Cabanas, 28 de Abril


Pedro Correia,

 

Pares de andorinhas varrem os ares, em voos vertiginosos, no incessante labor de alimentar as crias. Naturalistas garantem que 41% destas aves que nos são tão familiares extinguiram-se desde 1998, o que é uma excelente notícia para os insectos. Mas estas, na marginal junto à Ria Formosa, teimam em contrariar as estatísticas: regressam todas as Primaveras aos mesmos ninhos, nos mesmos beirais. Já lhes conheci pais e avós desde que frequento estas paragens.

Este é um pequeno paraíso para ornitólogos amadores: melros, poupas e pegas-rabudas esgravatam em liberdade nos jardins; gaivotas imitam patos flutuando nas águas plácidas da ria; garças aproveitam a maré baixa para petiscar em áreas lodosas; pombos arrulham cumprindo o destino que lhes está confiado até aos confins dos tempos, indiferentes ao incessante chilrear dos vizinhos pardais; uma cegonha de asas majestosas eleva-se no céu correspondendo ao suave embalo do vento e mira-nos lá de cima com olímpica indiferença.

À mesa da Noélia, ainda longe das enchentes de Verão, mato saudades das pataniscas de polvo com arroz de coentros. Na mesa ao lado, um jovem casal encomenda ao empregado “duas sopinhas” e uma dose de conquilhas para partilhar: a crise manifesta-se, um pouco por toda a parte, das formas mais imprevistas.

Saio a andar. Gosto de ler placas toponímicas. Passo pela Rua Dr. João Amaral, um deputado de quem fui amigo. Percebemos que estamos a envelhecer quando gente que conhecemos bem desaparece do nosso convívio e reaparece como nome de rua.

Outra placa anuncia a Rua José Luís do Carmo Pereira, um pescador nascido em 1951 e falecido (num naufrágio?) em 2003. Interrogo-me, a propósito: quantas ruas portuguesas terão sido baptizadas com nomes de pescadores?

Mais adiante, junto à sonolenta sede do clube columbófilo, dois velhotes de boné na cabeça discutem futebol com típico sotaque do sotavento algarvio. “O Arbeloa está lesionado mas o Messi não”, argumenta um deles. Sinal inequívoco de que o último reduto do patriotismo português – o futebolístico – já foi abalado até aos alicerces nesta era de globalização da bola.

Vejo árvores familiares que catalogo mentalmente: amoreiras, casuarinas, magnólias, araucárias, choupos brancos ainda sem folhas. E vou escutando múltiplos sons de bichos que me devolvem às intermináveis tardes de infância na província: cigarras, grilos, osgas, rãs…

Cabanas, 28 de Abril de 2013: ao contrário do que dizia o outro, devemos regressar sempre aos lugares onde já fomos felizes. Há 16 anos que te conheço, há 16 anos que não resisto a este impulso cíclico de voltar para ti. Amor à primeira vista, amor para sempre.

Férias remuneradas


Rui Rocha,

Daqui a uns dias, iniciarei um período de 15 dias úteis de férias remuneradas. São a contrapartida de um ano de trabalho. Mas são também o resultado de centenas de anos de lutas políticas e sindicais. E se é verdade que o sentimento actual é de desilusão com políticos e sindicalistas, que sinto que uns e outros perderam algures o fio da história e que não me revejo no modelo da luta de classes que constitui o mainstream do movimento sindical, devo todavia reconhecer que sem essa luta histórica não teria sido possível alcançar algumas das marcas de civilização que  caracterizam o mundo do trabalho actual. E mais. Perto de vinte anos de experiência profissional em diversas empresas deixam-me a certeza de que o equilíbrio entre os interesses de trabalhadores e o dos empregadores nunca seria possível se fosse deixado ao critério destes últimos. Agora que está quase a chegar a minha vez de gozar férias, nada mais justo do que reconhecê-lo.

