito melhor do que os pífios 223 mil votos (5,1%) recolhidos dez anos mais tarde pelo candidato António Abreu, de quem já quase ninguém se lembra. Ou dos 7% alcançados em 2011 pelo obscuro Francisco Lopes.

Porque não voltar a apresentar Carvalhas? O ex-secretário-geral – 73 anos, signo Escorpião – está disponível, continua a ser uma presença regular nos ecrãs televisivos e mantém as credenciais mínimas de ortodoxia partidária que fazem dele um homem de confiança da actual direcção do partido. Ao contrário do que acontece com Carvalho da Silva.

 

Prós – É economista, trunfo importante em tempo de grave crise financeira e económica. Foi o homem que Álvaro Cunhal escolheu para seu sucessor, o que fará dele para sempre uma espécie de príncipe ungido pelo carismático monarca vermelho aos olhos dos militantes comunistas. Compensa em simpatia natural, mesclada de timidez, o que lhe falta em carisma.

 

Contras – Os seus discursos têm um efeito entorpecente: conseguem adormecer qualquer plateia. É uma solução de passado e não de futuro, o que até num partido como o PCP não deixa de ser um óbice. E Carvalhas não rivaliza com Jerónimo de Sousa em campanha eleitoral: para jogar à bisca com eles e dançar o tango com elas, não há como o actual líder comunista.