Como assegurar bonitas fotografias de férias


escafandro,

Solução fácil, com resultados garantidos mesmo em condições climatéricas adversas, permite dispensar a deslocação aos locais retratados e ainda assim poder afirmar-se que «fui eu que tirei». Uma sugestão: é conveniente retirar os postais do expositor antes de os fotografar porque o arame talvez denuncie o estratagema. 

O maravilhoso relato e as belas fotografias das férias


escafandro,

Regressa-se de férias e fala-se do tempo que se apanhou (nunca tão mau que tenha arruinado a experiência), dos locais que se visitaram (quase todos pelo menos muito giros), da temperatura da água da praia onde se ficou assim fantasticamente bronzeado (mas só se fala do bronzeado depois de alguém o mencionar primeiro). Evita-se abordar os maus momentos (de chatice, desilusão, irritação, cansaço) que, aliás, são empurrados para um canto escuro do cérebro onde, com sorte, apenas se voltará nas férias do ano seguinte, ao enfrentar momentos de chatice, desilusão, irritação e cansaço exactamente iguais. Trazem-se centenas ou milhares de fotografias que se mostram a familiares, amigos e colegas de trabalho. Noventa e cinco por cento (vêem, sou capaz de ser magnânimo) são más (tortas, desfocadas, tremidas, cheias de ruído digital, mostrando um primeiro plano vazio e um segundo plano desinteressante); pior, há uma média de trinta e oito fotografias por local, sendo que na maioria dos casos duas seriam suficientes (com frequência, uma; por vezes, nenhuma). Trata-se de um massacre que as vítimas (mas vítimas que tendem a pôr-se a jeito) suportam com um sorriso cada vez mais dorido. Ainda assim, toda a gente mantém as aparências.

 

No que me diz respeito, evito fazer longas descrições das minhas férias e quase não mostro fotografias. Explico que nem pensar em apresentá-las assim, por seleccionar. Seria demasiado penoso para quem as visse, acrescento. Não resulta. Ninguém parece ouvir-me. Ninguém percebe a mensagem implícita e toda a gente continua a mostrar-me cada uma das centenas de fotos que tirou nas férias e a repreender-me por não mostrar as minhas. Serei a única pessoa não-masoquista no raio do planeta? Decididamente, regressar de férias sucks. Mesmo quando são os outros a fazê-lo.

Catedral de Siena. Espectacular, é o que vos digo.

Tenho mais vinte e duas, só do interior.

Já sei: vou publicá-las ao ritmo de uma por dia, ok?

 

Adenda: Se alguma daquelas pessoas que costumam mostrar-me centenas de fotografias de férias estiver a ler isto, é favor ter em conta que não estou a falar dela mas das outras pessoas que costumam mostrar-me centenas de fotografias de férias. (A sério: as tuas são super-giras.)

Esposende


Rui Rocha,

 

Há lugares que parecem feitos para os adoradores do sol. Não é o caso de Esposende. Aqui, celebra-se o vento. É ele o grande organizador dos dias de Verão. É a permanência do vento que nos dá tempo para saborear a pequena cidade. Em tantos dias, é impossível estar na praia. Não são horas perdidas. Praticamente com um pé no Cávado e outro no Atlântico, abrigo-me no Café da Foz, numa plácida disputa entre a contemplação de uma das mais belas paisagens de Portugal e o afago daquele livro que guardei todo um ano para o poder ler naquele exacto momento. É também ali que a angústia do dia-a-dia, por momentos, me toma. Mas, logo  na Foz do Cávado, é a calma que contemplo. Está tanto vento. Esse é o meu sossego. Tenho tempo. O vento, o vento. É com ele que chegam as recordações do dia em que o meu pai correu meia praia, e eu com ele, atrás de um guarda-sol desgovernado que a nortada teimava em levar para longe de nós. Já então a vida lhe fugia. E as de mergulhos gelados envoltos em nevoeiro. Com os ossos a doerem da cabeça aos pés. E da toalha tão morna que a minha mãe me estendia. A mesma que ainda estende quando preciso e que lhe devolvo sempre encharcada. Aqui a maresia entra-nos pelos olhos dentro. Será por isso que os tenho marejados. Será por isso que peço uma cerveja. Não porque o calor imponha a sede. Mas, porque preciso de retomar o fio do tempo. E o livro que guardei todo um ano para ler aqui. Talvez ainda não seja este o exacto momento. Há lugares que não são carne nem peixe. Esposende é peixe. Aquele que servem no Forno, na Apúlia. Ou o que hei-de comprar com a Adélia, no mercado, depois de escolhermos, na vendedeira do costume, os pimentos de Padrón de cada sábado. Apetece-me dar o corpo ao manifesto do vento que varre a marginal. Sei que me há-de levar lá bem ao centro, à Marbela ou à Lili. O vento salgado pede um doce. O vento, o vento. Devia ser assim a vida também. A cada pedaço de sal, a garantia de um doce que nos compensasse. Em Esposende, os doces são clarinhas. Percorrer a marginal dá-me tempo. Para lembrar as mãozitas do Dinis quando, na praia mais lá atrás, pegou em areia pela primeira vez. Era então um Dezembro e a areia fugia-lhe por entre os dedos. Esses com que começa, agora adolescente, a agarrar a vida. Essa vida que a Leonor, por agora ainda menina, também há-de agarrar com a mesma alegria com que gritava Zendi sempre que aqui chegávamos. Gosto de os ver dormir nas noites frias de Esposende. Aconchegados, tal como nós, pela sirene do farol. Sei agora que, mais logo, quando adormecerem, será a sirene a anunciar o momento em que vou, finalmente, abrir o livro que guardei um ano inteiro para ler. Exactamente aqui. Em Esposende.

Vendem-se t-shirts


escafandro,

Perfeitas para poupar saliva a quem regressa de férias. De cor branca ou preta, disponíveis em todos os tamanhos de adulto, com uma das seguintes frases estampada na parte frontal:

Versão 1: «O tempo esteve excelente e a água um espanto!»

Versão 2: «Ainda apanhámos um bocadinho de chuva mas esteve quase sempre bom.»

Versão 3: «Oh, assim como assim, o importante é descansar.»

Preço: €15,00 cada. Desconto de 10% na compra das três versões (aproveite: as que não usar este ano, usa nos próximos).

Se eu não voltar não se preocupem


Sérgio de Almeida Correia,

Aqui também há Internet e um canal a dar os jogos do Benfica, com a vantagem de não passarem os discursos de Quarteira, as propostas do Narciso “socialista” ou as anedotas do Relvas. E como boas leituras não me faltam, espero que a minha ausência seja ainda menos notada do que os milhões que diariamente saem do País a caminho da conta de uma offshore com a chancela do Coelho, do Gaspar e da troika. 

Cale


lauraramos,

Na A1 em direcção ao Norte, rumo a esse trópico imaginário com nome alquímico: férias. Os preliminares enjoam-me. E o cansaço, este ano, devorou qualquer réstea de festa antecipada. -Quando conseguirei eu partir sem mais, de mãos a abanar, livres para agarrar tudo o que me espera? Excesso de bagagem. Malas mentais, a abarrotar de peso. Felizmente, neste percurso só há controladores de velocidade e flashes devassadores que disparam instantâneos sobre o meu carro, e os  de todos nós, os que desafiamos o limite estabelecido por decreto. Não há check-in nas autoestradas portuguesas (ai, se descobrem e se lembram, como se lembraram da via verde). Apesar de tudo, vou decidida mas de olho vivo em tudo e todos, não vá um doido quebrar o manual de sobrevivência do infractor, tacitamente aceite pelos viajantes do asfalto.
Saí pela fresca. A tardinha garante-me a paz de que preciso. Não gosto de calor e o ar condicionado faz-me mal. Prefiro a janela aberta, o vento na cara, a estrada razoavelmente livre e o Venham Mais Cinco em altos berros no leitor (ninguém ouve). Nas duas faixa S-N, o espectáculo de sempre: pesados a ultrapassar pesados, obrigando os ligeiros a travar, a bufar, a reduzir drasticamente a velocidade para que os tontos possam brincar impunemente. Passo o Porto, e o dédalo de entradas. Desta vez, nada com ele. Quero é a ponte do Freixo, a última cortada. A ver se não me engano na entrada para a A3 (eterna ratoeira para quem circula sempre pela esquerda).  Feito. A preceito. E então sim, suspiro, num arremedo de felicidade, porque me sinto a passar a barreira da atmosfera. Estou finalmente em terras do condado. Há lá força telúrica que se compare a isto… Começo a cantar alto e o parceiro do lado acorda, estremunhado (dorme sempre, num cumprimento à qualidade da minha navegação terrestre… gosto de pensar que é disso). Nomes deliciosos: Cruz. Celeirós. Um rio, Labriosque. Passos. Martim. Um pouco mais e pronto: eis-me chegada a estas paragens onde tudo é verde, tudo é granito escuro, a fazer brilhar hortênsias e glicínias, onde tudo é água e em suma, profusão. Agora, sim, apetece-me andar a 40. Quero sentir o cheiro forte a eucalipto, ouvir os cigarrais, gozar a noite fresca e perder-me a olhar o céu despudoradamente transparente, exibindo aquele disco branco, enorme, que me confirma a entrada num outro reino de grandezas. Essa lua diferente, imensa, nova-rica do espaço sideral, que teima em vir comigo estrada fora, até chegar ao portão verde da casa onde me aguardam.
Boa noite às coisas aqui em cima. Soou a minha hora!

Portugal já está a mudar (24)


Sérgio de Almeida Correia,

“Ora o mesmo PM que há poucas semanas se queixava, a portas fechadas, do “trabalho colossal” que lhe daria tapar o buraco financeiro (este não era colossal, houve quem, aparentemente, truncasse o cochicho que extravasou a porta fechada), anuncia candidamente ao país, via Facebook, e com erros ortográficos, que vai de férias” – Conceição Branco, Observatório do Algarve

Cabanas, dez anos depois


Pedro Correia,

 

Quem disse que não devemos voltar a locais onde já fomos felizes? Uma década depois, regresso a Cabanas e sinto-me como se nunca tivesse trocado este magnífico cenário de férias por nenhum outro. Do apartamento onde estou, vislumbro três níveis diferentes de água: num primeiro plano a piscina, sobrevoada por andorinhas ao amanhecer e cegonhas ao fim da tarde; num plano intermédio, a Ria Formosa, que cada vez faz mais jus ao seu nome; além de tudo, o oceano. À varanda, chega-me o ruído compassado das ondas do mar enquanto os barcos de pesca circulam em várias direcções, preparando-se para abastecer os restaurantes. Amanhã, uma vez mais, o maior dilema será a escolha do local onde jantar. No Pedro, ensopado de enguias ou arroz de lingueirão. No Ideal, a insuperável sopa do mar em pão de trigo alentejano. N’ A Fonte, o inevitável peito de pato com mel. E no restaurante Noélia e Jerónimo, no extremo oriental da freguesia, há raia de alhada, açorda de conquilhas e pataniscas de polvo com arroz de coentros. A saborear tranquilamente na esplanada enquanto o sol declina no horizonte.

Quem disse que não devemos voltar a locais onde já fomos felizes?

Tarde de Outono na Prainha


Pedro Correia,

 

Almoço tardio e prolongado no Caniço, na Prainha (Alvor). Pouca gente no restaurante, onde parece que o tempo se imobilizou. No Verão, é quase impossível estar aqui – e não se consegue arranjar lugar sem marcação prévia. Agora a atmosfera é tranquila. Enquanto aguardo pela sopa de peixe, dou uma espreitadela ao que se vai escrevendo nos jornais. Fantástico: Durão Barroso, o mesmo que debandou para Bruxelas em 2004, deixando o País como sabemos, apela agora à “responsabilidade nacional”. E faz uma pressão indisfarçável para que o PSD viabilize o orçamento, como se um partido da oposição servisse para passar cheques em branco ao Governo ainda antes da apresentação formal da proposta de lei na Assembleia da República. O presidente da Comissão Europeia podia lembrar-se do caso espanhol, onde está igualmente em curso a negociação para o orçamento. O principal partido da oposição, o PP, já deixou claro que não viabilizará as contas públicas para 2011. Zapatero, em minoria no Parlamento, viu-se forçado a dialogar com outra força política – o Partido Nacionalista Basco, que já terá garantido os votos necessários.

Em democracia, o diálogo sem chantagens é fundamental – penso enquanto vejo as ondas a bater no paredão. É um espectáculo deslumbrante. Começa a cair uma chuva fina enquanto aguardo o crepe de camarão. “PSD deve clarificar já posição sobre OE”, declara o ministro das Finanças, que continua sem esclarecer o que correu mal na execução do PEC2 – que antes do Verão tanto ele como o primeiro-ministro garantiam que bastava para estancar a crise. Noutro jornal, vislumbra-se um Teixeira dos Santos bem menos peremptório, garantindo que “o Governo está aberto a negociar”. Negociar como, se o PSD “deve clarificar desde já” a sua posição? E surge um rasgado elogio de capa a Sócrates: “Ele é um dos melhores.” Proferido por quem? Por Tony Blair, reconhecido à escala planetária como um prestigiado estadista.

Nada melhor como remate de refeição. Crise? Qual crise? As ondas continuam a bater contra as rochas enquanto a tarde cai sobre o Caniço. Aos poucos foi deixando de chover.

Com o mar em fundo


Pedro Correia,

 

– A tia de Cascais, de telemóvel em riste, fala de maneira a que todos a ouçam em redor da piscina: “Já estamos no Algarve… Sim, já estamos no Algarve… no Algarve.” À medida que repete a frase, soa cada vez mais a tia.

 

– A morena triste mira-se furtivamente ao espelho e arranca um pêlo das sobrancelhas com uma pinça antes de voltar a mergulhar na leitura do romance de Margarida Rebelo Pinto.

 

– O futebolista angolano tenta impressionar a namorada, uma bonita mestiça, encomendando a bebida mais cara do cardápio: sangria de champanhe. Azar: ela declara não gostar de sangria, nem sequer de champanhe. Mas o que conta é a intenção: a bebida mantém-se quase intacta no jarro enquanto a conversa entre os dois vai aquecendo.

 

– O viciado em fórmula um vira costas à piscina, fixando os olhos no grande ecrã televisivo. Ninguém mais o imita neste gesto: as corridas de bólides deixam o resto da tribo indiferente. A começar pela mulher dele, solitária na esplanada, sem vontade sequer de folhear a Lux.

 

– A loirinha com adesivos na cara explica a alguém, com quem fala ao telemóvel, que a operação plástica “não correu muito bem” e terá de ser repetida. A mãe, que não a larga, olha para ela com ar magoado e enternecido.

 

– Os miúdos alemães jogam com uma bola que por vezes cai à piscina, salpicando a tia com pingos de água. “Don’t do that”, ralha a melindrosa senhora. Eles não a entendem. E voltam teimosamente ao mesmo. Tem lógica: na Europa, são os alemães a ditar as regras.

 

– O director de jornal chega tarde à piscina, de telemóvel numa mão e um saco do Expresso na outra. Tem um ar preocupado. Parece hesitar se ficará ou não ali instalado debaixo de um guarda-sol. Opta enfim por retirar-se. Lá vai ele, com o saco do Expresso e o ar preocupado.

 

– Um jovem casal-que-não-se-fala: ele senta-se na espreguiçadeira no momento em que ela se levanta, depois levanta-se mal ela regressa. Vão à piscina em momentos alternados como se obedecessem a uma espécie de coreografia muito particular. Estão juntos mas parecem ignorar-se: silenciosamente desencontrados.

 

– No parque infantil, miúdos preparam-se para uma partidinha de futebol. “Eu sou o David Villa”, diz um. “Não, eu é que sou o Villa”, contesta outro. São portugueses, mas não mencionam Cristiano Ronaldo. Para azar de José Sócrates, não houve golden share no Mundial de futebol.

Noite de São João


Pedro Correia,

 

Fabulosa noite de São João. Tavira inteira parece estar na rua: largas centenas de pessoas concentram-se na Praça da República vendo desfilar as marchas. Habitantes locais, algarvios de outras paragens e turistas das mais diversas proveniências cruzam-se nas rotas amenas destas ruas. Há arraiais, uns mais organizados outros mais espontâneos. Assam-se sardinhas. As esplanadas abarrotam de gente que há meses ansiava por jantar ao ar livre.

Como uns saborosos camarões grelhados num restaurante junto ao rio. Do som da televisão chega-me a voz do primeiro-ministro, que vem agora defender a instalação de portagens nas sete auto-estradas “sem custo para o utilizador” (SCUT). Mas ressalvando que os “residentes” (residentes onde?) e os “utilizadores regulares” (com que regularidade?) ficarão isentos do pagamento, o que tresanda a monumental trapalhada. Trocando por miúdos: mais uma bandeira eleitoral que deu maioria absoluta ao Partido Socialista em 2005 acaba de ser rasgada com a mesma ligeireza e a mesma irresponsabilidade com que foi lançada. A sigla terá forçosamente de mudar: passará a ser CCUT (com custos para o utilizador).

Desinteresso-me rapidamente do telediário, concentrando-me na paisagem que tenho à minha frente. Por mais vezes que aqui venha, não me canso de contemplar este rio, hoje iluminado por uma lua quase cheia. Chega-me ao longe o som dos arraiais que não tarda a sobrepor-se ao da televisão. Os camarões estão óptimos. O Governo é péssimo, mas isso agora não me interessa nada.

Um jantar em Tavira


Pedro Correia,

 

No ponto mais alto de Tavira, junto ao castelo, com uma vista deslumbrante. A tarde vai-se escoando lentamente, ao ritmo deste Verão que tanto tardou a chegar. Gosto de rever as olaias e as oliveiras no largo fronteiro, de ouvir o som dos sinos a assinalar a passagem das horas, de ver o céu riscado pelo labor incessante das andorinhas. Janto na larga varanda debruçada sobre a cidade num dos meus restaurantes de eleição. A Ver Tavira. Entrada: pétalas de tomate confitado com lascas de bacalhau e tapete de massa brick regado com azeite de tomilho. Leio num jornal que a frota automóvel do Estado português aumentou em 1200 veículos entre 2008 e 2009 – excelente exemplo num país em crise. Perante casos como este, como é que o Governo socialista tem autoridade moral para pedir cada vez mais sacrifícios aos portugueses, nomeadamente no plano fiscal?

A noite vai caindo. Chega-me agora à mesa o prato principal: lombinho de tamboril enrolado em bacon confitado servido com camarão e risotto de coentros com molho de caril. Outro jornal informa-me que há já quem, a pretexto da crise, queira reduzir os feriados para o número mínimo (Natal e pouco mais) e questione até as “férias pagas” dos trabalhadores portugueses. Para esta gente, que se proclama de direita, o cenário ideal é o da China, onde o Partido Comunista funciona simultaneamente como entidade patronal e comissão liquidatária de todos os direitos laborais – incluindo o direito à greve e o direito ao sindicalismo independente do poder político. Uma vez mais, os extremos tocam-se.

Mas não há só más notícias nas páginas dos diários portugueses e espanhóis que folheio em férias. Um taxista britânico acaba de receber em herança 300 mil euros de uma velhota sem família recém-falecida num lar. O homem conduziu a senhora diariamente, durante duas décadas – e ela mostrou não ser ingrata, o que nos leva não perder por completo a fé na natureza humana. Parece aquele filme, Driving Miss Daisy. Mas os enredos da vida real ultrapassam tantas vezes os da ficção. Em quantidade e qualidade.

É hora da sobremesa. Bolo de mousse de chocolate com gelado de manga e framboesa. Todas as luzes de Tavira já se acenderam. Confirmo: é uma cidade de um encanto sem par.

 

Crónicas maiorquinas (8)


Pedro Correia,

 

As praias. Maiorca tem este encanto suplementar: estão aqui algumas das mais deslumbrantes praias da Europa. Aconselho aliás quem procura a ilha essencialmente em busca de praia a não ficar em Palma de Maiorca – apesar de haver pelo menos cinco nas imediações da capital maiorquina, incluindo a enorme Platja de Palma, de seis quilómetros de extensão e com bandeira azul atribuída pela União Europeia. Podem optar pelas ilhas vizinhas. Mas nesta altura do ano só 16 por cento dos hotéis de Ibiza e 10 por cento dos de Formentera estão abertos.

O melhor destino, para este efeito, é no extremo oposto de Maiorca: percorrer a ilha de sul para norte, com quase todo o percurso já feito em auto-estrada, e aportar à vasta baía de Alcudía, cheia de praias convidativas e hotéis a condizer. Ou ficar ali perto, na zona de Formentor, também com praias excelentes. Num dia de sorte, podemos até cruzar-nos com Catherine Zeta-Jones – ela e Michael Douglas têm casa em Maiorca.

Por mim, no entanto, não trocava nada por um recanto que só descobri nesta segunda visita à maior das ilhas Baleares: Port de Sóller, pequena vila piscatória, aparição deslumbrante no termo de um percurso que se pode fazer por caminho-de-ferro ou através de uma serpenteante estrada na Serra da Tramontana, com passagem obrigatória por Valldemossa, a fascinante aldeia de montanha onde viveu Chopin.

Já visitei alguns locais mágicos – Port de Sóller é um deles. Saboreio devagar um almoço tardio num dos extremos da baía, em forma de concha. O cenário ideal, à temperatura ideal, céu, sol e mar em conjunção perfeita. Como calamares relleños de verduritas, bebo um rosado da casa, bem fresco. E alimento-me sobretudo da paisagem. Há sítios que visitamos onde gostaríamos de permanecer para sempre. Este é um deles.

 

Crónicas maiorquinas (7)


Pedro Correia,

 

Enterradas outras ideologias, mantém-se pujante a “ideologia de género”. O Governo balear, socialista, elaborou um “anteprojecto de lei de igualdade de mulheres e homens”. Entre outras inovações, impõe-se o “uso não sexista nem androcêntrico da linguagem” nos órgãos de informação, públicos ou privados, e em todos os organismos públicos das Baleares. Determina-se a existência de “paridade de membros entre homens e mulheres” em todos os conselhos directivos de todas as escolas. A “linguagem sexista”, seja lá o que isso for, desaparecerá dos livros escolares e cada centro educativo terá “uma pessoa responsável pela co-educação, com formação específica, que impulsione a igualdade de género”. E em toda a administração pública balear – incluindo municípios com mais de 20 mil habitantes – haverá uma nova “unidade administrativa” (mais burocracia, palavra sexista, do género feminino) destinada a garantir a aplicação da lei. Com todos os funcionários previamente “formados em matéria de igualdade”. Todos e todas – rectifico, já imbuído do espírito do anteprojecto de lei.

Não se admirem de ver uma brilhante inovação legislativa muito semelhante a esta brevemente introduzida pelo Governo socialista em Portugal.